Quinta-feira, Agosto 20, 2026
Manchete

ENTRE LÁGRIMAS E FÉ: MÃE PERCORRE 392 METROS DE JOELHOS EM APARECIDA APÓS FILHA PREMATURA LUTAR PELA VIDA


Foram 392 metros percorridos de joelhos, mas para Gabrielle Luiza, de 28 anos, a distância carregava muito mais do que esforço físico. Cada movimento pela Passarela da Fé, no Santuário Nacional de Aparecida, representava a lembrança de dois meses de internações, noites de medo, aparelhos, diagnósticos delicados e a incerteza sobre o futuro da pequena Catarina. No sábado, 15 de agosto, mãe e filha chegaram juntas ao Santuário para cumprir uma promessa feita quando Catarina ainda lutava pela vida em uma UTI neonatal. Hoje com um ano, a menina está saudável e, segundo a mãe, não apresenta sequelas das complicações enfrentadas logo após o nascimento.

Gabrielle chegou a Aparecida acompanhada da filha, da própria mãe, da irmã e de uma sobrinha. Quando iniciou o trajeto de joelhos, Catarina também esteve em seus braços durante parte do percurso. Para quem observava, era uma mãe carregando a filha. Para Gabrielle, porém, aquele momento reunia tudo o que ela havia vivido desde o nascimento prematuro da menina. A dor nos joelhos ficou em segundo plano diante da recordação dos dias em que não sabia se teria a oportunidade de levar Catarina para casa. Ao recordar o cumprimento da promessa, contou que chorou não pela dor física, mas pelo alívio de olhar para a filha depois de tudo o que haviam enfrentado.

A história começou ainda durante a gestação. Com 30 semanas, Gabrielle apresentou sintomas de pré eclâmpsia e síndrome HELLP, uma complicação grave da gravidez que exigiu atendimento médico urgente. Catarina precisou nascer prematuramente e foi encaminhada diretamente para uma UTI neonatal em Apucarana, no Paraná. O início da vida da menina foi cercado por cuidados intensivos e por uma batalha que mudaria para sempre a relação da mãe com a fé.

No terceiro dia de vida, Catarina apresentou uma grave complicação respiratória. Segundo Gabrielle, o quadro chegou a um ponto em que os médicos informaram à família que as possibilidades de tratamento estavam se esgotando. Para uma mãe que havia acabado de dar à luz e sequer tivera a oportunidade de viver os primeiros dias da maternidade como imaginava, a notícia trouxe um medo difícil de medir. Catarina permanecia cercada por aparelhos e profissionais de saúde enquanto a família acompanhava cada pequena mudança em seu estado clínico.

A menina conseguiu superar aquela fase, mas a luta ainda estava longe do fim. Aproximadamente um mês depois, veio o diagnóstico de retinopatia da prematuridade, uma alteração que pode afetar a retina de bebês que nascem antes do tempo e, em casos mais graves, comprometer a visão. Catarina precisou ser transferida para Campo Largo, também no Paraná, onde continuou internada e passou por novas avaliações.

O temor de Gabrielle naquele momento não era apenas pela sobrevivência da filha. Havia também a possibilidade de Catarina precisar de um procedimento nos olhos e enfrentar consequências para a visão. Posteriormente, os médicos informaram que a cirurgia não seria necessária. Ainda assim, a criança continuava dependente de suporte respiratório e precisava vencer mais uma etapa antes de finalmente poder deixar o ambiente hospitalar.

Foi durante essa fase que Gabrielle fez a promessa a Nossa Senhora Aparecida. A mãe pediu que Catarina conseguisse respirar sem depender do oxigênio e prometeu que levaria a filha ao Santuário Nacional durante cinco anos consecutivos. Na primeira visita, percorreria a Passarela da Fé de joelhos como forma de agradecimento.

Na véspera de uma avaliação médica importante, Catarina ainda utilizava o aparelho para respirar. Durante a noite, porém, a equipe responsável pelo atendimento realizou um novo teste e conseguiu retirar o oxigênio. Na manhã seguinte, quando Gabrielle chegou para ver a filha, encontrou a menina respirando sozinha. Para ela, aquele momento passou a ter um significado que carregaria até Aparecida.

Catarina ainda enfrentou convulsões durante o período de internação. Ao todo, foram aproximadamente dois meses entre UTIs e cuidados hospitalares. Aos poucos, a menina conseguiu superar as complicações, ganhou condições para voltar para casa e passou a seguir seu desenvolvimento ao lado da família.

Um ano depois, Gabrielle finalmente pôde realizar aquilo que havia imaginado enquanto observava a filha entre aparelhos. Em vez de uma incubadora, Catarina estava em seus braços. Em vez dos corredores da UTI, mãe e filha estavam diante da Passarela da Fé. O percurso de 392 metros ganhou para Gabrielle o significado de uma travessia entre duas fases completamente diferentes de suas vidas.

Durante o trajeto, a mãe afirmou que não conseguia se concentrar na dor provocada pelo contato dos joelhos com o chão. Sua atenção estava voltada para o motivo que a havia levado até ali. Em uma das declarações mais marcantes sobre aquele momento, Gabrielle resumiu o sentimento vivido ao completar a promessa: “Eu chorei, mas era um choro de alívio.”

A caminhada também teve um símbolo muito particular. Gabrielle levou ao Santuário o vestido usado por Catarina em sua festa de aniversário de um ano. A comemoração teve Nossa Senhora como tema, e a mãe decidiu entregar a roupa em Aparecida como parte de sua demonstração de agradecimento. Para Gabrielle, o vestido representava uma memória que continuaria registrada em fotografias e em sua história com a filha.

O cumprimento da promessa acabou ultrapassando os limites da família. Gabrielle publicou registros do percurso nas redes sociais e os vídeos alcançaram mais de um milhão de visualizações, fazendo com que pessoas de diferentes lugares conhecessem a história de Catarina. A repercussão transformou uma experiência íntima de uma mãe em um relato compartilhado por milhares de pessoas.

Gabrielle ainda deverá voltar ao Santuário com a filha nos próximos anos, conforme a promessa feita durante a internação. O compromisso é levar Catarina a Aparecida por cinco anos seguidos. Apenas a primeira visita previa o percurso de joelhos.

Hoje, aos olhos da mãe, Catarina representa a resposta para todas aquelas noites em que o futuro parecia incerto. A menina que nasceu com apenas 30 semanas, enfrentou problemas respiratórios, risco relacionado à visão, convulsões e dois meses de internação agora cresce ao lado da família. Gabrielle define a filha com palavras carregadas pela experiência que viveu: para ela, Catarina é um “testemunho vivo” e um “milagre vivo”.

No sábado, diante do Santuário Nacional, os 392 metros não apagaram o medo vivido na UTI, mas deram à mãe uma forma de transformar aquelas lembranças em agradecimento. De joelhos e com Catarina nos braços, Gabrielle completou a primeira parte de uma promessa que nasceu justamente quando não sabia se um dia poderia viver aquele momento.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Content is protected !!