Domingo, Agosto 16, 2026
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ADEUS, PADRE CÉSAR: PIONEIRO DA TV APARECIDA E “GIGANTE” DA COMUNICAÇÃO CATÓLICA MORRE AOS 81 ANOS


A Igreja Católica e a comunicação brasileira perderam, na noite de sábado (15), um dos nomes que ajudaram a construir a presença de Aparecida no rádio e na televisão. Padre Antônio César Moreira Miguel, missionário redentorista, jornalista, radialista, professor e escritor, morreu aos 81 anos, às 22h, na Santa Casa de Guaratinguetá, onde estava hospitalizado. Natural de Cachoeira Paulista, ele dedicou 61 anos à vida religiosa e 55 anos ao sacerdócio, deixando uma trajetória profundamente ligada à Rádio Aparecida, à criação da TV Aparecida e à formação de gerações de comunicadores.

A morte provocou manifestações de pesar dentro e fora da Congregação Redentorista. Entre as homenagens, uma das mais marcantes veio de Padre Zezinho, amigo de décadas e companheiro de trabalho na comunicação católica. Ao recordar Padre César, o sacerdote dehoniano resumiu a dimensão que atribuía ao amigo com uma frase forte: “Poucos sabem o gigante que ele foi”. Padre Zezinho também o definiu como um excelente catequista e comunicador da fé, lembrando uma convivência construída ao longo de muitos anos em Aparecida.

Padre César nasceu em 5 de maio de 1945, em Cachoeira Paulista, filho de Antônio Moreira Miguel e Abrozina Zacharias Miguel. Era o caçula de uma família de sete filhos, formada por quatro mulheres e três homens. Sua ligação com a vida religiosa começou muito cedo. Aos 11 anos, em 1956, deixou a família e ingressou no Pré Seminário da Pedrinha, em Guaratinguetá, iniciando o caminho que o levaria à Congregação do Santíssimo Redentor. Depois, prosseguiu os estudos no Seminário Santo Afonso, em Aparecida.

Em 1964, realizou o noviciado em Pindamonhangaba e, no dia 2 de fevereiro de 1965, professou os primeiros votos religiosos na Basílica Histórica de Aparecida. Estudou Filosofia e Teologia, fez os votos perpétuos em março de 1970 e foi ordenado diácono em maio daquele ano. A ordenação sacerdotal ocorreu em 13 de dezembro de 1970, no Santuário Nacional de Aparecida, pelas mãos de Dom Juvenal Roriz, então bispo prelado de Rubiataba, em Goiás.

Antes de se tornar uma das figuras mais conhecidas da comunicação católica, Padre César trabalhou na formação religiosa e na Pastoral Vocacional. Mas foi entre 1977 e 1980 que uma parte decisiva de sua história começou a ganhar forma. Nesse período, estudou Jornalismo e Comunicação Social e acumulou experiências profissionais em algumas das principais emissoras do país, passando pelas rádios Globo, Excelsior, atual CBN, Record, Capital e América, em São Paulo, além da Difusora de Goiânia.

A comunicação deixaria de ser apenas uma atividade profissional e se transformaria em uma das grandes missões de sua vida. Em 1981, Padre César assumiu a direção da Rádio Aparecida, onde permaneceu até o fim daquela década. Mais tarde, retornou à direção da emissora em 1997 e continuou ligado à rádio até 2012. Sua atuação também alcançou instituições nacionais do setor: presidiu a União de Radiodifusoras Católicas, a UNDA, e a Rede Católica de Rádio, a RCR, entidade da qual foi um dos fundadores.

Foi também professor. Entre 1990 e 1996, ensinou Jornalismo na Faculdade Dehoniana, em Taubaté, e atuou na Universidade de Taubaté, a Unitau, entre 1990 e 1998. Dessa maneira, a experiência construída diante dos microfones e na direção das emissoras chegou também às salas de aula, onde Padre César ajudou na formação de novos profissionais da comunicação.

Um dos capítulos mais importantes de sua trajetória começou em 2005, quando participou diretamente do nascimento da TV Aparecida. Padre César foi um dos fundadores da emissora e seu primeiro diretor. Segundo a própria Rede Aparecida, ele teve participação fundamental na implantação dos primeiros estúdios, aquisição de equipamentos, construção da grade de programação e expansão do projeto televisivo que levaria o nome de Aparecida para milhões de lares brasileiros.

A dimensão desse trabalho ganha ainda mais significado porque Padre César esteve presente em diferentes fases da comunicação. Viveu a força do rádio, participou da consolidação de redes católicas de radiodifusão e posteriormente atravessou a transição para a televisão e para novos formatos de comunicação. Em 2014, mesmo depois de deixar funções de direção, voltou a colaborar com o departamento de jornalismo da TV Aparecida.

Seu nome também ficou associado ao jornalismo regional. Durante muitos anos, Padre César participou de conteúdos da Rádio Aparecida que buscavam aproximar a população das autoridades e discutir questões do cotidiano do Vale do Paraíba. Pouco mais de um mês antes de sua morte, uma publicação especial da própria Rádio Aparecida, ao celebrar a história do Jornal Regional, voltou a destacar a importância do sacerdote na construção e consolidação do jornalismo da emissora.

Padre César não limitou sua atuação aos microfones e câmeras. Também foi escritor e publicou obras como “Tudo Eu? Quando a vida se torna uma desculpa”, “Palavras que vão e vêm”, “Lembranças do Padre Vítor na Rádio Aparecida”, “Comunicação também se aprende”, “Religião também se aprende” e “Assunto do Dia”. Editou ainda a revista Boa Notícia, da União dos Redentoristas do Brasil, e publicou numerosos artigos em jornais e revistas católicas.

Outra marca de sua trajetória foi a participação durante quase duas décadas no programa do comunicador Eli Corrêa, nas rádios Globo e Capital. No quadro “Momentos de Fé”, Padre César respondia às perguntas dos ouvintes, unindo sua formação religiosa à experiência construída no rádio e transformando o microfone em instrumento de evangelização e orientação.

Nos últimos anos, o religioso passou a enfrentar problemas de saúde. A biografia oficial divulgada pelos Redentoristas informa que Padre César havia recebido diagnóstico de Alzheimer e passou a ser acompanhado por equipes de enfermagem. Em 2023, foi transferido para a Comunidade Irmão Bento, em Potim, onde continuou recebendo cuidados. Mais recentemente, diante do quadro de saúde, precisou ser hospitalizado na Santa Casa de Guaratinguetá. A Província Nossa Senhora Aparecida não informou uma causa específica para a morte.

A despedida acontece neste domingo (16), justamente em Aparecida, cidade que esteve presente em praticamente toda a caminhada religiosa e profissional do sacerdote. O velório teve início às 9h no Convento do Santuário Nacional. A Missa de Corpo Presente está marcada para as 14h, no Altar Central do Santuário Nacional de Aparecida, e o sepultamento será realizado depois da celebração.

A Rede Aparecida também publicou uma homenagem institucional, recordando Padre César como um dos responsáveis pela consolidação de um projeto de comunicação voltado à evangelização. A emissora destacou sua contribuição para a Rádio e a TV Aparecida, sua atuação na formação de comunicadores e o trabalho realizado durante décadas para fortalecer a presença da Igreja nos meios de comunicação.

Entre as muitas mensagens deixadas após sua morte, a homenagem de Padre Zezinho ganhou destaque justamente por revelar uma amizade que atravessou décadas. Os dois se conheceram ainda no período de Padre Vítor Coelho de Almeida e posteriormente trabalharam juntos em diferentes momentos da comunicação católica. Padre Zezinho afirmou que os dois cresceram e aprenderam juntos e descreveu Padre César como um homem honesto, verdadeiro, incansável e dedicado a valorizar as pessoas ao seu redor.

Há ainda uma coincidência carregada de simbolismo para aqueles que acompanharam sua vida religiosa. Padre César morreu em 15 de agosto, data ligada à celebração da Assunção de Nossa Senhora. Devoto de Nossa Senhora Aparecida durante toda sua caminhada sacerdotal, teve esse detalhe lembrado pelo próprio Padre Zezinho na despedida publicada após a confirmação da morte.

Adeus, Padre César. De Cachoeira Paulista aos microfones das grandes rádios, das salas de aula à direção da Rádio Aparecida, dos primeiros estúdios ao nascimento da TV Aparecida, sua trajetória se confunde com parte importante da história moderna da comunicação católica brasileira. Foram 81 anos de vida, 61 de consagração religiosa e 55 de sacerdócio, números que agora passam a fazer parte da memória dos Missionários Redentoristas e da Rede Aparecida.

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