ADEUS, HELOÍSA E HELENA: APÓS UM ANO DE CIRURGIAS, GÊMEAS DE SJC MORREM NA ETAPA FINAL DA SEPARAÇÃO
O sonho da família era simples de dizer, mas enorme diante da complexidade médica enfrentada desde o nascimento: ver Heloísa e Helena separadas, capazes de olhar uma para a outra, brincar frente a frente e serem carregadas individualmente no colo. Depois de mais de um ano de preparação e cinco procedimentos cirúrgicos, essa esperança terminou de forma dolorosa na noite de sábado (15). As gêmeas craniópagas de São José dos Campos, que nasceram unidas pela cabeça, morreram durante a etapa definitiva da separação no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. A cirurgia mobilizou mais de 50 profissionais e durou aproximadamente 15 horas.
Heloísa e Helena tinham 2 anos e 7 meses. As meninas nasceram prematuras, com oito meses de gestação, em 13 de janeiro de 2024, no Hospital Municipal de São José dos Campos, na Vila Industrial. A raridade e a complexidade da condição fizeram com que fossem transferidas logo após o nascimento para Ribeirão Preto, onde uma equipe especializada começou a estudar como poderia ser realizada uma separação segura.
Desde então, a vida da família passou a ser organizada em torno do tratamento. A mãe, Claudilene Aparecida dos Santos, mudou-se para Ribeirão Preto para permanecer perto das filhas, enquanto o pai, Amarildo Batista da Silva, acompanhava as etapas e buscava reorganizar a vida familiar entre São José dos Campos e a cidade onde as meninas estavam sendo tratadas. Em entrevistas concedidas ao longo do processo, Amarildo deixava claro que um dos maiores desejos era ver as duas filhas finalmente conseguindo enxergar o rosto uma da outra de frente.
O desafio enfrentado pelos médicos era considerado de altíssima complexidade. Heloísa e Helena eram gêmeas craniópagas, nome dado aos casos em que as crianças nascem unidas pela região do crânio. No caso delas, havia compartilhamento de estruturas cerebrais e vasos sanguíneos, exigindo que a separação fosse realizada progressivamente. O planejamento levou mais de um ano e utilizou tomografias, ressonâncias magnéticas, realidade virtual e modelos tridimensionais para que as equipes pudessem estudar previamente as estruturas das duas meninas.
A estratégia escolhida foi dividir o processo em cinco operações. A primeira aconteceu em 23 de agosto de 2025, durou cerca de oito horas e permitiu alcançar aproximadamente 25% da separação planejada. Mais de 50 profissionais participaram daquele primeiro grande passo, que foi acompanhado de perto pela família e tratado pela equipe como parte de uma preparação longa para a cirurgia definitiva.
A segunda cirurgia foi realizada em 8 de novembro de 2025 e durou aproximadamente dez horas. O procedimento avançou novamente sobre as estruturas compartilhadas, levando o trabalho acumulado para cerca da metade do processo previsto. Heloísa e Helena reagiram àquela etapa e receberam alta hospitalar 19 dias depois, continuando o acompanhamento médico necessário para os procedimentos seguintes.
Em 28 de fevereiro de 2026, veio a terceira operação. Foram aproximadamente sete horas dentro do centro cirúrgico. Na ocasião, a equipe informou ter atingido cerca de 75% da separação do cérebro e dos vasos sanguíneos compartilhados pelas irmãs. A divisão do tratamento em várias cirurgias tinha justamente a finalidade de reduzir riscos e permitir que o organismo das meninas tivesse tempo para se adaptar entre uma intervenção e outra.
A quarta etapa aconteceu em 21 de março e teve um objetivo diferente. Em vez de concentrar o trabalho principalmente na separação das estruturas cerebrais, os médicos prepararam a pele necessária para o fechamento das cabeças depois da cirurgia definitiva. Foram implantadas bolsas expansoras de silicone sob a pele, posteriormente preenchidas de forma gradual com soro fisiológico para aumentar a superfície disponível para a reconstrução. A operação durou cerca de seis horas.
A cirurgia final estava inicialmente prevista para 27 de junho, mas precisou ser adiada depois que uma das meninas apresentou um quadro respiratório. O procedimento foi remarcado para sábado (15), quando as equipes de Neurocirurgia Pediátrica, Cirurgia Plástica e profissionais de diversas outras áreas voltaram ao centro cirúrgico para aquela que seria a quinta e última etapa de uma trajetória médica iniciada ainda em 2024.
A operação começou pela manhã. Mais de 50 profissionais da saúde e de apoio participaram do procedimento. Foram cerca de 15 horas de trabalho até que, durante a noite, veio a notícia que ninguém esperava receber depois de tantas etapas enfrentadas pelas meninas. O Hospital das Clínicas confirmou que Heloísa e Helena não resistiram à cirurgia e morreram durante a etapa final do processo de separação. Até esta atualização, o hospital não havia detalhado quais complicações específicas levaram às mortes.
O caso de Heloísa e Helena era o terceiro processo de separação de gêmeas craniópagas conduzido pelo Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Os dois anteriores tiveram separação concluída: Maria Ysabelle e Maria Ysadora, do Ceará, passaram pelo procedimento em 2018, enquanto Allana e Mariah, do interior de São Paulo, foram separadas em 2023. O caso das meninas de São José dos Campos foi o primeiro entre os três acompanhados pela instituição a terminar com a morte das pacientes.
A experiência acumulada nesses casos transformou Ribeirão Preto em uma referência nacional para esse tipo de cirurgia extremamente rara. Em 2018, a equipe realizou a primeira separação de gêmeas craniópagas do hospital. Cinco anos depois, Allana e Mariah passaram pela separação definitiva após uma operação que atravessou a madrugada e durou mais de um dia. As técnicas desenvolvidas nesses tratamentos incluem planejamento virtual, modelos tridimensionais, reconstrução craniana e uma atuação integrada de neurocirurgiões, cirurgiões plásticos, anestesistas, intensivistas, enfermagem e diversas outras especialidades.
Para Amarildo e Claudilene, porém, todo esse percurso sempre teve um significado que ultrapassava números, porcentagens e horas dentro do centro cirúrgico. Desde que as filhas nasceram, a família reorganizou a própria vida em torno do tratamento. Em 2024, Claudilene já acompanhava as meninas em Ribeirão Preto enquanto parte da família permanecia em São José dos Campos. Campanhas chegaram a ser organizadas para ajudar nos custos da permanência familiar longe de casa durante o longo acompanhamento.
Antes da cirurgia definitiva, a expectativa era de que uma eventual separação ainda fosse apenas o começo de outra fase. Os médicos já haviam explicado que Heloísa e Helena precisariam enfrentar um período prolongado de adaptação e reabilitação depois do procedimento. A família, entretanto, mantinha como símbolo dessa esperança uma cena aparentemente simples para outras crianças, mas que nunca havia sido possível para as duas irmãs: ficarem frente a frente e se olharem.
Foram cinco cirurgias, dezenas de profissionais, tecnologias de alta complexidade e uma família que acompanhou cada pequena evolução durante mais de dois anos. Heloísa e Helena atravessaram as quatro primeiras etapas e chegaram à operação que deveria concluir a separação no sábado (15). Depois de 15 horas de procedimento, o Hospital das Clínicas comunicou a morte das duas crianças. A causa médica específica das complicações ainda não havia sido divulgada até a última atualização.
Adeus, Heloísa e Helena. Nascidas juntas em São José dos Campos em janeiro de 2024, as duas irmãs passaram praticamente toda a vida compartilhando também uma longa caminhada médica. A história que mobilizou a família, profissionais de saúde e milhares de pessoas que acompanhavam cada cirurgia terminou na noite de sábado, justamente na etapa que havia sido planejada para permitir que as duas começassem uma nova fase separadas.


