“NÃO FIQUEI PADRE PARA OUVIR ISSO”: AOS 85 ANOS, PADRE ZEZINHO SILENCIA NAS REDES APÓS ATAQUES E OFENSAS
Depois de 60 anos dedicados à catequese, à música e à tentativa de construir diálogo dentro da Igreja Católica, Padre Zezinho anunciou que ficará em silêncio nas redes sociais a partir deste domingo, dia 2 de agosto. Aos 85 anos, o sacerdote afirmou ter chegado ao limite após ser alvo de ataques, acusações políticas e ofensas pessoais, entre elas a afirmação de que seria um “câncer da Igreja”.
O comunicado recebeu o título de “A Gota D’Água” e foi apresentado como uma decisão tomada após os acontecimentos das últimas semanas. Padre Zezinho informou que continuará conversando apenas com aproximadamente 100 catequistas por meio do WhatsApp, mantendo o compromisso assumido com o grupo. Quanto às demais plataformas, deixou uma dúvida que preocupou seus seguidores.
“Não sei se voltarei às outras redes sociais”, escreveu.
Padre Zezinho explicou que sua entrada na internet aconteceu por orientação de bispos e de um irmão de congregação. Com o passar dos anos, as plataformas digitais se transformaram em uma extensão de seu trabalho pastoral, permitindo que o religioso continuasse publicando reflexões, orientações e textos de catequese mesmo com a redução das viagens, apresentações e celebrações em razão da idade e das condições de saúde.
A presença digital, no entanto, passou a ser acompanhada por confrontos cada vez mais intensos. O sacerdote afirmou que se cansou de ser atacado por defender a Doutrina Social da Igreja e por abordar a Teologia da Libertação a partir das orientações e correções apresentadas pela própria Igreja Católica.
No comunicado, Padre Zezinho mencionou uma carta de São João Paulo II, datada de 9 de abril de 1986, e recordou sua formação inspirada pelo Padre Léon Dehon, fundador da Congregação dos Sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus. Segundo o religioso, sua caminhada sempre esteve ligada à defesa dos ensinamentos sociais da Igreja, ao respeito pela dignidade humana e ao diálogo entre diferentes correntes pastorais.
Mesmo assim, ele afirmou que outras vozes passaram a falar mais alto e que uma resposta considerada por ele simples e paterna sobre a maneira de pregar ao microfone acabou transformada em confronto político. A manifestação provocou discussões entre católicos com diferentes visões religiosas, sociais e pastorais.
Para Padre Zezinho, o episódio deixou de ser um debate sobre catequese e passou a ser utilizado para alimentar ataques contra sua imagem e sua trajetória sacerdotal. O religioso afirmou que a forma como o conteúdo foi publicado ampliou a discórdia e estimulou uma tentativa de cancelamento.
“Não fiquei padre para ouvir o que ouvi e li no dia 19 de julho”, declarou.
O sacerdote também afirmou acreditar que a pessoa responsável pela divulgação daquele confronto tinha a intenção de afastá lo das redes sociais. Na avaliação dele, o objetivo acabou sendo alcançado.
“Quem postou aquele confronto e a maneira como foi postado quis me cancelar e alcançou seu objetivo”, escreveu.
Apesar do afastamento, Padre Zezinho reiterou a posição que sustenta há décadas. Para ele, a catequese deve ser gentil, respeitosa e acolhedora, inclusive quando apresenta ensinamentos exigentes ou posicionamentos que possam contrariar parte do público.
A decisão ocorre após uma sequência de ataques virtuais denunciada publicamente pelo sacerdote. Em entrevista divulgada em junho, Padre Zezinho afirmou que era agredido diariamente nas redes e que algumas pessoas o chamavam de “câncer da Igreja”.
A expressão teve um peso ainda mais doloroso porque o próprio religioso revelou estar em tratamento contra um câncer. Na ocasião, ele afirmou que nunca desejaria a doença a ninguém e que não utilizaria esse tipo de comparação para atacar pessoas das quais discorda.
Padre Zezinho também declarou que continuaria buscando o diálogo e preservando a amizade mesmo diante de divergências. A postura, porém, não impediu que vídeos manipulados, acusações e conteúdos falsos passassem a circular associando seu nome a posicionamentos políticos e ideológicos.
Uma das ondas de ataques ganhou força depois que ele compartilhou um artigo do filósofo e sociólogo Romero Venâncio, professor da Universidade Federal de Sergipe. O texto manifestava preocupação com o crescimento de comportamentos extremistas entre grupos católicos presentes nas redes sociais.
Após a publicação, conteúdos passaram a apresentar Padre Zezinho como defensor do comunismo. O sacerdote rejeitou essa associação e reafirmou que sua atuação sempre esteve ligada à Doutrina Social da Igreja e aos ensinamentos católicos.
Padre José Fernandes de Oliveira, conhecido em todo o país como Padre Zezinho, é um dos nomes mais importantes da música religiosa brasileira. Ele é autor de mais de 1,8 mil canções, muitas delas cantadas há décadas em missas, encontros de famílias, retiros, grupos de jovens e celebrações católicas.
Sua obra ultrapassou os limites das igrejas e alcançou o público popular, abordando temas como fé, família, vocação, solidariedade, justiça social, juventude, amor e responsabilidade cristã. Ao longo de sua trajetória, o sacerdote também publicou livros, participou de programas de rádio e televisão e percorreu diferentes regiões do Brasil em atividades de evangelização.
Nos últimos anos, as redes sociais permitiram que ele mantivesse contato frequente com o público. Sua página oficial no Facebook reúne mais de um milhão de seguidores e vinha sendo utilizada para divulgar textos, reflexões religiosas e orientações sobre catequese.
A partir deste domingo, porém, esse trabalho público será interrompido. Padre Zezinho permanecerá em contato apenas com o grupo de catequistas pelo WhatsApp. Não foi informada uma data para o retorno às demais plataformas, e o próprio sacerdote afirmou não saber se voltará.


