DECOLAGEM QUE NÃO PODIA ACONTECER: CENIPA APONTA FALHAS ANTES DA QUEDA DA VOEPASS QUE MATOU 62 PESSOAS
O avião da Voepass que caiu em uma área residencial de Vinhedo, deixando 62 mortos, não deveria ter sido autorizado a decolar nas condições em que se encontrava. Essa é uma das principais conclusões do relatório final elaborado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos sobre a tragédia ocorrida em agosto de 2024.
O documento apresenta uma sequência de fatores técnicos, humanos e operacionais que contribuíram para o acidente envolvendo a aeronave ATR 72, de matrícula PS VPB. O avião havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando perdeu o controle durante o voo e caiu em Vinhedo.
Segundo a investigação, o sistema Airframe De Icing, utilizado para proteger a estrutura da aeronave contra o acúmulo de gelo, estava inoperante. Diante dessa condição, o avião não poderia ser liberado caso existisse previsão de formação de gelo ao longo do percurso.
Durante o voo, a aeronave encontrou condições meteorológicas severas para a formação de gelo. O acúmulo nas superfícies comprometeu o desempenho aerodinâmico, aumentou a resistência ao avanço, provocou perda progressiva de velocidade e reduziu a capacidade de sustentação do avião.
A sequência terminou com a entrada da aeronave em estol aerodinâmico, situação em que as asas deixam de produzir sustentação suficiente para manter o voo. O ATR perdeu o controle e iniciou uma queda em direção ao solo, atingindo uma área residencial de Vinhedo.
Todas as 62 pessoas que estavam a bordo morreram. Eram 58 passageiros e quatro tripulantes. Apesar de a aeronave ter caído próxima a residências, não houve mortes entre as pessoas que estavam no solo.
O relatório também apontou que os pilotos demoraram a perceber a gravidade da perda de desempenho provocada pelo gelo. Os procedimentos determinados pelo fabricante para enfrentar uma situação de formação severa não teriam sido executados em tempo suficiente para retirar o avião da condição de risco.
Entre as medidas previstas estavam abandonar rapidamente a região de formação de gelo, manter a velocidade mínima necessária para a segurança da aeronave e adotar os procedimentos operacionais específicos para preservar o controle do voo.
O Cenipa destacou, no entanto, que os dois pilotos estavam devidamente habilitados e haviam recebido treinamento específico para operar aquele modelo de aeronave. A investigação não questionou a regularidade das licenças profissionais dos tripulantes.
As análises também avançaram sobre o histórico operacional do avião. Mais de 1.200 voos realizados pela aeronave foram examinados durante a investigação, permitindo que os técnicos identificassem registros anteriores de degradação de desempenho e problemas relacionados ao sistema de proteção contra gelo.
De acordo com o documento, foram encontrados casos de falhas no Airframe De Icing, reinicializações sucessivas do sistema e alertas que não teriam recebido o tratamento adequado durante operações anteriores.
A apuração indicou que alguns problemas técnicos não foram formalizados de maneira suficiente nos registros da aeronave. Essa ausência de informações teria dificultado a adoção de medidas por parte das equipes de manutenção e dos responsáveis pela liberação do avião.
O relatório apontou fragilidades na cultura de segurança operacional da Voepass. Segundo os investigadores, a repetição de determinados procedimentos e a convivência com alertas técnicos contribuíram para uma normalização de situações que deveriam ter recebido uma avaliação mais rigorosa.
O Cenipa ressaltou que a investigação aeronáutica possui caráter preventivo. O objetivo do trabalho é identificar fatores que contribuíram para o acidente e apresentar recomendações capazes de evitar novas tragédias. O relatório não tem a função de estabelecer culpa criminal ou responsabilidade civil.
As conclusões deverão ser analisadas por outros órgãos responsáveis pela fiscalização, regulação e apuração do acidente. A Agência Nacional de Aviação Civil informou que fará uma avaliação técnica detalhada das constatações e das recomendações relacionadas às atribuições da agência.
A Anac reforçou que os trabalhos conduzidos pelo Cenipa são direcionados à prevenção de acidentes e ao aperfeiçoamento da segurança operacional da aviação civil brasileira.
A Voepass declarou que colaborou com as investigações desde a queda da aeronave e manifestou solidariedade aos familiares e amigos das vítimas. A empresa afirmou que sempre adotou procedimentos voltados à segurança e à capacitação de seus profissionais.
A companhia também destacou que, em mais de três décadas de operação, nunca havia enfrentado uma tragédia com essa dimensão. As conclusões do relatório, entretanto, colocaram sob análise os procedimentos de manutenção, operação, registro de falhas e liberação da aeronave.
A tragédia deixou marcas profundas no Vale do Paraíba. Entre as vítimas estava José Carlos Copetti, de 45 anos, morador de Jacareí. Ele trabalhava como gerente de logística da empresa Mantiqueira e viajava por motivos profissionais.
José Carlos residia no bairro Vila Branca com a esposa e os dois filhos. Sua morte provocou forte comoção entre familiares, amigos, colegas de trabalho e moradores da cidade.
Também morreram Maria Auxiliadora e José Cloves, moradores de Guaratinguetá. O casal de aposentados retornava de uma visita a familiares em Cascavel quando embarcou no voo que seguiria para Guarulhos.
Maria Auxiliadora trabalhou durante cerca de 50 anos como professora de Educação Física e participava de atividades religiosas como ministra da Eucaristia. José Cloves atuava como fotógrafo. O casal deixou uma filha.
O relatório final apresenta um cenário em que diferentes fatores se somaram até a perda completa do controle da aeronave. A falha no sistema de proteção contra gelo, a liberação do avião, as condições meteorológicas severas, a degradação do desempenho e a demora na adoção dos procedimentos de emergência aparecem entre os principais pontos analisados.
Quase dois anos depois da tragédia, a conclusão de que o avião não deveria ter decolado amplia os questionamentos das famílias das vítimas e acrescenta novos elementos às apurações conduzidas por autoridades brasileiras.


