DIREITOS TRABALHISTAS, DESAPARECIMENTO E SUSPEITA DE MORTE: O DRAMA DA COZINHEIRA BERENICE
Berenice Ramos de Aguiar Faria, de 60 anos, saiu para resolver o que deveria ser o encerramento de um vínculo de trabalho e nunca mais voltou para casa. A cozinheira, que trabalhava em uma pousada no bairro Ubatumirim, em Ubatuba, desapareceu após ser dispensada por causa da baixa temporada e, segundo a Polícia Civil, o caso passou a ser investigado como possível homicídio. A principal suspeita é a proprietária da pousada, presa temporariamente durante a Operação Último Rastro.
A linha de investigação apura se Berenice pode ter sido morta para evitar o pagamento de direitos trabalhistas. A cozinheira pretendia retornar para Igaratá, no Vale do Paraíba, assim que recebesse os valores da rescisão. Na manhã de 30 de junho, ela conversou normalmente com a filha por mensagens. Depois disso, aceitou uma carona oferecida pela patroa até o trevo de acesso à Rodovia Oswaldo Cruz. De acordo com a investigação, esse foi o último momento em que Berenice foi vista.
Poucas horas depois, a cozinheira deixou de responder às mensagens da família. O silêncio causou estranhamento imediato, já que, segundo os parentes, Berenice não tinha comportamento de quem abandonaria os filhos ou desapareceria voluntariamente. O rastreamento do celular indicou que o aparelho permaneceu em Ubatuba, com último sinal registrado na manhã de 1º de julho, o que aumentou a suspeita de que ela nunca tenha deixado a cidade.
Durante a apuração, a Polícia Civil identificou que Berenice e a empregadora teriam discutido antes do desaparecimento. Em depoimento, a empresária afirmou ter pago cerca de R$ 2,6 mil referentes à rescisão trabalhista e disse que deixou a funcionária no trevo da rodovia. Ela também declarou que a cozinheira teria conseguido um novo emprego na região da Praia das Toninhas, versão contestada pela família.
Com o avanço das investigações, o caso deixou de ser tratado apenas como desaparecimento e passou a ser investigado como possível homicídio. A Delegacia de Investigações Gerais de São Sebastião deflagrou a Operação Último Rastro na sexta-feira, 10 de julho, mobilizando 14 policiais civis e cinco viaturas para cumprir mandado de prisão temporária e ordens de busca e apreensão expedidas pela Justiça.
A proprietária da pousada foi presa temporariamente e permanece à disposição da Justiça. A prisão não representa condenação, mas foi autorizada para permitir o avanço das investigações em uma fase considerada decisiva do inquérito. A Polícia Civil busca reunir provas que ajudem a esclarecer o que aconteceu com Berenice depois da carona, qual foi o caminho percorrido e se houve participação de outras pessoas no desaparecimento.
Durante a operação, os investigadores apreenderam dois veículos, três armas de fogo, aparelhos celulares, um passaporte, dinheiro e outros materiais que serão submetidos à perícia. Os carros poderão ser peças importantes na investigação, já que os peritos deverão procurar vestígios biológicos, impressões digitais, fibras, objetos pessoais e possíveis sinais de limpeza que indiquem tentativa de ocultação de provas.
Os celulares apreendidos também passarão por análise técnica. A expectativa é que mensagens, chamadas, fotografias, vídeos e registros de localização ajudem a reconstruir a cronologia dos fatos. Esses dados serão confrontados com imagens de câmeras de segurança, depoimentos e informações de geolocalização para tentar definir os últimos passos da cozinheira.
Além da empresária presa temporariamente, um homem também passou a ser investigado formalmente. Segundo o boletim de ocorrência, durante o cumprimento dos mandados, um aparelho celular teria sido descartado em uma área de mata. O telefone não foi localizado, mas o episódio é tratado como possível tentativa de ocultação de provas. Até o momento, não há registro de prisão desse investigado.
As três armas apreendidas serão periciadas para verificar origem, regularidade e eventual relação com o caso. Até agora, não há confirmação de que qualquer uma delas tenha sido usada no possível crime. O passaporte recolhido também permanecerá sob análise, embora a Polícia Civil tenha informado que a apreensão do documento não significa, por si só, tentativa de fuga.
Apesar da prisão da principal suspeita, o corpo de Berenice ainda não foi encontrado. As buscas seguem em áreas de mata de Ubatuba e em locais relacionados aos últimos deslocamentos conhecidos da cozinheira. A ausência do corpo torna o caso ainda mais angustiante para a família, que segue em busca de respostas sobre o paradeiro da vítima e sobre o que teria ocorrido após a última carona.
A Polícia Civil afirma que depoimentos, provas técnicas e a reconstituição dos últimos passos de Berenice reforçam a suspeita de que ela possa ter sido morta. A investigação agora tenta esclarecer se a rescisão trabalhista foi o motivo do crime, se houve planejamento, se outras pessoas participaram e onde o corpo da cozinheira pode ter sido deixado.
O drama de Berenice reúne trabalho, desaparecimento e uma suspeita de morte que abalou familiares e moradores ligados à vítima. Ela saiu com a expectativa de receber seus direitos e retornar para casa, mas desapareceu sem deixar explicações. O caso segue sob investigação, e a Polícia Civil pede que moradores que tenham imagens, informações sobre os veículos investigados ou qualquer dado que possa contribuir procurem uma unidade policial ou façam denúncia anônima pelo telefone 181.


