Domingo, Julho 5, 2026
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PERIGO EM DUAS RODAS: MOTES MATAM MAIS QUE HOMICÍDIOS EM SÃO JOSÉ E ACENDEM ALERTA NO TRÂNSITO


São José dos Campos vive um alerta silencioso nas ruas e rodovias. De janeiro a maio de 2026, morreram mais motociclistas em acidentes de trânsito do que pessoas assassinadas na cidade. O dado expõe uma mudança preocupante no mapa da violência urbana: em vez de estar apenas nas estatísticas criminais, a morte também avança sobre o asfalto, especialmente sobre quem circula em duas rodas.

Segundo levantamento com base em dados do Infosiga, sistema do Detran-SP, e da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, São José registrou 18 motociclistas mortos em acidentes de trânsito nos cinco primeiros meses de 2026. No mesmo período, foram contabilizadas 16 vítimas de homicídio. A diferença é de 12,5% a mais para as mortes envolvendo motociclistas.

O número chama atenção porque não se trata de um episódio isolado. Pelo terceiro período consecutivo, os acidentes com motos superam os homicídios em São José dos Campos. Em 2025, foram 37 motociclistas mortos no trânsito contra 33 pessoas assassinadas, diferença de aproximadamente 12% a mais para os sinistros. Em 2024, a distância foi ainda maior: 39 motociclistas morreram em acidentes, enquanto 23 pessoas foram vítimas de homicídio, uma diferença de quase 70%.

A mudança marca uma virada na série histórica da cidade. Entre 2015 e 2023, os homicídios sempre superaram as mortes de motociclistas em São José. Agora, a realidade se inverteu, e o trânsito passou a ocupar um espaço ainda mais grave nas estatísticas de mortes evitáveis.

O crescimento da letalidade entre motociclistas também aparece na participação desse grupo dentro do total de óbitos no trânsito. Em 2024, os motociclistas representavam 47,56% das mortes registradas em acidentes na cidade. Em 2026, esse percentual chegou a 60%, com 18 motociclistas entre as 30 vítimas fatais do trânsito no período de janeiro a maio.

Na prática, seis em cada dez pessoas que morreram no trânsito em São José dos Campos neste ano estavam em motocicletas. O índice é superior ao percentual regional. No Vale do Paraíba e região, foram registradas 163 mortes no trânsito de janeiro a maio de 2026, sendo 91 motociclistas, o equivalente a 55,82% do total.

Embora o total geral de mortes no trânsito em São José tenha se mantido no mesmo patamar dos cinco primeiros meses de 2025 e 2026, com 30 vítimas em cada período, a morte de motociclistas aumentou. O número passou de 15 para 18, alta de 20% em um ano.

Nos últimos 12 meses, São José dos Campos registrou 77 mortes em acidentes de trânsito e 1.468 sinistros. A cidade apresenta taxa de 2,43 óbitos por 10 mil veículos e 10,95 óbitos por 100 mil habitantes, segundo os dados do Infosiga citados no levantamento. O custo estimado com saúde decorrente dos acidentes de trânsito no município chegou a R$ 196,52 milhões no período.

As vias com mais mortes nos últimos 12 meses foram a Rodovia Presidente Dutra, com 13 óbitos, a Rodovia Carvalho Pinto, com sete, e a Estrada Velha São Paulo-Rio, com quatro. Os números mostram que parte importante da letalidade está concentrada em corredores de grande fluxo, onde a combinação de velocidade, veículos pesados, deslocamentos diários e motocicletas amplia o risco de acidentes graves.

O cenário preocupa porque a motocicleta se tornou meio de transporte, ferramenta de trabalho e alternativa de deslocamento para milhares de pessoas. Entregadores, trabalhadores autônomos, profissionais de serviços, moradores de bairros distantes e pessoas que dependem de agilidade no trânsito usam a moto diariamente. Essa presença maior nas ruas, porém, também aumenta a exposição ao risco.

A vulnerabilidade do motociclista é maior porque não há carroceria, airbag ou estrutura de proteção entre o corpo e o impacto. Uma conversão irregular, uma fechada, uma ultrapassagem arriscada, um buraco, óleo na pista, excesso de velocidade ou distração pode transformar um trajeto comum em ocorrência fatal.

A própria Prefeitura de São José dos Campos já havia apontado, em publicação anterior, que motociclistas eram a principal vítima do trânsito no município. Em 2023, eles representaram 47% das mortes em acidentes. Naquele período, a cidade tinha mais de 477 mil veículos, e as motocicletas correspondiam a cerca de 15% da frota, percentual menor do que a participação dos motociclistas nas mortes, o que revela a desproporção do risco.

O aumento das mortes em duas rodas exige resposta em várias frentes. Fiscalização, educação no trânsito, melhoria da sinalização, manutenção das vias, campanhas para motociclistas e motoristas, controle de velocidade, atenção em cruzamentos e ações voltadas a entregadores e trabalhadores sobre duas rodas são medidas que podem ajudar a reduzir a letalidade.

Também é necessário reforçar a responsabilidade dos demais condutores. Motociclistas dividem espaço com carros, ônibus, caminhões e vans em vias muitas vezes congestionadas. Respeitar distância lateral, sinalizar mudanças de faixa, evitar conversões repentinas e observar retrovisores são atitudes simples que podem evitar mortes.

Os dados mostram que São José dos Campos não enfrenta apenas um problema de trânsito, mas uma crise de segurança viária. Quando acidentes com motos matam mais do que homicídios, a cidade precisa olhar para o asfalto com a mesma urgência com que olha para a criminalidade.

O alerta é claro: a violência também está nas ruas, nas avenidas e nas rodovias. E, em São José, ela tem atingido principalmente quem está em cima de uma moto.

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