TRÂNSITO QUE MATA E PESA NO BOLSO: ACIDENTES GERAM PREJUÍZO DE R$ 795 MILHÕES NO VALE E DEIXAM 385 MORTOS
Os acidentes de trânsito provocaram um impacto milionário no Vale do Paraíba e deixaram uma marca ainda mais grave em vidas perdidas. Em apenas 12 meses, entre maio de 2025 e abril de 2026, a região registrou mais de 6 mil sinistros, 385 mortes e um prejuízo estimado em R$ 795 milhões aos cofres públicos. Os dados fazem parte do Infosiga 3.0, nova versão da plataforma de estatísticas de trânsito do Detran-SP, que passou a incluir também estimativas de custo dos acidentes para o sistema público de saúde.
O levantamento revela a dimensão de um problema que vai além das colisões registradas nas ruas e rodovias. Cada acidente grave mobiliza equipes de resgate, atendimento hospitalar, perícia, policiamento, estrutura de saúde, afastamentos, internações e tratamentos. Quando somados, esses impactos formam uma conta pesada para o poder público e para a sociedade. No Vale, essa conta chegou perto de R$ 800 milhões em um ano.
A região, que reúne cerca de 2,5 milhões de habitantes e uma frota de 1,04 milhão de veículos, conforme dado de abril de 2026, apresentou percentual de fatalidade de 6,32% nos últimos 12 meses. O Infosiga também aponta 6,28 vítimas de acidentes a cada grupo de 10 mil veículos e uma taxa de 15,92 mortes por 100 mil habitantes.
As rodovias continuam concentrando parte importante da violência no trânsito. Nos últimos 12 meses, a Rodovia Presidente Dutra liderou o ranking de mortes na região. Em seguida aparece a SP-055, trecho paulista da Rio-Santos. A SP-062 ficou na terceira posição, seguida pela SP-070, SP-065, BR-101, trecho federal da Rio-Santos, SP-171, SPI 097/055, SP-066 e Avenida Tancredo Neves, em São José dos Campos.
O cenário reforça a preocupação com o tráfego intenso em corredores regionais, especialmente em vias que concentram caminhões, ônibus, motocicletas, veículos de passeio e deslocamentos diários de trabalhadores. Em rodovias como a Dutra e a Rio-Santos, o risco é ampliado pelo volume de veículos, pela velocidade e pela mistura entre tráfego urbano, turístico e de carga.
Abril de 2026 acendeu um alerta ainda mais forte. O mês foi o abril com mais mortes em acidentes de trânsito no Vale do Paraíba nos últimos nove anos. Foram 37 óbitos, superando todos os meses de abril desde 2017. Até então, o abril mais mortal nesse intervalo havia sido registrado em 2023, com 31 mortes.
Além de superar os meses de abril dos últimos anos, abril de 2026 também foi o mês mais letal do ano até o momento, ultrapassando março, que registrou 34 mortes no trânsito. Na série histórica do Infosiga, iniciada em 2015, abril de 2026 passou a ser o terceiro abril com mais óbitos na região, atrás apenas de abril de 2016, quando houve 49 mortes, e abril de 2015, com 38.
Na comparação com abril de 2025, quando foram registradas 24 mortes em acidentes no Vale, abril de 2026 teve crescimento de 54% na mortalidade. O salto mostra que, mesmo com avanços pontuais em alguns indicadores, o trânsito regional segue produzindo tragédias em ritmo preocupante.
O dado chama ainda mais atenção porque o acumulado do primeiro quadrimestre de 2026 apresentou queda no número total de mortes em relação ao mesmo período do ano passado. De janeiro a abril deste ano, foram 117 óbitos, contra 128 no mesmo intervalo de 2025, o que representa recuo de 8,59%. Ainda assim, o mês de abril destoou e concentrou um volume expressivo de perdas.
Também houve redução nos sinistros com vítimas não fatais. De janeiro a abril de 2026, o Vale registrou 1.665 ocorrências desse tipo, contra 2.066 no mesmo período de 2025. A queda foi de 19,41%. Mesmo com esse recuo, o volume de acidentes continua alto e mantém pressão sobre hospitais, unidades de urgência, equipes de resgate e serviços públicos.
Os números mostram que o trânsito segue sendo uma das principais causas de morte evitável na região. Excesso de velocidade, imprudência, desatenção, uso de celular ao volante, ultrapassagens perigosas, consumo de álcool, falta de respeito à sinalização e vulnerabilidade de motociclistas estão entre os fatores que costumam aparecer em ocorrências graves.
O impacto financeiro de R$ 795 milhões também escancara uma realidade pouco percebida pela população. Acidentes não geram apenas congestionamentos e danos materiais. Eles consomem recursos que poderiam ser destinados a outras áreas, como saúde preventiva, educação, infraestrutura, segurança e melhorias viárias. Cada ocorrência grave representa custo humano, social e econômico.
O novo Infosiga 3.0 amplia a leitura sobre o problema ao incluir a estimativa de custos dos sinistros ao sistema público de saúde. A medida permite enxergar o trânsito não apenas como questão de mobilidade, mas também como desafio de saúde pública. Quanto mais acidentes, maior a demanda por ambulâncias, leitos, cirurgias, exames, reabilitação e acompanhamento médico.
No Vale do Paraíba, onde grandes rodovias cortam áreas urbanas e ligam cidades em deslocamentos diários, o desafio é ainda maior. A região combina trânsito local, fluxo interestadual, transporte de cargas, turismo, motociclistas em deslocamento para o trabalho e pedestres em trechos urbanos próximos a vias movimentadas.
A redução dos acidentes depende de fiscalização, engenharia de tráfego, educação no trânsito, manutenção das vias e comportamento responsável de motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Os dados do Infosiga mostram que o problema é grande, caro e, principalmente, mortal.
Com 385 vidas perdidas em 12 meses e um prejuízo estimado em R$ 795 milhões, o trânsito no Vale do Paraíba deixa um alerta claro: a violência nas ruas e rodovias não pode ser tratada como rotina. Cada número representa uma vida interrompida, uma família atingida e um custo que recai sobre toda a sociedade.


