Sexta-feira, Junho 5, 2026
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O MAR DEVOLVE O DESCASO: PESCADORES RETIRAM QUASE 24 TONELADAS DE LIXO EM UBATUBA E SÃO SEBASTIÃO


O que chega ao mar não desaparece. Volta em forma de alerta, prejuízo ambiental e toneladas de resíduos retirados das águas por quem conhece de perto a realidade do litoral. Entre fevereiro e abril deste ano, pescadores artesanais recolheram quase 24 toneladas de lixo de áreas de manguezal e do ambiente marinho em Ubatuba e São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo. O trabalho foi realizado durante o período do defeso do camarão e revelou, mais uma vez, a dimensão do descarte irregular que avança sobre praias, rios, mangues e áreas fundamentais para a vida marinha.

Segundo dados divulgados pelo Governo de São Paulo, somente em Ubatuba foram retiradas 14,8 toneladas de resíduos. Em São Sebastião, o volume chegou a 9,1 toneladas. Somadas, as duas cidades do Litoral Norte concentraram quase 24 toneladas de lixo recolhidas em um curto período, número que expõe não apenas a presença de resíduos no mar, mas também o caminho que esse material percorre até chegar aos ecossistemas costeiros. Muitas vezes, o lixo descartado de forma incorreta nas cidades acaba sendo levado pela chuva, por rios, canais e galerias, até atingir manguezais e o oceano.

A ação faz parte do Programa Mar Sem Lixo, iniciativa que remunera pescadores artesanais pela retirada de resíduos encontrados durante a atividade pesqueira e em áreas de manguezal. O programa une preservação ambiental, geração de renda e valorização de trabalhadores que dependem diretamente do mar para viver. Durante o defeso do camarão, quando a pesca fica restrita para garantir a reprodução da espécie, os pescadores passam a atuar também como agentes de limpeza e proteção ambiental.

Desde 2023, o Programa Mar Sem Lixo já retirou 164 toneladas de resíduos em cidades do litoral paulista. Atualmente, a iniciativa conta com 344 pescadores artesanais cadastrados em todo o estado. Entre fevereiro e abril deste ano, foram recolhidas 43 toneladas de lixo em seis municípios participantes: Ubatuba, São Sebastião, Guarujá, Bertioga, Cananeia e Itanhaém. O volume registrado no Litoral Norte chama atenção pela força simbólica e pelo impacto direto em áreas conhecidas pela beleza natural, pelo turismo e pela pesca tradicional.

O dado mais preocupante está no tipo de resíduo encontrado. De acordo com o programa, 97% do lixo recolhido nos manguezais é composto por plástico. Entre os materiais mais comuns estão embalagens de alimentos industrializados, copos descartáveis e resíduos relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas. São objetos que, quando jogados fora de maneira irregular, podem permanecer por anos no ambiente, fragmentar-se em microplásticos, ser ingeridos por animais marinhos e comprometer toda a cadeia ecológica.

A coordenadora do Programa Mar Sem Lixo, Sandra Leite, afirma que grande parte do lixo encontrado nos manguezais tem origem no descarte irregular nas cidades. A constatação reforça que a poluição marinha não começa apenas na areia da praia ou dentro do mar. Ela nasce também nas ruas, calçadas, terrenos baldios, rios urbanos e locais onde o descarte inadequado ainda é tratado como algo pequeno, mas que, somado, vira um problema de grandes proporções.

Os manguezais são áreas essenciais para o equilíbrio ambiental. Eles funcionam como berçário natural para peixes, crustáceos e diversas espécies marinhas, além de ajudarem na filtragem de poluentes, na proteção da costa contra erosão e na manutenção da biodiversidade. Quando esses ambientes são sufocados por plástico, garrafas, sacolas, copos e embalagens, o prejuízo não fica restrito à paisagem. Ele atinge a pesca, o turismo, a fauna, a qualidade da água e a vida das comunidades que dependem desses recursos.

Em Ubatuba e São Sebastião, a retirada de quase 24 toneladas de lixo também representa um alerta para moradores, comerciantes, turistas e poder público. Cidades litorâneas recebem grande fluxo de visitantes, especialmente em períodos de temporada, feriados e fins de semana prolongados. Esse movimento aumenta a geração de resíduos e exige responsabilidade coletiva para que o lixo tenha destinação correta e não termine nos ecossistemas costeiros.

O trabalho dos pescadores artesanais mostra a importância de envolver quem vive do mar nas ações ambientais. Esses profissionais conhecem os pontos mais atingidos, percebem as mudanças no ambiente e convivem diariamente com os efeitos da poluição. Ao serem remunerados para retirar resíduos, eles contribuem para a preservação e, ao mesmo tempo, garantem renda em um período em que a atividade pesqueira sofre restrições por causa do defeso.

A iniciativa também revela uma contradição preocupante. Enquanto pescadores retiram toneladas de lixo do mar, novos resíduos continuam chegando aos manguezais por causa do descarte irregular. Isso mostra que ações de limpeza são fundamentais, mas não resolvem o problema sozinhas. É preciso evitar que o lixo chegue ao ambiente, com educação ambiental, coleta eficiente, fiscalização, responsabilidade de moradores e turistas e políticas permanentes de gestão de resíduos.

No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, os números do Litoral Norte ganham ainda mais força. A data, criada para estimular a reflexão sobre a preservação do planeta, encontra em Ubatuba e São Sebastião um exemplo concreto do desafio enfrentado pelas cidades costeiras. O lixo retirado pelos pescadores não é apenas estatística. É o retrato de hábitos de consumo, descarte e descuido que precisam ser repensados.

Cada tonelada recolhida representa milhares de embalagens, copos, garrafas e materiais que poderiam continuar prejudicando a vida marinha. Cada resíduo retirado é também um lembrete de que o mar não é destino final para o descaso. O que é jogado fora de forma irregular pode voltar em forma de poluição, prejuízo econômico, degradação ambiental e risco para animais, pescadores e comunidades inteiras.

A presença de plástico em 97% dos resíduos encontrados nos manguezais evidencia a urgência de reduzir o uso de descartáveis e ampliar a responsabilidade sobre o destino do lixo. O plástico, quando chega ao ambiente marinho, não desaparece rapidamente. Ele se acumula, se quebra em partículas menores, contamina organismos e pode retornar até mesmo à alimentação humana por meio da cadeia alimentar.

O Programa Mar Sem Lixo transforma pescadores em aliados diretos da preservação e mostra que políticas públicas bem estruturadas podem gerar resultados concretos. Mas os números também deixam claro que a solução depende de uma mudança mais ampla. Não basta limpar o mar. É preciso impedir que ele continue recebendo o lixo produzido em terra.

Em Ubatuba e São Sebastião, a retirada de quase 24 toneladas de resíduos expõe um problema silencioso, mas visível para quem vive da pesca e do turismo. O mar devolve o descaso em forma de alerta. E o alerta é simples: preservar o litoral começa antes da praia, no descarte correto, na consciência ambiental e na responsabilidade de cada pessoa com o lugar onde vive, visita e deixa suas marcas.

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