“Enterrei duas filhas, mas não enterrei minha força”: mãe revive dor do feminicídio e luta para não deixar a esperança morrer
A vida de Benice Maria da Silva, conhecida como Dona B, de 58 anos, é marcada por uma dor profunda, daquelas que atravessam o tempo e insistem em permanecer. Moradora de Pouso Alegre há 30 anos, mãe de quatro filhos e trabalhadora incansável, ela enfrenta pela segunda vez a perda de uma filha vítima da violência que destrói famílias e deixa cicatrizes irreparáveis.
Na madrugada do dia 18 de março, a filha mais nova, Ana Carolina Silva Fernandes, de 24 anos, foi morta com golpes de faca pelo próprio companheiro. Mas não foi apenas a violência que marcou aquele momento. O que permanece vivo na memória de Dona B é a despedida. O último olhar. O último suspiro nos braços da mãe.
Com a voz tomada pela emoção, ela relembra que, mesmo ferida, a filha encontrou forças para dizer que amava. Falou com os filhos, com a mãe, com os irmãos. Como se, naquele instante, quisesse garantir que o amor fosse a última lembrança deixada. Aos poucos, a vida foi se apagando, de forma silenciosa, enquanto Dona B assistia a tudo, sem poder impedir.
Horas antes, a cena era outra. Um encontro simples em família, uma despedida comum, um “tchau, mãe” que agora ecoa como um pressentimento impossível de ser compreendido naquele momento. A lembrança daquele sorriso, daquele instante aparentemente normal, hoje carrega o peso de uma despedida definitiva. O telefonema na madrugada, pouco antes das duas da manhã, mudou tudo.
A dor atual reacende uma ferida que nunca cicatrizou completamente. Em 2006, Dona B já havia enfrentado a perda mais cruel. Sua filha mais velha, Larissa, de apenas 15 anos, foi vítima de um crime brutal, assassinada com dezenas de golpes após sofrer violência. O corpo foi abandonado, tratado com desprezo, em uma cena que jamais saiu de sua memória. Dois homens foram condenados, mas nenhuma decisão foi capaz de amenizar o vazio deixado.
Diante de mais uma tragédia, o desabafo de Dona B carrega o peso de quem já perdeu demais. A sensação de ver sua família sendo atingida novamente pela mesma violência traz revolta, medo e uma dor difícil de descrever. Ainda assim, é no meio desse cenário devastador que ela encontra um motivo para continuar.
Os netos se tornaram sua força.
Duas crianças que agora dependem dela para seguir em frente. Foi pensando neles que Dona B decidiu não desistir, mesmo quando a dor parecia insuportável. A responsabilidade de cuidar, proteger e manter vivos os sonhos que ficaram passou a ser o que a sustenta. Se já precisou ser forte uma vez, agora entende que precisa ser ainda mais.
No terreno simples onde vive, existia um sonho em construção. Ana Carolina planejava levantar uma casa para morar com os filhos, uma menina de 8 anos e um menino de apenas 1 ano e 6 meses. A obra foi interrompida pela violência, mas não abandonada.
Sensibilizados com a história, voluntários se uniram para ajudar a família e dar continuidade ao projeto. A construção de ao menos um cômodo representa mais do que paredes, representa dignidade, acolhimento e a tentativa de reconstruir um pouco do que foi destruído.
Amparada pela fé, Dona B segue em frente. Entre lágrimas e lembranças, ela ainda fala de futuro. Quer ver o neto crescer, estudar e ter oportunidades. Quer ajudar a neta a realizar o sonho de ter sua própria loja de maquiagem. Quer, acima de tudo, continuar de pé.
Porque mesmo diante de perdas tão profundas, ela ainda acredita que é possível seguir.
E é com essa força, marcada pela dor, mas sustentada pela fé, que ela reafirma sua essência de mulher guerreira, determinada a não deixar que a violência apague também a esperança.

Dona B e filha Ana Carolina Silva Fernandes

