Sábado, Março 28, 2026
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Janela da morte: tragédia em São Sebastião expõe segundo caso de queda de passageiro em ônibus da mesma empresa em menos de dois meses

A morte da jovem Renata Yassu Nakama, de 26 anos, após cair de um ônibus em movimento, trouxe à tona um alerta grave sobre a segurança no transporte público de São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo. O caso não foi isolado. Em um intervalo de pouco mais de dois meses, dois passageiros caíram pela janela de coletivos operados pela mesma empresa na cidade, em circunstâncias semelhantes e igualmente preocupantes.

Renata caiu de um ônibus da linha Canto do Mar–Centro após o vidro de uma das janelas laterais se desprender enquanto o veículo seguia em movimento, na altura da Praia das Cigarras, na região norte do município. Ela ficou internada por três dias, mas não resistiu aos ferimentos. O sepultamento ocorreu nesta terça-feira (6), em meio a comoção de familiares e amigos.

Segundo o boletim de ocorrência, a passageira teria se apoiado na janela do coletivo quando o vidro se soltou da estrutura de fixação, provocando a queda abrupta para fora do ônibus. Testemunhas relataram que, após a queda, Renata ainda conseguiu ficar em pé por alguns instantes, mas passou mal pouco depois. Imagens feitas por outra passageira mostram a jovem logo após o acidente, antes de ser socorrida.

O pai da vítima, Sergio Yassu Nakama, afirmou que a filha havia enviado uma mensagem de áudio momentos antes do ocorrido, relatando que o ônibus estava superlotado. Para ele, independentemente do número de passageiros, o fato de uma janela se soltar revela uma falha grave. “Ela disse que o ônibus estava muito cheio. Mas, cheio ou vazio, um vidro jamais pode se desprender e colocar a vida das pessoas em risco”, declarou.

A Polícia Militar informou que o motorista relatou transportar 77 passageiros no momento do acidente, número que estaria dentro do limite permitido para a linha.

Em novembro do ano passado, outro episódio semelhante já havia acendido o sinal de alerta. O vendedor Carlos Eduardo de Sousa Chaves caiu da janela de um ônibus durante o trajeto, após o vidro se soltar em uma curva em ‘S’, na região da Topolândia. Segundo ele, o coletivo também estava lotado. A queda resultou em ferimentos graves: pancada na cabeça, quatro pontos, diversas escoriações, fratura de três vértebras, uma costela quebrada e um coágulo no cérebro. Carlos segue em recuperação.

Mesmo diante da gravidade das lesões, ele afirma não ter recebido qualquer tipo de apoio da empresa responsável pelo transporte. “Disseram por e-mail que estavam tomando as providências cabíveis. Minha irmã passou meu telefone e meu e-mail, mas ninguém entrou em contato comigo até hoje”, relatou.

A sucessão de casos, com vítimas caindo pela janela de ônibus em movimento, levanta questionamentos sobre manutenção, fiscalização e condições reais de operação dos coletivos na cidade, especialmente em linhas frequentemente apontadas como superlotadas.

A reportagem tentou contato com a empresa Sancetur, responsável pela operação do transporte público em São Sebastião, mas não obteve retorno até a publicação. Em contato anterior, a viação informou apenas que o caso está sendo tratado pelo departamento jurídico.

A Prefeitura de São Sebastião informou que notificou a empresa e cobrou explicações formais sobre o acidente que resultou na morte de Renata. Questionada também sobre o caso envolvendo Carlos Eduardo, a administração municipal não respondeu até a última atualização.

Enquanto as investigações seguem, a repetição de ocorrências graves em tão curto espaço de tempo expõe uma ferida aberta no sistema de transporte público da cidade e reforça a cobrança por respostas, responsabilidades e medidas concretas para evitar que novas tragédias se repitam.

Após a queda de ônibus em movimento, Renata ainda foi fotografada em pé por outra passageira, Ônibus de São Sebastião sem a janela após acidente — Foto: Divulgação/Priscilla Cirqueira

O vendedor Carlos Eduardo de Sousa Chaves teve ferimentos graves após queda de ônibus

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