Domingo, Novembro 8, 2026
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QUATRO DIAS, DUAS MORTES: JANAÍNA QUESTIONOU AÇÃO POLICIAL QUE MATOU O COMPANHEIRO E FOI ASSASSINADA DIANTE DA FILHA EM CARAGUATATUBA


Quatro dias separaram duas mortes registradas no bairro Jardim Olaria, em Caraguatatuba, no Litoral Norte de São Paulo. Na segunda-feira (2), Luan Vitor Silva Santos (foto), de 21 anos, morreu após ser baleado durante uma intervenção da Polícia Militar dentro de uma residência. Na sexta-feira (6), sua companheira, Janaína Cristina Corrêa, de 36 anos, foi assassinada a tiros por um homem encapuzado quando estava acompanhada da filha adolescente e de outra jovem. Entre os dois episódios, Janaína havia divulgado um vídeo questionando a atuação dos policiais responsáveis pela morte de Luan. A sequência dos acontecimentos passou a chamar a atenção após informações dos boletins de ocorrência confirmarem o relacionamento entre as vítimas. Apesar da proximidade das mortes, a Polícia Civil ainda não estabeleceu qualquer ligação entre os casos, e a autoria e a motivação do assassinato de Janaína permanecem desconhecidas.

A primeira ocorrência aconteceu na segunda-feira (2), quando a Polícia Militar foi acionada para atender a uma denúncia de ameaça e disparo de arma de fogo durante um desentendimento familiar no bairro Jardim Olaria. Segundo o boletim de ocorrência, um homem havia ido à residência da ex-companheira para deixar a filha e acabou discutindo com Luan, que mantinha um relacionamento com a mulher. Conforme a denúncia apresentada aos policiais, Luan teria feito ameaças e um disparo de arma de fogo teria ocorrido quando o homem deixava o imóvel.

Após receberem as informações, os policiais militares foram até a residência localizada na Viela do Ipiranga. Segundo a versão apresentada pelos agentes, Luan teria entrado no imóvel e retirado de uma mochila uma arma aparentemente artesanal. Os policiais afirmaram que determinaram que o jovem soltasse o armamento, mas que a ordem não teria sido obedecida. Durante a intervenção, um dos militares efetuou três disparos com um fuzil calibre 5,56, enquanto outro realizou dois disparos com uma pistola calibre .40. Luan foi atingido e morreu no local. Equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do Corpo de Bombeiros chegaram a ser acionadas, mas o óbito foi constatado na residência.

A versão apresentada pelos policiais, entretanto, passou a ser questionada por familiares do jovem e pela própria Janaína. Dois dias após a morte do companheiro, ela apareceu em um vídeo relatando sua versão sobre a entrada dos agentes na residência. Segundo Janaína, os policiais teriam entrado no imóvel sem anunciar previamente a presença da equipe. Ela afirmou que Luan estava saindo de um quarto quando se deparou com os militares dentro da casa, momento em que ocorreram os disparos.

O relato de Janaína apresentava diferenças em relação à versão registrada pelos policiais. Enquanto os agentes afirmaram que Luan teria retirado uma arma de uma mochila e desobedecido às ordens para soltá-la, a companheira questionou as circunstâncias da abordagem e a maneira como a equipe entrou na residência. As declarações foram divulgadas antes do assassinato da mulher, ocorrido na sexta-feira (6). Não há, contudo, qualquer confirmação de que o vídeo tenha relação com o crime cometido contra ela.

A mãe de Luan, identificada como Lidiana, também contestou aspectos da intervenção policial. Segundo informações divulgadas pela imprensa regional, ela questionou a versão de que o filho teria disparado contra os militares e levantou dúvidas sobre a procedência dos entorpecentes encontrados na residência. A família apresentou imagens que, em sua avaliação, poderiam indicar irregularidades na apreensão dos materiais. Essas alegações ainda dependem da análise dos elementos reunidos durante a investigação.

A Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar as circunstâncias da morte de Luan e a conduta dos agentes envolvidos. Outro detalhe registrado no boletim de ocorrência é que os dois policiais responsáveis pelos disparos não utilizavam câmeras corporais durante a intervenção. Outros dois integrantes da equipe aparecem como usuários dos equipamentos, mas não foi esclarecido publicamente se houve gravações capazes de registrar a ocorrência. A Polícia Civil também determinou exames periciais relacionados à trajetória dos disparos e à arma atribuída ao jovem.

Durante a ocorrência que terminou com a morte de Luan, os policiais localizaram substâncias semelhantes à maconha, incluindo porções fracionadas e um bloco maior, além de uma arma artesanal e um caderno com anotações que poderiam estar relacionadas à comercialização de drogas. Como Janaína residia no imóvel e mantinha relacionamento com o jovem, seu nome foi inicialmente incluído na apuração sobre possível envolvimento com o tráfico.

Entretanto, a autoridade policial responsável pelo registro destacou que não existiam elementos concretos suficientes para atribuir participação criminosa à mulher. O delegado considerou que o simples fato de Janaína morar na residência e ser companheira de Luan não comprovava envolvimento com o tráfico de drogas. O boletim também mencionou que ela exercia duas atividades profissionais formais. Janaína não foi presa nem indiciada por tráfico ou associação para o tráfico naquela ocorrência.

Na tarde de sexta-feira (6), quatro dias depois da morte de Luan, Janaína foi assassinada no mesmo bairro. Segundo as informações policiais, o crime aconteceu por volta das 18h40, quando ela saía de uma residência acompanhada da filha, de 15 anos, e de outra adolescente, de 17 anos. Um homem encapuzado, descrito como de porte físico robusto, estava nas proximidades de um carro estacionado e se aproximou das três.

De acordo com os relatos das testemunhas, o criminoso utilizava uma balaclava para esconder o rosto e efetuou disparos contra Janaína sem dizer nenhuma palavra. A mulher foi atingida e morreu no local. O autor fugiu correndo após o ataque e não havia sido identificado até as últimas informações divulgadas.

O depoimento da filha de Janaína acrescentou um elemento importante à investigação. Segundo a adolescente de 15 anos, o homem também teria apontado a arma em sua direção e efetuado um disparo que acabou atingindo novamente sua mãe. Diante desse relato, a Polícia Civil passou a investigar não apenas o homicídio consumado de Janaína, mas também uma possível tentativa de homicídio contra a adolescente. A participação da filha como eventual alvo do criminoso ainda depende do esclarecimento das circunstâncias do ataque.

Durante os procedimentos realizados após o assassinato, a Polícia Civil apreendeu o telefone celular de Janaína, que poderá ser analisado no decorrer da investigação. O exame preliminar também identificou uma perfuração provocada por disparo de arma de fogo na região esquerda do tórax da vítima. O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML), enquanto os investigadores passaram a reunir elementos para identificar o autor dos disparos e esclarecer sua motivação.

As duas mortes aconteceram em um intervalo de apenas quatro dias e no mesmo bairro de Caraguatatuba, mas possuem registros e circunstâncias diferentes. Luan morreu durante uma intervenção da Polícia Militar, cuja legalidade e dinâmica são objeto de apuração. Janaína foi assassinada por um homem encapuzado, ainda não identificado, em uma ação investigada pela Polícia Civil como homicídio, com a possibilidade de tentativa de homicídio contra sua filha.

O vídeo divulgado por Janaína após a morte do companheiro passou a integrar a cronologia dos acontecimentos conhecidos publicamente. Sua existência demonstra que a mulher havia manifestado questionamentos sobre a intervenção policial antes de ser assassinada. Entretanto, não há elementos confirmados que permitam afirmar que suas declarações tenham motivado o ataque ou que os responsáveis pelas duas mortes possuam qualquer relação entre si.

Até as últimas informações disponíveis, a Polícia Civil não havia anunciado a identificação ou prisão do responsável pelo assassinato de Janaína. Também não foram divulgados resultados conclusivos do Inquérito Policial Militar instaurado para apurar a morte de Luan. A investigação sobre o homicídio da mulher deverá esclarecer a autoria, a motivação dos disparos e as circunstâncias do ataque ocorrido na presença das duas adolescentes.

Foto reprodução

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