“NÃO HOUVE ORDEM DE PARADA”, DIZ ESPOSA DE JEAN: CÂMERAS MOSTRAM VIATURA COM LUZES APAGADAS ANTES DE COLISÃO QUE MATOU MOTOBOY EM MINAS
A morte do motoboy Jean Henrique Rodrigues, de 29 anos, após uma colisão com uma viatura da Polícia Militar em Campo Belo, no Sul de Minas Gerais, ganhou novos desdobramentos com a divulgação de imagens de câmeras de segurança e o depoimento de sua esposa, que estava na garupa da motocicleta. A família contesta a versão apresentada pelos policiais, segundo a qual o motociclista teria desobedecido a uma ordem de parada e iniciado uma fuga. As gravações mostram a viatura aparentemente com os faróis e o giroflex desligados no momento da colisão, contrariando informações registradas pelos militares no boletim de ocorrência. A Polícia Civil, a Polícia Militar e o Ministério Público de Minas Gerais anunciaram investigações para esclarecer as circunstâncias da morte.
O acidente aconteceu no domingo (1º de novembro), na Rua Prudente de Moraes, no bairro Vila Bragança. Segundo informações divulgadas por familiares, uma das câmeras registrou a colisão por volta das 18h18. As imagens mostram a motocicleta reduzindo a velocidade e realizando uma movimentação lateral instantes antes de ser atingida pela viatura. Jean não resistiu aos ferimentos. Sua esposa, Amanda da Silva Floriano, de 27 anos, que estava na garupa, sobreviveu à colisão.
De acordo com o boletim de ocorrência elaborado pela Polícia Militar, os agentes teriam recebido uma denúncia sobre um motociclista possivelmente armado no bairro São Benedito. Durante o patrulhamento, os policiais afirmaram ter localizado uma motocicleta com características semelhantes às informadas e determinado que o condutor parasse. Ainda segundo a versão policial, Jean teria desobedecido à ordem e iniciado uma fuga, motivando o acompanhamento da viatura por diferentes ruas da cidade.
Entretanto, Amanda apresentou uma versão diferente dos acontecimentos. Em entrevista à EPTV, ela afirmou que não presenciou qualquer ordem de parada e que não percebeu a existência de uma perseguição. Segundo a esposa, havia uma viatura estacionada nas proximidades de um salão, mas o casal não chegou a passar diretamente diante dos policiais. Ela declarou que, caso tivesse percebido uma abordagem, teria pedido ao marido que parasse, pois ele possuía habilitação e a motocicleta estava com a documentação regular.
A esposa também afirmou que não viu a viatura se aproximando por trás da motocicleta. Ao comentar as imagens, levantou a possibilidade de Jean ter percebido alguma movimentação e tentado encostar o veículo. Essa interpretação, entretanto, ainda depende da reconstrução da dinâmica da colisão e não constitui conclusão pericial.
As gravações se tornaram um dos principais elementos da investigação. No boletim de ocorrência, os policiais afirmaram que utilizavam dispositivos luminosos durante o acompanhamento. Entretanto, as imagens divulgadas mostram a viatura aparentemente sem os faróis e o giroflex acionados no momento do impacto. A divergência deverá ser analisada pelos investigadores para verificar as condições em que a equipe policial realizava a aproximação.
O advogado da família, Vinicius Junio Cirino, afirmou que o depoimento de Amanda é compatível com as gravações. Segundo ele, as imagens levantam questionamentos sobre a regularidade da atuação policial, principalmente em relação à sinalização da viatura. O defensor ressaltou que suas considerações são preliminares e que a apuração deverá esclarecer a responsabilidade pelo acidente.
Outro ponto mencionado nas primeiras informações policiais envolve a suspeita de que o motociclista estivesse armado. A ocorrência teria começado após uma denúncia relacionada a um homem com arma de fogo, mas nenhuma arma foi encontrada com Jean ou com sua esposa, conforme os relatos divulgados sobre o atendimento. Também não foi apresentado resultado pericial que comprove eventual consumo de bebida alcoólica pelo condutor, circunstância mencionada em versões iniciais da ocorrência.
Amanda também sofreu ferimentos durante a colisão. Publicações locais mencionaram que ela apresentou uma complicação após o acidente, mas não foram divulgados detalhes médicos suficientes para determinar a gravidade de seu quadro. Até o momento, não há informações atualizadas sobre sua recuperação.
A morte de Jean provocou manifestações de familiares e amigos em Campo Belo. Conhecido pelo apelido de Gordinho, ele trabalhava como motoboy, morava no bairro Arnaldos e deixou um filho de apenas 4 anos, Kauã. Em entrevista, Amanda relatou a dificuldade de explicar ao menino a ausência do pai. Segundo ela, a criança ainda associa o barulho de motocicletas à possibilidade de Jean estar chegando em casa.
O velório foi realizado na segunda-feira (2), na Capela Velório Municipal Central, e o sepultamento aconteceu no Cemitério das Mercês. Amigos e motociclistas também organizaram uma motociata em homenagem a Jean. Familiares afirmaram que participantes do cortejo receberam multas de trânsito, mas não foram divulgados documentos que permitam confirmar a quantidade de autuações ou os motivos apresentados pelas autoridades.
A tia do motociclista, Fabiana Gonçalves Rodrigues, manifestou indignação diante da morte do sobrinho e cobrou esclarecimentos sobre a atuação policial. A família acompanha as investigações e questiona principalmente a alegação de que Jean teria tentado fugir de uma abordagem, diante do depoimento da esposa e das imagens registradas por câmeras de segurança.
A Polícia Civil de Minas Gerais informou que aguarda os resultados dos trabalhos periciais para dar continuidade à apuração. Paralelamente, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar para investigar a conduta dos agentes envolvidos. A corporação afirmou que ocorrências com mortes relacionadas a intervenções policiais são submetidas aos procedimentos de apuração da Justiça Militar, com acompanhamento da Corregedoria.
O Ministério Público de Minas Gerais também informou que deverá instaurar um procedimento investigatório criminal relacionado à morte de Jean. O órgão já acompanha outras ocorrências envolvendo intervenções policiais registradas em Campo Belo durante o ano.
Um levantamento divulgado pela EPTV aponta que 11 pessoas morreram em abordagens, operações ou conflitos envolvendo a Polícia Militar em Campo Belo ao longo de 2026. O número corresponde a aproximadamente 68% das mortes atribuídas a intervenções policiais no Sul de Minas no período analisado. Parte dessas ocorrências aconteceu após a morte do terceiro-sargento Rodrigo Silva Pereira, assassinado em março. O Ministério Público informou que instaurou procedimentos individuais para investigar mortes anteriores, mas não há elementos que permitam relacioná-las diretamente à colisão que matou Jean.
Segundo informações da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais e do Tribunal de Justiça, Jean havia sido preso em novembro de 2025 por um caso de violência doméstica e recebeu alvará de soltura em março de 2026. Esse histórico não esclarece as circunstâncias da colisão nem determina a responsabilidade dos envolvidos no acidente.
Até quinta-feira (5 de novembro), não havia sido divulgada conclusão pericial sobre a velocidade da viatura, as condições de sinalização, a sequência exata da colisão ou a responsabilidade pelo impacto. Também não foram anunciadas medidas de responsabilização contra os policiais envolvidos. As imagens, os depoimentos e os resultados técnicos deverão ser analisados nos procedimentos conduzidos pelas autoridades competentes.

Foto: Reprodução/EPTV

