NASCEU NAS BORDAS DE UM JORNAL E TOCOU O CORAÇÃO DE UM PAPA: HINO DE NOSSA SENHORA APARECIDA COMPLETA 121 ANOS DE HISTÓRIA E FÉ
Uma simples folha de jornal, utilizada de maneira improvisada durante uma viagem, teria sido o ponto de partida para uma das composições religiosas mais conhecidas do Brasil. Criado em 1905 pelo Conde José Vicente de Azevedo, o hino “Viva a Mãe de Deus e nossa” atravessou gerações, tornou-se oficialmente o Hino à Gloriosa Padroeira do Brasil e conquistou um lugar especial na história da Igreja Católica. Em 1980, durante sua primeira visita ao Santuário Nacional de Aparecida, o papa João Paulo II fez questão de mencionar a canção em sua homilia, destacando a simplicidade de seus versos e a intensidade da devoção dos brasileiros. Agora, em 2026, a composição completa 121 anos de uma trajetória marcada pela religiosidade, pelas romarias e por uma curiosa história sobre sua criação.
A origem do hino remonta ao início do século XX, quando as peregrinações a Nossa Senhora Aparecida já reuniam fiéis de diferentes localidades. José Vicente de Azevedo, conhecido como Conde de São Paulo, decidiu compor uma homenagem musical à Padroeira, em um período de fortalecimento das manifestações religiosas realizadas na antiga Matriz Basílica de Aparecida. A composição surgiu em 1905, um ano depois da coroação solene da imagem de Nossa Senhora Aparecida, realizada em 1904, acontecimento que marcou profundamente a história da devoção mariana no país.
Uma das curiosidades mais conhecidas sobre a criação da música está relacionada às circunstâncias em que seus primeiros versos teriam sido escritos. Segundo a tradição histórica preservada pelo Santuário Nacional, o conde estava viajando para Santos quando teve a inspiração para compor a letra e a melodia. Como não dispunha de papel apropriado naquele momento, teria recorrido às margens de um jornal para registrar a criação. A narrativa atravessou os anos e passou a integrar a memória histórica da composição, embora o episódio seja apresentado como uma tradição e não como um fato comprovado por documentação original disponível.
A música começou a ganhar popularidade nas romarias organizadas por fiéis paulistanos com destino a Aparecida. Os versos de “Viva a Mãe de Deus e nossa” passaram a acompanhar manifestações religiosas e celebrações dedicadas à Padroeira, alcançando diferentes gerações de devotos. A canção se destacou pela linguagem acessível e pela forma como expressava o sentimento religioso dos peregrinos, tornando-se uma das referências musicais da devoção a Nossa Senhora Aparecida.
O reconhecimento oficial aconteceria décadas depois. Em 11 de maio de 1951, o então cardeal-arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, assinou o decreto que oficializou a composição como Hino à Gloriosa Padroeira do Brasil. A decisão consolidou institucionalmente uma tradição que já estava presente nas celebrações religiosas havia 46 anos. Desde então, a música passou a ocupar um lugar de destaque entre os cânticos associados à devoção mariana brasileira.
Apesar de muitos fiéis conhecerem principalmente seus versos iniciais, a composição original é mais extensa do que a versão habitualmente apresentada nas celebrações. Segundo informações divulgadas pela Academia Marial de Aparecida, o hino possui aproximadamente 20 estrofes. Com o passar dos anos, determinados trechos se tornaram mais conhecidos e passaram a ser reproduzidos com maior frequência em missas, romarias e solenidades dedicadas à Padroeira.
A história da composição ganhou um capítulo especialmente marcante em 4 de julho de 1980, quando o papa João Paulo II esteve em Aparecida durante sua primeira viagem ao Brasil. Naquela ocasião, o pontífice visitou o Santuário Nacional e presidiu uma celebração histórica, durante a qual fez referência direta ao hino. A passagem do papa pela cidade também ficou marcada pela consagração da nova Basílica Nacional, em um momento de grande importância para a Igreja Católica brasileira.
Ao iniciar sua homilia, João Paulo II recordou que havia escutado a música em diferentes lugares desde sua chegada ao país. O pontífice demonstrou ter percebido nos versos uma manifestação espontânea da relação dos brasileiros com Nossa Senhora Aparecida. Em seu discurso, descreveu a canção como “um grito da alma”, expressão que ficou registrada nos documentos oficiais do Vaticano e passou a integrar a memória daquela visita histórica.
A referência feita pelo papa transformou a composição em um dos elementos simbólicos de sua passagem por Aparecida. João Paulo II destacou que a música adquiria significado particularmente intenso naquele Santuário, lugar associado à história do encontro da imagem de Nossa Senhora nas águas do Rio Paraíba do Sul, em 1717. A manifestação do pontífice reforçou a importância religiosa que o cântico já possuía entre os devotos brasileiros.
Outro aspecto da história está relacionado à trajetória de seu compositor. José Vicente de Azevedo não se dedicou exclusivamente à música religiosa. Ao longo da vida, também esteve envolvido em iniciativas de caráter educacional, assistencial e filantrópico, contribuindo para instituições destinadas ao atendimento de diferentes públicos. Sua atuação alcançou áreas como educação, saúde e assistência social, deixando um legado que ultrapassou a composição do hino.
O Conde de São Paulo também manteve uma ligação importante com o Vale do Paraíba. Em 1937, participou de uma iniciativa patrimonial voltada à instalação da Diocese de Lorena, por meio da doação de bens e propriedades. Esse episódio estabeleceu uma conexão entre o autor de uma das músicas mais tradicionais da devoção a Nossa Senhora Aparecida e a história institucional da Igreja Católica na região. José Vicente de Azevedo morreu em 3 de março de 1944, em São Paulo, sete anos antes de sua composição receber o reconhecimento oficial como hino da Padroeira.
A trajetória da música também acompanha parte da transformação histórica de Aparecida. Quando a composição surgiu, em 1905, a antiga Matriz Basílica era o principal centro das celebrações e peregrinações. Décadas depois, a construção e a consolidação do Santuário Nacional ampliaram a estrutura destinada a receber os romeiros, enquanto a devoção à Padroeira continuava acompanhada por manifestações musicais transmitidas entre gerações.
A importância do hino não está relacionada apenas à sua antiguidade, mas também à permanência de sua utilização nas celebrações religiosas. Mesmo após mais de um século, “Viva a Mãe de Deus e nossa” continua associado às homenagens à Padroeira do Brasil. Sua história reúne a tradição das antigas romarias, a oficialização pela Igreja em 1951 e a referência feita por João Paulo II durante a visita de 1980.
Em 2026, quando a composição completa 121 anos, o registro histórico também permite recordar a maneira como uma música criada no início do século XX alcançou reconhecimento nacional. A narrativa de sua criação nas bordas de um jornal, o papel do Conde José Vicente de Azevedo e as palavras pronunciadas pelo papa em Aparecida compõem os principais capítulos dessa trajetória. Mais de quatro décadas depois da visita de João Paulo II, o hino permanece presente nas celebrações dedicadas à Padroeira do Brasil.

Foto: CDM – Santuário Nacional de Aparecida

