QUATRO ANOS DEPOIS DO TERROR EM ITAJUBÁ: JUSTIÇA TORNA RÉUS 14 ACUSADOS DE ATAQUE COM FUZIS E EXPLOSIVOS QUE DEIXOU UM MORTO E CINCO POLICIAIS FERIDOS
Quatro anos depois de uma madrugada de terror que transformou as ruas de Itajubá, no Sul de Minas Gerais, em cenário de tiros de fuzil, explosões, veículos incendiados e confrontos com a Polícia Militar, a Justiça Federal deu um novo passo na responsabilização dos envolvidos em um dos ataques a instituições financeiras mais violentos registrados na região. Uma nova denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) foi aceita pela Justiça, tornando réus 14 acusados de integrar a organização criminosa armada responsável pela invasão de uma agência da Caixa Econômica Federal, ocorrida entre os dias 22 e 23 de junho de 2022. A ação, caracterizada pelas autoridades como uma operação do chamado novo cangaço, provocou a morte de um civil, deixou cinco policiais militares feridos e resultou no roubo de aproximadamente R$ 2,27 milhões em dinheiro e joias. A decisão judicial, divulgada nesta quinta-feira (22), amplia o alcance da investigação e permite o início de uma nova ação penal contra os denunciados, que poderão responder por crimes como organização criminosa armada, roubo, latrocínio consumado e tentado, uso de explosivos, incêndio, dano ao patrimônio público e porte ilegal de armas de fogo de uso restrito.
O ataque aconteceu durante a madrugada de 23 de junho de 2022, após uma preparação que, segundo as investigações, envolveu o deslocamento de criminosos fortemente armados, a utilização de veículos roubados e a organização de rotas de fuga. A quadrilha colocou em prática uma operação planejada para dificultar a reação das forças de segurança enquanto integrantes do grupo atacavam a agência bancária. Homens armados com fuzis ocuparam pontos estratégicos da cidade, realizaram bloqueios em vias públicas e incendiaram automóveis nas proximidades do batalhão da Polícia Militar. A estratégia buscava impedir ou retardar o deslocamento dos policiais até o banco, permitindo que os assaltantes utilizassem explosivos industriais contra as instalações da Caixa Econômica Federal. A violência dos disparos e das explosões marcou a madrugada e deixou danos em diferentes pontos da cidade. A investigação aponta que os integrantes atuavam com divisão de tarefas, indicando uma estrutura organizada para executar o ataque, oferecer apoio logístico e facilitar a fuga após a subtração dos valores.
As diligências conduzidas pelo Ministério Público Federal também reconstruíram acontecimentos anteriores à invasão da agência. Segundo informações apresentadas na primeira denúncia, na noite de 22 de junho de 2022, por volta das 23h, um casal que estava em um automóvel Volkswagen Voyage foi surpreendido por criminosos encapuzados e armados. Os ocupantes foram obrigados a abandonar o veículo, que acabou levado pelos assaltantes e utilizado no contexto da ação criminosa. O episódio foi identificado como uma das etapas preparatórias do ataque, demonstrando que a atuação do grupo não se restringiu ao momento da invasão da instituição financeira. As investigações também apontaram a utilização de uma propriedade rural localizada em Santa Rita de Caldas, no Sul de Minas, que funcionaria como ponto de apoio para armazenar armamentos de uso restrito, veículos e outros equipamentos empregados na operação. A existência dessa estrutura foi apresentada pelo MPF como um dos elementos que sustentam a acusação de atuação organizada e previamente planejada.
Durante a invasão de Itajubá, a organização criminosa teria distribuído seus integrantes em diferentes pontos do município, promovendo ataques simultâneos para dificultar a resposta policial. Veículos foram incendiados nas proximidades do batalhão da Polícia Militar, enquanto criminosos efetuavam disparos de fuzil e utilizavam armamentos de alto poder ofensivo. A denúncia aponta que uma policial militar sofreu lesões corporais ao procurar abrigo durante o cerco armado à unidade da corporação. Outros quatro policiais foram atingidos por disparos de fuzil em pontos de bloqueio montados pelos assaltantes nas rotas de fuga. Ao todo, cinco integrantes da Polícia Militar ficaram feridos durante a operação criminosa. A utilização de bloqueios e ataques direcionados às forças de segurança integra a dinâmica conhecida como novo cangaço, expressão utilizada para identificar ações de grupos fortemente armados que ocupam áreas urbanas para atacar instituições financeiras, utilizando violência e estratégias de contenção da reação policial.
A ação também provocou a morte de um homem que não participava do confronto. De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal, integrantes da quadrilha efetuaram disparos de fuzil contra um automóvel ocupado por civis que passava próximo a um cruzamento durante a ocupação da cidade. Um dos ocupantes foi atingido na perna e precisou receber atendimento hospitalar. Embora tenha sobrevivido inicialmente ao ferimento, o homem apresentou complicações vasculares e morreu dez dias depois, em consequência das lesões provocadas pelo disparo. O falecimento passou a integrar a investigação como um dos resultados mais graves do ataque. A morte ocorreu após a madrugada da ação criminosa, razão pela qual os primeiros levantamentos sobre o episódio não apresentavam inicialmente a confirmação de uma pessoa morta. Na nova denúncia, o MPF incluiu acusações relacionadas ao crime de latrocínio consumado, além de tentativas de latrocínio e outros delitos atribuídos aos integrantes da organização.
Enquanto parte dos criminosos realizava bloqueios e disparava contra as forças de segurança, outros integrantes atacaram a agência da Caixa Econômica Federal utilizando explosivos industriais. A estrutura do prédio sofreu danos durante a ação, que permitiu aos assaltantes acessar valores mantidos na instituição. Segundo o Ministério Público Federal, foram subtraídos aproximadamente R$ 814,8 mil em dinheiro e R$ 1,46 milhão em joias que estavam sob custódia do setor de penhores do banco. Somados, os valores representam cerca de R$ 2,27 milhões em patrimônio retirado da agência durante o ataque. Além do prejuízo financeiro direto à instituição, a operação provocou danos a veículos particulares, instalações públicas e equipamentos utilizados pelas forças de segurança. O batalhão da Polícia Militar e viaturas atingidas também passaram a integrar o levantamento de prejuízos relacionados à ação criminosa, que exigiu posteriormente reparos e procedimentos de recuperação das estruturas danificadas.
Após o ataque, os criminosos deixaram Itajubá utilizando diferentes trajetos, enquanto as forças de segurança iniciavam buscas para localizar os envolvidos. Informações reunidas durante a investigação apontaram deslocamentos pela BR-459, em direção a Pouso Alegre, e por estradas que passam pela região de Maria da Fé e São Lourenço. Um dos veículos relacionados à fuga foi encontrado posteriormente em São Bento do Sapucaí, no interior de São Paulo. A operação de busca mobilizou equipes policiais em diferentes municípios e contribuiu para a identificação de participantes da ação. Um dos primeiros acusados foi localizado durante uma abordagem em uma estrada vicinal entre Cambuí e Consolação, em Minas Gerais. Conforme informações divulgadas pelo MPF, o homem apresentou versões contraditórias sobre sua presença na região e posteriormente admitiu participação no ataque. As diligências permitiram reunir elementos que fundamentaram a primeira denúncia apresentada ainda em julho de 2022.
O primeiro integrante denunciado foi identificado como Jean Felipe Gallego Martins. Segundo a investigação, ele teria participado dos preparativos da ação e atuado como batedor, verificando possíveis barreiras policiais ao longo dos trajetos utilizados pela organização criminosa. Na primeira ação penal, foi condenado a 22 anos e dois meses de prisão, em regime fechado, por crimes relacionados ao roubo da agência bancária e de veículos, incêndio e dano qualificado contra o patrimônio público. A defesa apresentou recurso contra a sentença, mas a 1ª Turma Criminal do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6) negou o pedido e manteve integralmente a condenação. A nova denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal inclui também a acusação autônoma de participação em organização criminosa armada, pela qual o mesmo réu deverá responder no novo processo. A condenação anterior permanece como um dos principais desdobramentos judiciais já registrados desde o ataque ocorrido em 2022.
Com o avanço das investigações, o Ministério Público Federal reuniu novos elementos e apresentou uma denúncia contra 14 acusados de participação na organização criminosa. O recebimento da acusação pela Justiça Federal, divulgado em 22 de outubro de 2026, representa a abertura de uma nova etapa processual destinada à análise individual das condutas atribuídas aos integrantes do grupo. Entre os crimes relacionados na denúncia estão organização criminosa armada, roubos, latrocínio consumado e tentado, utilização de explosivos, incêndio, danos ao patrimônio público e porte de armamento de uso restrito. A decisão de receber a denúncia significa que a Justiça reconheceu a existência de elementos suficientes para dar andamento ao processo, mas não representa condenação antecipada dos acusados. A responsabilidade de cada réu deverá ser examinada durante a instrução da ação penal, com análise das provas, manifestações do Ministério Público e exercício do direito de defesa.
Além da responsabilização criminal, o MPF solicitou à Justiça a fixação de valores mínimos destinados à reparação dos danos materiais e morais provocados pela quadrilha. O pedido inclui o ressarcimento dos R$ 814,8 mil em dinheiro e dos R$ 1,46 milhão em joias subtraídos da Caixa Econômica Federal, além de indenizações aos proprietários dos veículos destruídos durante o ataque. Para esses automóveis, o Ministério Público requereu a utilização de valores de referência da Tabela Fipe. Também foram incluídos no pedido os custos de reconstrução das instalações do batalhão da Polícia Militar e de recuperação das viaturas danificadas. O valor global das indenizações ainda depende da análise judicial e da apuração dos prejuízos apresentados no processo. A reparação financeira constitui uma medida distinta das penas criminais eventualmente aplicadas aos acusados e busca compensar danos relacionados à ação que atingiu a instituição bancária, particulares e estruturas públicas.
A nova ação penal marca um desdobramento importante de um crime que mobilizou forças policiais em Minas Gerais e São Paulo e exigiu uma investigação prolongada para identificar integrantes e reconstruir a estrutura utilizada pela organização. Quatro anos depois, o Ministério Público Federal sustenta que os elementos reunidos permitem responsabilizar judicialmente outros envolvidos na operação criminosa. O processo deverá analisar a participação dos 14 denunciados, a organização do ataque, a utilização de armamentos e explosivos, os roubos praticados e as consequências da ação, incluindo a morte de um civil e os ferimentos sofridos por cinco policiais militares. Com a denúncia recebida pela Justiça Federal, os acusados passam a responder formalmente à nova ação penal, enquanto os pedidos de condenação e reparação dos prejuízos serão examinados no decorrer do processo.


