Quarta-feira, Outubro 21, 2026
Capa

DOIS ANOS DEPOIS DA TRAGÉDIA: 12 VIRAM RÉUS POR QUEDA DA VOEPASS QUE MATOU CINCO PESSOAS LIGADAS AO VALE


Mais de dois anos depois da queda do avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo, a tragédia entra em uma nova fase na Justiça. A Justiça Federal recebeu a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal e tornou 12 pessoas ligadas à companhia aérea rés em uma ação penal que apura responsabilidades relacionadas às condições de segurança do voo 2283.

O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, de prefixo PS-VPB, havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. Durante o trajeto, a aeronave perdeu altitude e caiu em uma área residencial de Vinhedo. Nenhuma das 62 pessoas que estavam a bordo sobreviveu.

Entre as vítimas estavam cinco pessoas com ligação direta com o Vale do Paraíba, incluindo moradores da região e profissionais que mantinham vínculos com cidades como Guaratinguetá, Taubaté, Jacareí e Ubatuba.

Com o recebimento da denúncia, os 12 acusados passam agora a responder formalmente ao processo criminal. Entre eles estão integrantes da administração da empresa, além de profissionais ligados a setores operacionais e de manutenção. A responsabilidade individual de cada réu ainda será analisada durante a tramitação da ação, e o recebimento da denúncia não representa condenação.

Segundo o Ministério Público Federal, as investigações apontaram uma série de falhas relacionadas à manutenção das aeronaves e ao gerenciamento da segurança operacional da empresa. A acusação cita registros considerados falsos, reparos inadequados, utilização de peças sem rastreabilidade e pressão sobre funcionários para que determinadas ocorrências técnicas não fossem registradas formalmente.

O MPF sustenta ainda que havia uma política interna voltada à redução de despesas e à manutenção das operações mesmo diante de problemas que, segundo a acusação, poderiam comprometer a segurança dos voos.

A denúncia foi construída a partir de elementos reunidos pela Polícia Federal, pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos e pela Agência Nacional de Aviação Civil.

Um dos principais pontos analisados durante a investigação envolve a formação de gelo na aeronave e o funcionamento do sistema de degelo. Segundo a acusação, havia conhecimento prévio de problemas relacionados ao equipamento e a aeronave foi escalada para uma rota em que havia previsão de condições meteorológicas favoráveis à formação intensa de gelo.

O Ministério Público Federal sustenta que integrantes da companhia tinham conhecimento de dificuldades envolvendo esse sistema havia pelo menos um ano antes do acidente. A acusação afirma que a falta de registros formais permitiu que o avião continuasse operando.

O relatório final do Cenipa, divulgado em julho de 2026, apontou fatores relacionados à formação de gelo, perda de controle em voo e falha ou mau funcionamento de sistemas ou componentes não ligados ao motor.

A investigação do Cenipa, entretanto, possui finalidade exclusivamente preventiva e não busca estabelecer culpa criminal ou civil. A eventual responsabilização dos acusados será analisada pela Justiça Federal a partir das provas reunidas no processo.

Além dos 12 réus, outros quatro investigados pela Polícia Federal não foram incluídos na denúncia após firmarem acordos de não persecução penal. Assim, o número de pessoas indiciadas durante a investigação foi maior do que o total que agora responde à ação criminal.

A tragédia teve forte repercussão no Vale do Paraíba por causa das vítimas ligadas à região.

Maria Auxiliadora Vaz de Arruda, conhecida como Dora, de 74 anos, e José Cloves Arruda, de 76, eram moradores de Guaratinguetá. O casal era conhecido pela atuação na comunidade.

Dora havia trabalhado como professora de Educação Física e mantinha participação ativa na Igreja Católica. Ela atuava como coordenadora do Ministério Extraordinário da Sagrada Comunhão na Paróquia São Pedro Apóstolo. José Cloves trabalhava com fotografia e era conhecido por registrar casamentos e outros eventos.

A Arquidiocese de Aparecida lamentou publicamente a morte do casal na época da tragédia.

Outra vítima com forte ligação regional foi o médico José Roberto Leonel Ferreira. Ele havia se formado em Medicina pela antiga Faculdade de Medicina de Taubaté e também teve trajetória ligada à atividade acadêmica.

José Roberto havia se aposentado como professor universitário cerca de três meses antes do acidente. Segundo informações divulgadas na ocasião, ele planejava conhecer o neto, então com apenas dois meses de vida.

Também morreu João Carlos Copetti, de 44 anos, morador do bairro Villa Branca, em Jacareí. Ele trabalhava como gerente de uma empresa do setor de produção de ovos e viajava a trabalho quando embarcou no voo da Voepass.

O corpo de João Carlos foi posteriormente velado e sepultado em São José dos Campos.

A quinta vítima com ligação com o Vale foi Ronaldo Cavaliere, de 43 anos, ligado a Ubatuba. Representante comercial, ele havia se mudado para Maceió para acompanhar o crescimento do filho.

Além das cinco vítimas, o comandante do voo, Danilo Santo Romano, de 35 anos, também tinha uma relação especial com a região. Devoto de Nossa Senhora Aparecida, ele havia visitado o Santuário Nacional antes do acidente e deixou uma réplica de aeronave aos pés da imagem da Padroeira do Brasil.

A companhia responsável pelo voo também possui uma ligação histórica com o Vale do Paraíba. Antes da operação aérea, a Passaredo teve origem empresarial associada a uma empresa de transporte rodoviário criada em São José dos Campos. A atividade aérea começou posteriormente, em Ribeirão Preto, na década de 1990.

Depois da queda do voo 2283, a situação da empresa passou por sucessivas medidas administrativas. Em março de 2025, a Agência Nacional de Aviação Civil suspendeu as operações da Voepass por questões relacionadas à segurança.

Em 2026, a Anac manteve decisão que impediu a retomada normal das operações da companhia, além de aplicar sanções administrativas.

Agora, com o recebimento da denúncia pela Justiça Federal, o caso entra em uma nova etapa. Os 12 réus terão direito à defesa e poderão apresentar provas e argumentos ao longo do processo.

A Justiça deverá analisar individualmente a conduta atribuída a cada acusado e verificar se as falhas apontadas pelo Ministério Público Federal tiveram relação penalmente relevante com a tragédia.

Mais de dois anos depois da queda que interrompeu 62 vidas, o processo judicial passa a concentrar uma das principais questões ainda abertas desde o acidente: a eventual responsabilidade criminal de pessoas ligadas à operação e à manutenção da aeronave.

Foto sampi.net: Dora e José Cloves, José Carlos Copetti (com o peixe) e o médico José Roberto Leonel

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

erro: Content is protected !!