DA JANELA DE UM PRÉDIO EM CHAMAS AOS PÉS DE NOSSA SENHORA: HOMEM QUE PULOU DO 3º ANDAR CAMINHA 46 KM PARA AGRADECER PELA VIDA
Ele sobreviveu a um incêndio, precisou saltar do terceiro andar de um prédio em chamas e, desde então, transformou a própria sobrevivência em uma promessa de fé. Dez anos depois daquele episódio que poderia ter terminado em tragédia, o pedreiro Valdecir Gilberto voltou a colocar os pés na estrada e percorreu 46 quilômetros entre Taubaté e Aparecida para agradecer pela vida. O percurso, que para muitos representaria apenas um grande desafio físico, ganhou para ele um significado muito maior: cada passo é uma lembrança de que sobreviveu e recebeu, segundo sua própria fé, uma segunda chance.
A caminhada aconteceu na segunda-feira, 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, data que reúne milhares de romeiros e peregrinos em direção ao Santuário Nacional. Valdecir saiu de Taubaté por volta das 19h30 e chegou ao destino às 5h45 da manhã, depois de aproximadamente dez horas e quinze minutos de caminhada. Foram horas atravessando a noite e a madrugada, carregando não apenas o peso do próprio corpo e o cansaço do percurso, mas também uma história de sobrevivência que começou uma década antes.
O trajeto de 46 quilômetros não foi encarado por Valdecir como simples exercício de resistência ou tradição religiosa. Para ele, a chegada a Aparecida representa o cumprimento de um compromisso pessoal que se renova a cada ano. Desde o incêndio, a peregrinação passou a fazer parte de sua vida e se tornou uma forma concreta de agradecer por ter conseguido escapar de uma situação extrema.
A história que deu origem à caminhada começou em 2015. Naquele ano, Valdecir estava em um prédio atingido por um incêndio. Cercado pelas chamas e diante do risco de permanecer no imóvel, ele precisou tomar uma decisão dramática para tentar sobreviver: saltar do terceiro andar. O impacto daquela escolha poderia ter causado consequências ainda mais graves, mas Valdecir sobreviveu e passou a interpretar o episódio como uma oportunidade de recomeço.
Depois daquele dia, o pedreiro decidiu que sua sobrevivência não passaria sem agradecimento. A caminhada entre Taubaté e Aparecida passou a simbolizar essa gratidão. Ano após ano, ele volta ao caminho com a mesma motivação: agradecer por continuar vivo e recordar o momento em que tudo poderia ter terminado.
Em 2026, Valdecir completou sua décima peregrinação. A repetição do percurso, ao longo de uma década, transformou o gesto em tradição. Mesmo com o passar do tempo, a lembrança do incêndio continua acompanhando o pedreiro e reforçando o significado da caminhada. Para ele, cada chegada ao Santuário Nacional é uma confirmação de que a segunda chance recebida em 2015 continua sendo motivo de agradecimento.
Durante a peregrinação, Valdecir carregou uma bandeira do Divino Espírito Santo, símbolo que possui importância especial para sua fé. A bandeira acompanhou o pedreiro durante o caminho noturno e, segundo ele, representa a presença de Deus durante o percurso.
“Se o Pai não estiver com a gente, a gente não tem como caminhar”, afirmou.
A frase ajuda a explicar como Valdecir enxerga a própria peregrinação. A resistência física necessária para enfrentar dezenas de quilômetros é, em sua visão, apenas uma parte do caminho. A fé ocupa o centro da experiência e funciona como sustentação nos momentos de maior cansaço.
Depois de sair de Taubaté no começo da noite e caminhar durante toda a madrugada, Valdecir finalmente chegou ao Santuário Nacional. O destino representava mais do que o encerramento dos 46 quilômetros. Era o ponto em que, pela décima vez, ele poderia transformar a lembrança de um dos momentos mais difíceis de sua vida em agradecimento.
Ao chegar a Aparecida, o pedreiro resumiu o sentimento de maneira direta e emocionada.
“Hoje, graças a Deus, faz 10 anos que ela me deu a segunda chance. E hoje eu estou aqui agradecendo… agradecendo assim, ó: de joelhos”, declarou.
A fala mostra a dimensão que a peregrinação ganhou ao longo dos anos. O episódio do incêndio deixou de ser apenas uma lembrança traumática e passou a ser também o ponto de partida para uma prática de fé que acompanha Valdecir há uma década.
Para o pedreiro, estar novamente diante de Nossa Senhora Aparecida possui um valor que não pode ser comparado a bens materiais. O simples fato de conseguir chegar ao Santuário, depois de mais uma longa caminhada, já representa aquilo que considera uma das maiores demonstrações de gratidão de sua vida.
“Só o fato de eu estar chegando aqui para agradecer, é gratidão e mais gratidão”, afirmou.
A trajetória também possui uma dimensão profundamente familiar. Durante a peregrinação, Valdecir lembrou da própria mãe, que já morreu. Ao falar sobre Nossa Senhora Aparecida, o pedreiro fez uma comparação marcada pela emoção e disse considerar que possui duas referências maternas em sua vida.
“Feliz é aquele que tem uma mãe, e eu sou feliz de ter duas: a minha, que não está mais presente, e Nossa Senhora, que vive constantemente, 24 horas dentro da minha vida, dentro da minha alma”, declarou.
A lembrança da mãe acrescentou ainda mais significado ao percurso. Para Valdecir, caminhar até Aparecida também representa uma forma de manter vivas as referências de amor, fé e proteção que marcaram sua história.
Ao longo dessas dez peregrinações, o pedreiro transformou o caminho entre Taubaté e Aparecida em um compromisso que ultrapassa qualquer dificuldade física. O cansaço, a distância e as horas de caminhada são enfrentados sob a lembrança constante do episódio vivido em 2015.
Detalhes como o local exato do prédio onde aconteceu o incêndio, as causas das chamas, os ferimentos sofridos por Valdecir depois do salto e eventual período de internação não foram divulgados nas informações disponíveis. O que se tornou público foi justamente o ponto central de sua história: ele precisou saltar do terceiro andar para escapar do fogo, sobreviveu e decidiu transformar aquele episódio em uma caminhada anual de agradecimento.
A história também se mistura ao cenário de fé que toma conta do Vale do Paraíba durante as celebrações de Nossa Senhora Aparecida. Enquanto milhares de pessoas chegam ao município carregando diferentes promessas, pedidos e agradecimentos, Valdecir percorre o caminho com uma motivação muito particular: lembrar que continua vivo.
Dez anos depois, as imagens que marcam sua história são completamente diferentes. Em 2015, ele precisava escapar de um prédio em chamas. Agora, percorre quilômetros voluntariamente. Naquela ocasião, enfrentou o medo diante de uma decisão extrema. Hoje, carrega uma bandeira e transforma o caminho em demonstração de fé.
O salto do terceiro andar ficou no passado, mas nunca deixou de fazer parte da história de Valdecir. A cada peregrinação, ele relembra que aquele momento poderia ter colocado um ponto final em sua trajetória. Em vez disso, tornou-se o início de uma tradição que já atravessou uma década.
E quando os 46 quilômetros terminam diante do Santuário Nacional, Valdecir não fala em conquista esportiva nem em superação física. Para ele, a palavra que define tudo continua sendo uma só: gratidão.


