Sábado, Outubro 3, 2026
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APÓS 27 CIRURGIAS E AMPUTAÇÃO, MORADOR DE VOLTA REDONDA ENCARA 150 KM DE MULETAS ATÉ APARECIDA


Depois de 27 cirurgias, anos de tratamento, períodos acamado e da amputação da perna esquerda, Rafael Teixeira decidiu transformar dor, fé e superação em uma jornada de 150 quilômetros. Morador do bairro Volta Grande 1, em Volta Redonda, ele iniciou nesta semana uma romaria solitária até o Santuário Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba, apoiado apenas em um par de muletas e sem carro de escolta ou equipe fixa de apoio.

A caminhada começou na quarta-feira, 30 de setembro. O objetivo é chegar a Aparecida em aproximadamente dez dias, mantendo uma média de 15 quilômetros por jornada. O percurso segue principalmente pelas margens da Via Dutra e representa, segundo Rafael, muito mais do que um desafio físico. Para ele, cada quilômetro simboliza a recuperação de uma autonomia que durante muitos anos pareceu distante.

A história que levou Rafael até essa romaria começou na noite de 10 de março de 2010. Na época, ele cursava Direito em uma universidade particular e trabalhava na Procuradoria Municipal de Barra Mansa. Por volta das 22h, enquanto voltava para casa de motocicleta, sofreu um grave acidente na altura do bairro Ponte Alta.

A partir daquele momento, sua rotina mudou completamente. Rafael passou por um longo processo de tratamento na tentativa de preservar a perna esquerda. Foram anos de internações, limitações e sucessivos procedimentos médicos. Ao longo dessa trajetória, ele foi submetido a 27 cirurgias e enfrentou períodos prolongados sem conseguir realizar atividades básicas sozinho.

Em uma das lembranças mais marcantes desse período, Rafael resume a mudança brusca que viveu ao dizer que saiu “do terno e gravata para as fraldas em questão de segundos”. O acidente interrompeu sua rotina de trabalho, estudos e independência, dando início a uma batalha que se estenderia por aproximadamente 15 anos.

Durante o tratamento, Rafael enfrentou ainda três episódios de osteomielite, uma infecção grave que atinge a estrutura óssea. Mesmo com as tentativas de preservar o membro, a evolução do quadro levou à amputação da perna esquerda na véspera do Natal de 2024.

A cirurgia representou o encerramento de um ciclo de sofrimento, mas também o começo de outro processo, desta vez voltado à reconstrução da própria vida. Rafael passou a buscar na atividade física uma forma de recuperar força, mobilidade e autonomia.

Ele chegou a se mudar para São Paulo com o objetivo de treinar modalidades paralímpicas, entre elas vôlei sentado e halterofilismo. A permanência na capital, no entanto, acabou se tornando financeiramente inviável, e ele retornou para Volta Redonda.

Foi então que começou a se adaptar às corridas de rua utilizando muletas. O esporte, inicialmente uma ferramenta de reabilitação, tornou-se também uma forma de permanecer conectado com outras pessoas e retomar objetivos que pareciam improváveis depois da amputação.

A evolução foi rápida. Em 2025, apenas cerca de um ano após a cirurgia, Rafael conseguiu completar os 21 quilômetros da Meia Maratona do Rio. A conquista mostrou que sua nova condição física não significaria necessariamente abandonar grandes desafios.

Agora, a meta é ainda maior. Os aproximadamente 150 quilômetros até Aparecida exigem resistência diária, planejamento e atenção ao próprio corpo. Sem uma equipe acompanhando permanentemente a jornada, Rafael avança de muletas com o objetivo de completar cerca de 15 quilômetros por dia até alcançar o Santuário Nacional.

Nas redes sociais, onde reúne mais de 14 mil seguidores, ele compartilha parte dos treinamentos, dificuldades e mensagens relacionadas à superação. A romaria também será uma forma de dividir com outras pessoas uma história que, segundo ele, pode ajudar quem enfrenta momentos difíceis.

Rafael define o percurso como um retiro espiritual e uma forma de agradecer pela possibilidade de voltar a se locomover com independência. Durante os longos períodos em que ficou acamado, contou que olhava para o teto e pedia a Deus que pudesse recuperar a liberdade de andar e deixar de depender das pessoas para tarefas básicas.

A chegada a Aparecida será, portanto, a conclusão simbólica de uma caminhada que começou muito antes dos primeiros quilômetros pela estrada. A romaria reúne os anos de tratamento, a amputação, a reabilitação e a retomada do esporte em um único desafio.

Para Rafael, a missão também ultrapassa a dimensão pessoal. Ele espera que a divulgação da caminhada alcance pessoas que enfrentam dificuldades físicas, emocionais ou relacionadas à saúde mental e mostre que mudanças importantes podem acontecer mesmo depois de períodos de grande sofrimento.

Cada quilômetro percorrido de muletas até Aparecida carrega, assim, um significado que vai além da distância. Para quem passou anos tentando salvar uma perna e depois precisou aprender a viver sem ela, caminhar 150 quilômetros representa justamente aquilo que Rafael mais pediu durante o tratamento: voltar a ter liberdade.

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