AOS 92 ANOS, DONA MARIA VOLTA A REGER O CORAL QUE FUNDOU HÁ MAIS DE 40 ANOS EM SILVEIRAS
Uma cena carregada de memória, música e emoção marcou a segunda edição da Festa Literária e Cultural de Silveiras. Aos 92 anos, Dona Maria Cintra, professora aposentada, musicista e fundadora do Coral Menino Jesus, voltou a ocupar um lugar que ajudou a construir há mais de quatro décadas: diante das crianças do grupo que nasceu de sua iniciativa em 1985. Durante a FLICS 2026, ela foi homenageada pelo legado deixado na cidade e, ao fim da apresentação, recebeu o convite para reger novamente o coral que criou.
A homenagem surpreendeu a própria Dona Maria e também sua família. Sara Alves Cintra, empresária e nora da homenageada, contou que o momento foi recebido com orgulho pelos filhos e demais familiares, principalmente porque o coral sempre ocupou um lugar especial na vida de Dona Maria. Ao longo dos anos, ela não apenas ensinou música às crianças, mas também se dedicou à organização das apresentações, viagens e atividades que permitiram ao grupo ultrapassar os limites de Silveiras.
Segundo a família, Dona Maria levava as crianças para cantar em igrejas e eventos culturais de outras cidades, ajudava na confecção das roupas utilizadas nas apresentações e transmitia aos integrantes valores como fé, respeito e disciplina. A relação construída com o coral fez com que várias gerações passassem pelo projeto e guardassem lembranças das apresentações e dos ensinamentos recebidos.
O Coral Menino Jesus começou em 1985, quando Dona Maria, então professora, decidiu reunir crianças da cidade para cantar. A iniciativa cresceu e se transformou em uma referência cultural e religiosa no município. Décadas depois, muitos pais, mães, tios e familiares das crianças que hoje participam do coral também fizeram parte do grupo em algum momento da infância ou juventude.
Essa continuidade entre gerações é uma das marcas mais fortes do projeto. Sara conta que quase toda a cidade teve algum contato com Dona Maria como professora ou por meio do coral, o que ajuda a explicar a dimensão da homenagem realizada durante a FLICS.
A secretária de Assistência Social de Silveiras, Ana Gabriela Fonseca, explicou que a escolha de Dona Maria como homenageada surgiu justamente da intenção de resgatar e reconhecer a importância de seu trabalho para a história cultural do município. Segundo ela, moradores frequentemente pedem que o Coral Menino Jesus continue existindo e preservando a tradição iniciada há mais de 40 anos.
O momento mais simbólico da homenagem aconteceu ao fim da apresentação. Depois de acompanhar o coral, Dona Maria foi chamada para assumir novamente a regência. Diante do grupo que criou em 1985, ela voltou a conduzir as vozes das crianças, transformando a homenagem em um encontro entre passado e presente.
A atual coordenadora do Coral Menino Jesus, Nilciane Ferrari, também carrega uma ligação antiga com o projeto. Ela entrou no grupo aos 7 anos e permaneceu cantando durante a infância e juventude, até se mudar para cursar faculdade. Anos depois, retornou para dar continuidade ao trabalho iniciado por Dona Maria.
Nilciane lembra que a fundadora sempre teve facilidade para aproximar as crianças da música e incentivá-las a participar. O nome Menino Jesus também nasceu dessa relação com a fé e com a tradição religiosa de Silveiras, marcada pela devoção a Nossa Senhora da Conceição, padroeira do município.
Com o crescimento do coral, as apresentações passaram a acontecer não apenas em Silveiras, mas também em outras cidades. O grupo participou de celebrações religiosas e atividades culturais em diferentes municípios da região e chegou a se apresentar em cidades de Minas Gerais, como Baependi, São Lourenço e Caxambu.
Durante parte dessa trajetória, Dona Maria contou com a ajuda do marido e de Dona Delminda, outra figura importante na história do coral. Com o passar dos anos, ambas precisaram se afastar das atividades por questões de saúde e familiares.
Foi nesse período que Dona Maria fez um pedido a Nilciane: que o coral não acabasse. A continuidade, porém, não foi imediata. Nilciane precisou interromper sua participação enquanto cursava faculdade e permaneceu afastada por cerca de 12 anos. Depois, procurada por pais que desejavam a retomada do projeto, decidiu assumir a coordenação. Há pouco mais de dois anos, voltou a conduzir as atividades do grupo.
Para Nilciane, a contribuição de Dona Maria e Dona Delminda foi além da formação musical. As duas ensinaram crianças de diferentes gerações a cantar, rezar, respeitar, ter disciplina e conviver em comunidade. Essa dimensão educativa continua presente no trabalho atual do coral.
Hoje, o projeto trabalha com crianças e adolescentes e mantém viva uma tradição iniciada em 1985. Para quem passou pelo grupo, a música se tornou também uma ferramenta de formação, convivência e preservação da identidade cultural de Silveiras.
Na FLICS 2026, a homenagem transformou essa história em uma cena difícil de esquecer. Aos 92 anos, Dona Maria voltou a ficar diante do coral e, por alguns instantes, regeu novamente aquilo que começou quatro décadas atrás com um grupo de crianças e uma ideia simples: usar a música para reunir, ensinar e formar gerações.


