Sexta-feira, Outubro 2, 2026
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‘AS BALAS DO BRUNO ESTÃO EM MIM’: MÃE DE ESTUDANTE MORTO EM TAUBATÉ DESABAFA E PEDE JUSTIÇA


A dor de perder um filho ganhou palavras nesta sexta-feira, 2 de outubro. Pela primeira vez desde a morte de Bruno Hashimura San Juliano, de 23 anos, a mãe do estudante de Medicina falou publicamente sobre o vazio deixado pela morte do jovem e resumiu o sentimento em uma frase carregada de sofrimento: “As balas do Bruno estão em mim”.

Soraia Hashimura falou sobre o filho, sobre a relação que os dois construíram ao longo dos anos e sobre a expectativa de que a Justiça esclareça completamente o que aconteceu na manhã de quarta-feira, 30 de setembro, em Taubaté. Bruno foi atingido por disparos durante uma discussão de trânsito e morreu após ser socorrido.

Mais do que recordar os momentos finais do filho, Soraia falou sobre quem Bruno era dentro de casa. Descreveu um jovem alegre, divertido, próximo da família e capaz de transformar situações difíceis em momentos mais leves. Segundo ela, o filho tinha o hábito de fazer brincadeiras e arrancar risadas mesmo quando as circunstâncias não eram fáceis.

Para a mãe, Bruno também amadureceu muito cedo. Em um dos períodos mais delicados da vida de Soraia, durante sua separação, o estudante se tornou mais do que um filho. Passou a ocupar também o lugar de amigo, oferecendo apoio e ajudando a mãe a atravessar aquela fase.

“Não foi só um filho, ele foi um amigo que me impulsionou também a viver”, contou.

A Medicina fazia parte dos planos de Bruno e de uma trajetória construída com esforço. Antes de estudar em Taubaté, ele chegou a cursar a graduação na Argentina, uma alternativa que, naquele momento, estava dentro das possibilidades financeiras da família. Posteriormente, foi para o Pará, onde permaneceu próximo da família da esposa, que estava grávida.

A oportunidade de retornar para a região surgiu quando Bruno descobriu uma vaga para Medicina em Taubaté. Segundo a mãe, havia apenas uma oportunidade para aproximadamente 15 candidatos. Ele decidiu prestar a prova sem criar grandes expectativas, pensando inicialmente em conhecer o nível do processo seletivo e se preparar para tentar novamente no futuro.

A aprovação surpreendeu a família.

Bruno então retornou para perto da mãe e passou a estudar na Universidade de Taubaté. Aos 23 anos, estava no quarto semestre do curso de Medicina e construía os planos para uma profissão que pretendia seguir.

Entre as lembranças relatadas pela mãe está também a história do carro utilizado por Bruno no dia em que foi morto. O veículo havia sido dado ao estudante pelo avô materno, preocupado com a segurança do neto nos constantes deslocamentos pela Via Dutra.

O avô considerava antigo e inseguro o automóvel que Bruno utilizava anteriormente e decidiu entregar outro carro ao neto. Mesmo recebendo o veículo como presente, Bruno vendeu o automóvel antigo e fez questão de entregar o dinheiro ao avô como forma de pagamento, apesar de o valor não representar nem metade do preço do carro recebido.

Para Soraia, o gesto mostrava o caráter do filho e a maneira como ele lidava com a família.

A dimensão das relações construídas por Bruno ficou ainda mais evidente durante sua despedida. Amigos de diferentes períodos da vida, familiares, colegas da faculdade e pessoas que conviveram com ele compareceram ao velório e procuraram a mãe para contar histórias sobre o estudante.

Segundo Soraia, os abraços e as palavras que recebeu reforçaram aquilo que ela já conhecia dentro de casa. Colegas falaram sobre a generosidade de Bruno, sobre sua alegria e sobre a disposição que tinha para ajudar outras pessoas.

Enquanto a família enfrenta o luto, a investigação sobre a morte continua.

Bruno foi baleado durante uma discussão de trânsito na Avenida do Povo, em Taubaté. Marcos Paulo Fujarra de Oliveira, de 28 anos, bombeiro militar afastado das funções, foi preso em flagrante depois dos disparos. O caso é investigado como homicídio.

As versões apresentadas sobre a dinâmica do episódio são diferentes. O bombeiro afirmou à polícia que acreditou estar diante de uma possível tentativa de assalto e que teria visto um objeto nas mãos de Bruno que lhe pareceu uma arma. A defesa sustenta a tese de legítima defesa. Já uma testemunha apresentou uma versão diferente sobre os momentos que antecederam os disparos. A apuração policial deverá confrontar depoimentos, imagens e demais provas reunidas no inquérito.

Bruno foi atingido por pelo menos quatro disparos. Informações divulgadas sobre a investigação indicam ferimentos no pescoço, tórax e braço. O estudante chegou a ser socorrido, mas não resistiu.

Marcos foi preso em flagrante, mas recebeu liberdade provisória após audiência de custódia realizada na quinta-feira, 1º de outubro. Entre as medidas cautelares impostas estão restrições determinadas pela Justiça e a suspensão do porte de arma.

Nesta sexta-feira, 2 de outubro, o Ministério Público de São Paulo recorreu da decisão e pediu a decretação da prisão preventiva do investigado. O recurso questiona a liberdade provisória e sustenta que as medidas cautelares não seriam suficientes diante das circunstâncias do caso. A defesa mantém a versão de legítima defesa e afirma que os argumentos serão apresentados com base nas provas produzidas durante a investigação.

No meio das discussões jurídicas, das imagens analisadas e das diferentes versões sobre os segundos que antecederam os disparos, permanece uma família tentando compreender uma ausência definitiva.

Para Soraia, a morte não terminou na Avenida do Povo. A violência que atingiu Bruno também atravessou a mãe, que agora carrega as lembranças do filho e espera respostas sobre o que aconteceu.

“Eu acredito na Justiça”, afirmou.

Foto: Foto 1: Reprodução/Unama Santarém. Foto 2: Reprodução/Rede Vanguarda

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