Sexta-feira, Setembro 25, 2026
Capa

MERCADO CLANDESTINO DE DADOS: OPERAÇÃO PRENDE TRÊS NO LITORAL NORTE E MIRA ESQUEMA DE R$ 7 MILHÕES


Uma plataforma clandestina suspeita de transformar informações sigilosas de milhões de brasileiros em mercadoria levou a Polícia Civil até o Litoral Norte de São Paulo. Três investigados foram presos temporariamente durante uma operação realizada em São Sebastião e Caraguatatuba na quinta-feira, 24 de setembro de 2026.

A ofensiva faz parte da Operação Perseu 7, coordenada pela Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Cibernéticos da Polícia Civil do Distrito Federal. A investigação busca desarticular uma organização criminosa apontada como responsável pela manutenção e exploração da plataforma Mind-7.

Segundo a apuração, o sistema funcionava como um serviço clandestino de consulta de dados pessoais. Mediante o pagamento de mensalidades, os usuários teriam acesso a informações sigilosas relacionadas a milhões de pessoas e empresas de diferentes regiões do país.

No Litoral Norte paulista, a Polícia Civil cumpriu quatro mandados de busca e apreensão domiciliar e três mandados de prisão temporária. As ordens judiciais foram executadas em endereços localizados nos municípios de São Sebastião e Caraguatatuba.

Durante as buscas, os agentes recolheram celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos. Os equipamentos foram encaminhados para perícia e poderão revelar registros de acesso à plataforma, conversas entre os investigados, relação de clientes, movimentações financeiras e informações sobre a origem dos dados comercializados.

Os nomes dos três presos no Litoral Norte não foram divulgados. Também não foram informados os bairros onde os mandados foram cumpridos nem qual seria a função atribuída pela investigação a cada suspeito.

Após os procedimentos policiais, os investigados foram apresentados em audiência de custódia. As prisões são temporárias e foram decretadas para permitir o aprofundamento das apurações, não representando condenação antecipada.

A investigação aponta que a plataforma Mind-7 reunia dados obtidos a partir de vazamentos e possíveis falhas ou invasões em sistemas informatizados. Parte do material teria origem em bases relacionadas a órgãos públicos, operadoras e empresas prestadoras de serviços.

Entre as informações possivelmente disponibilizadas estavam registros ligados a pessoas físicas e jurídicas. A plataforma teria permitido consultas a partir de dados como CPF, CNPJ e outros elementos de identificação.

O acesso a essas informações poderia fornecer aos compradores um conjunto detalhado de dados sobre determinada pessoa. Nas mãos de criminosos, esse material pode ser usado para tornar abordagens fraudulentas mais convincentes e dificultar a percepção do golpe.

Com informações pessoais, endereços, telefones e outros registros, estelionatários podem se passar por representantes de bancos, empresas, escritórios de advocacia ou até familiares. O conhecimento antecipado sobre a vítima faz com que a mensagem ou ligação pareça verdadeira.

A Polícia Civil investiga se as consultas realizadas na Mind-7 serviram como base para golpes aplicados em diferentes estados. Uma das modalidades que podem ser abastecidas pela comercialização ilegal de dados é o golpe do falso advogado.

Nesse tipo de fraude, os criminosos utilizam informações sobre processos judiciais para entrar em contato com a vítima. Eles se apresentam como advogados ou integrantes de escritórios e afirmam que existe um valor a ser liberado, mas exigem pagamentos antecipados ou transferências bancárias.

Os investigadores deverão analisar se clientes da plataforma usaram os dados adquiridos para aplicar esse ou outros tipos de estelionato. A identificação dos compradores dependerá principalmente dos registros encontrados nos equipamentos, sistemas e movimentações financeiras.

A apuração indica que a plataforma não seria utilizada somente por um grupo restrito. O sistema teria sido estruturado para receber pagamentos recorrentes e disponibilizar consultas a diferentes clientes, funcionando como um verdadeiro mercado clandestino de informações pessoais.

Segundo a Polícia Civil, a organização teria movimentado mais de R$ 7 milhões entre março de 2021 e março de 2026. A maior concentração de recursos teria ocorrido em 2025, quando mais de R$ 4 milhões teriam circulado no esquema.

O rastreamento financeiro será uma das principais frentes da investigação. As autoridades deverão verificar contas bancárias, transferências, pagamentos digitais, patrimônio e eventuais operações com criptomoedas atribuídas aos envolvidos.

Diante da movimentação identificada, a Justiça determinou o bloqueio e o sequestro de até R$ 7 milhões em bens, valores e criptoativos relacionados aos investigados. Entre os patrimônios alcançados pelas decisões estariam imóveis, veículos de alto padrão e uma embarcação.

As medidas patrimoniais têm como objetivo impedir que recursos supostamente obtidos por meio das atividades investigadas sejam transferidos, ocultados ou vendidos durante o andamento do processo.

Além das prisões, buscas e bloqueios financeiros, a Justiça determinou a retirada da plataforma Mind-7 do ar. A medida busca interromper imediatamente as consultas e impedir que novos dados continuem sendo comercializados.

A Operação Perseu 7 mobilizou mais de 80 policiais e foi realizada simultaneamente em São Paulo, Minas Gerais, Piauí, Paraná, Espírito Santo e Pernambuco. A distribuição dos alvos por seis estados mostra o alcance nacional atribuído ao esquema.

Ao todo, foram expedidos 13 mandados de prisão temporária, além das ordens de busca e apreensão cumpridas nos endereços ligados aos investigados. No estado de São Paulo, São Sebastião e Caraguatatuba estiveram entre os principais pontos alcançados pela ofensiva.

A Polícia Civil apura suspeitas de organização criminosa, lavagem de dinheiro, invasão de dispositivo informático, receptação qualificada e estelionato. As responsabilidades deverão ser individualizadas de acordo com as provas reunidas contra cada investigado.

A análise dos equipamentos apreendidos poderá esclarecer quem administrava a plataforma, quem fazia a manutenção do sistema, quem recolhia os pagamentos e quem obtinha ou inseria as informações pessoais no banco de dados.

Os investigadores também deverão procurar registros capazes de revelar quantos usuários pagaram pelo serviço, quantas consultas foram realizadas e quais dados eram oferecidos em cada modalidade de assinatura.

Outro ponto importante será determinar a quantidade de pessoas que tiveram informações expostas. Como a investigação menciona dados de milhões de brasileiros, a perícia poderá ajudar a identificar a dimensão real do banco clandestino e os possíveis vazamentos utilizados para abastecê-lo.

A apreensão dos dispositivos no Litoral Norte poderá ainda estabelecer se os investigados presos em São Sebastião e Caraguatatuba tinham participação na administração da plataforma, na captação de clientes, na movimentação financeira ou em outra etapa da estrutura.

A investigação poderá avançar sobre os compradores do serviço. O pagamento por consultas clandestinas e a utilização consciente de dados obtidos ilegalmente serão analisados individualmente pelas autoridades, principalmente quando houver indícios de uso em golpes.

A Polícia Civil não informou se vítimas de fraudes já foram diretamente relacionadas às consultas realizadas na plataforma. Essa ligação dependerá do cruzamento entre registros eletrônicos, transferências financeiras, boletins de ocorrência e demais elementos encontrados durante a operação.

Também não foi divulgado se os três presos no Litoral Norte prestaram depoimento ou apresentaram alguma versão sobre as suspeitas. O conteúdo dos interrogatórios e das perícias poderá permanecer sob sigilo para não prejudicar as diligências.

A Operação Perseu 7 continua em andamento. O material apreendido nos seis estados poderá levar à identificação de novos integrantes, compradores da plataforma, responsáveis pelo fornecimento dos dados e pessoas que tenham utilizado as informações em práticas criminosas.

Os investigados ainda não foram julgados, e as acusações precisarão ser comprovadas no decorrer do processo. O espaço permanece aberto para manifestação das defesas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

erro: Content is protected !!