“O FREIO AFUNDOU”: MOTORISTA RELATA FALHA ANTES DE ÔNIBUS DESPENCAR E MATAR SEIS EM CRUZEIRO
A investigação sobre o grave acidente com o ônibus de romeiros que deixou seis pessoas mortas e outras 42 feridas em Cruzeiro ganhou um novo ponto central: o sistema de freios do veículo. Em depoimento à Polícia Civil, o motorista Lammounier Domingos Botelho Naves, de 38 anos, afirmou que enfrentou problemas durante a descida da serra e relatou que, ao tentar utilizar o freio, o pedal simplesmente afundou.
O acidente aconteceu na manhã de domingo, 20 de setembro, na Rodovia Doutor Avelino Júnior, SP 052. O ônibus transportava 48 romeiros que haviam saído de Itumirim, em Minas Gerais, com destino a Aparecida. Durante o trajeto por Cruzeiro, o veículo saiu da pista e caiu em uma ribanceira de aproximadamente 15 metros. Seis passageiros morreram e dezenas ficaram feridos.
No depoimento prestado ainda no domingo na Delegacia Seccional de Cruzeiro, o motorista apresentou sua versão sobre os momentos que antecederam a queda. Segundo ele, a viagem transcorria normalmente até o início da descida da serra. Lammounier afirmou que já conhecia o trecho e que conduzia o ônibus em terceira marcha. O problema teria começado quando tentou reduzir para a segunda marcha ao se aproximar de uma curva.
De acordo com o motorista, a segunda marcha não entrou. Diante disso, ele tentou utilizar o sistema de freios e percebeu o que descreveu como uma falha.
“Na hora que eu pisei no freio, o freio afundou e o ponteiro baixou do ar”, declarou à polícia.
A afirmação coloca o sistema de freios entre os principais pontos que deverão ser examinados pela perícia. Até o momento, a alegação de falha mecânica corresponde à versão apresentada pelo motorista e ainda precisa ser confirmada tecnicamente. A Polícia Civil informou que a investigação analisará o sistema de freios e outros componentes do veículo para esclarecer as causas do acidente.
Segundo Lammounier, depois que percebeu que o ônibus começava a ganhar velocidade durante a descida, ainda tentou direcionar o veículo para o lado do barranco na tentativa de pará lo. Ele afirmou que o ônibus acabou derrapando em direção à ribanceira. Marcas de frenagem encontradas na pista também deverão ser analisadas durante a investigação, que busca determinar a velocidade do veículo antes da queda.
Além da possível falha nos freios, as condições gerais do ônibus passaram a fazer parte das apurações. Durante o interrogatório, o delegado questionou o motorista sobre registros anteriores envolvendo o estado de conservação do veículo. Segundo a autoridade policial, um documento recebido pela investigação apontava duas ou três multas aplicadas pela Polícia Rodoviária Federal em maio deste ano relacionadas a mau estado de conservação e desobediência.
Lammounier confirmou que havia sido abordado anteriormente no Rio de Janeiro, mas declarou que, naquela ocasião, o ônibus havia apresentado problema no diferencial e que já havia solicitado atendimento mecânico e guincho. O motorista afirmou ainda acreditar que parte das autuações estivesse relacionada a problemas considerados por ele de menor gravidade, como uma lanterna queimada.
Outro ponto que deverá ser analisado pela perícia é a condição de um dos pneus. A Polícia Civil identificou um pneu em más condições. Questionado sobre o desgaste, Lammounier disse que não tinha conhecimento de um problema anterior e declarou que o pneu teria se desgastado durante o próprio acidente.
A condição desse componente, assim como o sistema de freios, será submetida a avaliação técnica. Somente os laudos poderão indicar se havia defeitos antes da viagem e se algum deles teve participação direta na perda de controle do ônibus.
O motorista também relatou possuir 19 anos de experiência na condução de ônibus e afirmou que havia realizado manutenção recente no veículo. Segundo ele, a embreagem teria sido trocada cerca de 15 dias antes do acidente e haveria documentação comprovando o serviço realizado.
O teste do bafômetro realizado no motorista apresentou resultado negativo para ingestão de álcool. Depois do depoimento, Lammounier foi preso em flagrante. Na segunda feira, 21 de setembro, ele passou por audiência de custódia e recebeu liberdade provisória.
O motorista deverá responder em liberdade por homicídio culposo e lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, com agravante relacionado ao exercício profissional do transporte de passageiros. Ao final do interrogatório, ele pediu perdão às vítimas e afirmou que tentou controlar o ônibus durante a descida.
A defesa de Lammounier informou que não pretende antecipar publicamente discussões relacionadas ao mérito do processo. Os advogados sustentam que qualquer conclusão sobre eventual imprudência, negligência ou imperícia dependerá do avanço das investigações, das perícias e da análise técnica da dinâmica do acidente. A defesa também lamentou as consequências da tragédia e manifestou respeito às vítimas e familiares.
Com o relato de que a segunda marcha não teria engatado e de que o pedal de freio teria afundado, a investigação passa a ter nos componentes mecânicos do ônibus uma das principais respostas a serem buscadas. A Polícia Civil deverá confrontar a versão apresentada pelo motorista com os vestígios encontrados na rodovia, as condições do veículo, os registros de manutenção, as autuações anteriores e, principalmente, os resultados dos exames periciais.
Enquanto os laudos não forem concluídos, não é possível afirmar que uma falha no freio tenha sido a causa do acidente. O que existe até agora é o relato do motorista de que o sistema deixou de responder durante a descida, justamente nos instantes anteriores à perda de controle e à queda do ônibus na ribanceira.

Foto: Reprodução/TV Vanguarda

