Terça-feira, Setembro 8, 2026
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A HISTÓRIA SE REPETE? MORTE DE LARISSA COM TIRO NA CABEÇA E VERSÃO DE SUICÍDIO LEMBRA CASO GISELE, QUE TEM CORONEL DO VALE COMO RÉU


Duas mulheres mortas com tiros na cabeça dentro de casa. Dois companheiros integrantes da Polícia Militar. Duas versões iniciais apontando suicídio. Famílias que não acreditaram nessa explicação. Perícias que começaram a levantar dúvidas sobre a dinâmica apresentada e, posteriormente, a prisão dos policiais envolvidos. A morte da técnica em radiologia Larissa da Cruz Morata, de 29 anos, em Embu das Artes, trouxe uma sequência de elementos que inevitavelmente lembra outro caso que ganhou enorme repercussão no Vale do Paraíba: a morte da soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, episódio pelo qual o tenente-coronel da reserva Geraldo Leite Rosa Neto responde atualmente como réu por feminicídio.

As semelhanças chamam atenção, mas existe uma diferença fundamental que precisa ser destacada desde o início: o caso de Larissa ainda está em fase inicial de investigação e não há conclusão pericial definitiva de que ela tenha sido assassinada. O marido, o soldado da Polícia Militar Vinicius Costa Silva, de 26 anos, nega ter matado a esposa e afirma que ela tirou a própria vida. Ele está preso temporariamente enquanto a Polícia Civil aprofunda a apuração. Já no caso Gisele, a investigação avançou durante meses e um laudo complementar do Instituto de Criminalística concluiu que a hipótese de suicídio é incompatível com os vestígios materiais e apontou intervenção de uma segunda pessoa.

Larissa foi encontrada morta na manhã de domingo, 6 de setembro, no banheiro da residência onde vivia com Vinicius e o filho do casal, de dois anos, no bairro Chácaras Bartira, em Embu das Artes. Ela apresentava um ferimento provocado por disparo de arma de fogo na cabeça. A arma particular do marido foi encontrada sob o corpo da vítima.

À polícia, Vinicius afirmou que havia conversado com a esposa sobre o fim do relacionamento e que, depois da conversa, foi dormir. Segundo sua versão, algum tempo depois acordou ao ouvir um forte barulho, foi verificar o que havia acontecido e encontrou Larissa caída no banheiro. O policial disse então ter acionado o socorro informando que a mulher havia se matado.

A família de Larissa, porém, contestou desde as primeiras horas a hipótese de suicídio. Parentes afirmaram que ela planejava deixar a residência e iniciar uma nova fase da vida com o filho. Os familiares também questionaram outros aspectos apresentados inicialmente sobre a dinâmica da morte.

O ponto que mais pesou para a mudança de direção da investigação apareceu nos exames iniciais. Segundo a Polícia Civil, a trajetória do projétil apresentou elementos considerados incompatíveis com a versão relatada até aquele momento. Informações preliminares indicam que o disparo percorreu a cabeça de Larissa da esquerda para a direita, acima da orelha esquerda, enquanto ela era destra. Esse dado, junto com outros elementos da perícia e depoimentos, foi utilizado para fundamentar o pedido de prisão temporária do marido.

A Justiça concordou com a necessidade da prisão cautelar. Vinicius foi preso na segunda-feira, 7 de setembro. A Secretaria da Segurança Pública informou que a medida foi determinada diante de indícios que justificavam o aprofundamento urgente das investigações. O caso continua formalmente registrado como morte suspeita, e os exames balísticos, necroscópicos, residuográficos e demais análises deverão estabelecer a dinâmica da morte.

É exatamente nesse ponto que a lembrança do caso Gisele ganha força.

Gisele Alves Santana também era policial militar e foi encontrada morta com um tiro na cabeça, em fevereiro, no apartamento em que morava com Geraldo Leite Rosa Neto, então tenente-coronel da PM. Assim como agora no caso Larissa, a primeira versão apresentada pelo companheiro foi de suicídio.

Geraldo acionou as autoridades e informou inicialmente que Gisele havia tirado a própria vida. A família dela, porém, questionou essa hipótese desde o começo. O registro acabou passando a ser tratado como morte suspeita, e a investigação começou a reunir elementos que colocaram a primeira versão em dúvida.

Nos meses seguintes, a perícia encontrou elementos ainda mais contundentes. Laudos anteriores já haviam apontado lesões na face e na região cervical de Gisele, incluindo marcas descritas como resultado de pressão e escoriações. Uma testemunha também afirmou ter ouvido o disparo cerca de meia hora antes do acionamento do socorro.

O ponto decisivo veio no início de setembro. Um laudo complementar do Instituto de Criminalística concluiu que o conjunto de manchas de sangue e demais elementos materiais contradiz a hipótese de suicídio. O documento também apontou que a hipótese de intervenção de uma segunda pessoa permaneceu compatível com os vestígios examinados.

Geraldo está preso desde março e tornou-se réu por feminicídio. Ele nega ter assassinado Gisele. Seu interrogatório na Justiça, que deveria acontecer neste mês, acabou sendo remarcado para outubro após novos pedidos de diligências.

As duas histórias ainda apresentam uma coincidência adicional: Vinicius e Geraldo foram encaminhados ao Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte da capital paulista. O soldado investigado pela morte de Larissa passou a ficar na mesma unidade militar onde está preso o tenente-coronel acusado no caso Gisele.

Mas a comparação precisa respeitar os limites de cada investigação.

No caso Gisele, já existe denúncia aceita pela Justiça, o tenente-coronel tornou-se réu e a perícia concluiu que a morte não apresenta dinâmica compatível com suicídio. No caso Larissa, Vinicius é investigado e está preso temporariamente, sem condenação e sem conclusão definitiva sobre a causa e a autoria da morte.

A prisão temporária também não significa antecipação de culpa. Ela é uma medida cautelar utilizada para permitir o avanço das investigações quando a Justiça entende que existem requisitos legais para restringir temporariamente a liberdade do investigado.

Outro ponto de contato é o papel decisivo da perícia. Nos dois casos, a simples narrativa de suicídio apresentada inicialmente não encerrou a apuração. A posição da arma, trajetória do projétil, vestígios encontrados no ambiente, lesões no corpo, resíduos de pólvora e depoimentos passaram a ser fundamentais para confrontar as versões apresentadas.

No caso de Larissa, a arma utilizada pertencia ao marido e foi apreendida para perícia. Exames também foram solicitados nas mãos da vítima e de Vinicius para verificar resíduos relacionados ao disparo. A Polícia Civil deverá analisar ainda a posição relativa entre arma e vítima e demais elementos capazes de indicar se a dinâmica é ou não compatível com um tiro autoinfligido.

A defesa de Vinicius sustenta a versão de suicídio. Reportagens também informam que pretende apresentar mensagens que, segundo sua interpretação, ajudariam a sustentar essa hipótese. Essas alegações deverão ser confrontadas pela investigação com os exames científicos e demais provas.

Diante das coincidências, a pergunta surge naturalmente: a história estaria se repetindo?

Do ponto de vista jornalístico, existem paralelos claros: duas mortes de mulheres por disparos na cabeça, dois companheiros policiais militares, versões iniciais de suicídio, familiares contestando essas versões, perícias levantando inconsistências e prisões cautelares dos companheiros.

Mas será a investigação que poderá responder até onde essas semelhanças realmente vão.

No caso Gisele, a apuração avançou ao ponto de a perícia afastar o suicídio e a Justiça colocar o tenente-coronel na condição de réu. No caso Larissa, o caminho investigativo está apenas começando. É justamente por isso que qualquer afirmação de que Vinicius matou a esposa seria prematura neste momento.

O que se repete, até agora, é uma sequência de circunstâncias que merece atenção: uma mulher morta dentro de casa, um tiro na cabeça, a arma ligada ao companheiro policial, uma explicação inicial de suicídio e elementos técnicos que fizeram os investigadores considerar necessário aprofundar outra hipótese.

A resposta definitiva sobre a morte de Larissa deverá vir dos laudos, da análise da cena, dos exames balísticos, dos depoimentos e das demais provas reunidas pela Polícia Civil.

O Jornal A Notícia mantém espaço aberto para manifestação da defesa de Vinicius Costa Silva, dos familiares de Larissa, das defesas e representantes envolvidos no caso Gisele e das autoridades responsáveis pelas duas investigações, além de novas informações que possam esclarecer ou atualizar os fatos apresentados nesta reportagem.

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