Segunda-feira, Setembro 7, 2026
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“EU SOU UM ESCRAVO”: TENENTE-CORONEL DO VALE RÉU POR FEMINICÍDIO DIZ QUE LAVA BANHEIROS E PEDE PERMISSÃO A SOLDADO NO PRESÍDIO


Preso preventivamente e réu pela morte da esposa, a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, o tenente-coronel da reserva Geraldo Leite Rosa Neto, de 54 anos, fez um relato contundente sobre a rotina que afirma enfrentar dentro do Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Natural de Taubaté e morador de São José dos Campos antes da prisão, o oficial disse à Corregedoria da Polícia Militar que passou de funções de comando dentro da corporação para atividades como lavar banheiros, louças e corredores, fazer faxina e buscar refeições para os internos.

Durante o interrogatório realizado no âmbito do Inquérito Policial Militar que apura a morte de Gisele, Geraldo resumiu a própria situação com uma frase de forte impacto: “Eu sou um escravo”. Em outro momento, declarou que somente Deus saberia o quanto estaria sofrendo dentro da unidade prisional. Ele foi ouvido na condição de indiciado e estava acompanhado por advogado.

Segundo o relato do tenente-coronel, a prisão representou uma completa inversão da hierarquia que marcou sua trajetória profissional. Ele afirmou que, no raio onde está custodiado, a maioria dos presos é formada por cabos e soldados, enquanto oficiais são minoria. Geraldo contou que precisa pedir autorização ao policial mais antigo da cela para entrar no espaço e que, no grupo onde está preso, essa função seria exercida por um soldado com menos de cinco anos de corporação.

O oficial também disse que encontra no presídio policiais que anteriormente estiveram sob seu comando ou fiscalização. Conforme sua versão, alguns deles fariam cobranças relacionadas a episódios ocorridos durante sua carreira. Geraldo citou inclusive uma situação de janeiro de 2025 em que teria dado voz de prisão a um tenente e a um pelotão inteiro por insubordinação. As alegações de intimidação, cobranças e tratamento diferenciado, porém, são versões apresentadas pelo próprio preso e não foram confirmadas pelo IPM.

O caso que levou Geraldo ao Romão Gomes começou em 18 de fevereiro de 2026, quando Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde o casal vivia, no bairro do Brás, região central de São Paulo. Na ocasião, o tenente-coronel comunicou a ocorrência inicialmente como um possível suicídio. A investigação, porém, passou por uma reviravolta após laudos, depoimentos e análises da cena levantarem indícios de outra dinâmica.

Geraldo foi preso preventivamente em 18 de março, em sua residência em São José dos Campos. Ele acabou denunciado pelos crimes de feminicídio e fraude processual. A acusação sustenta que ele teria participado da morte da esposa e, posteriormente, alterado elementos da cena para simular suicídio. O tenente-coronel nega o crime e mantém a versão de que Gisele tirou a própria vida.

A situação do processo ganhou um novo capítulo no início de setembro. Um laudo complementar do Instituto de Criminalística de São Paulo, assinado no dia 1º, concluiu que a hipótese de suicídio era incompatível com os vestígios materiais encontrados no apartamento. Segundo o documento, a análise das manchas de sangue e dos demais elementos objetivos indica a intervenção de uma segunda pessoa na morte da policial.

Outros exames produzidos anteriormente já haviam apontado lesões na face e na região cervical de Gisele, incluindo marcas descritas como compatíveis com pressão e escoriações. A investigação também levou em consideração o intervalo entre o disparo ouvido por uma testemunha e o acionamento do socorro, além de outros elementos recolhidos no apartamento.

O Superior Tribunal de Justiça manteve a prisão preventiva de Geraldo no fim de agosto. Na decisão, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca considerou necessária a manutenção da custódia diante do risco de interferência na produção de provas e dos indícios apontados pela investigação de possível alteração da cena onde Gisele foi encontrada. O caso será julgado pelo Tribunal do Júri de São Paulo.

Enquanto aguarda os próximos passos do processo, Geraldo também relatou desconforto com a repercussão de mensagens íntimas trocadas com Gisele. Segundo ele, uma dessas mensagens teria virado motivo de chacota entre presos. Ao falar sobre como acredita ser visto dentro da unidade, declarou que deixou de ser apenas o tenente-coronel acusado pela imprensa para ser identificado entre os internos como o oficial acusado de assassinar uma soldado.

O processo também sofreu um novo atraso. Geraldo deveria ser interrogado pela Justiça comum nesta terça-feira, 8 de setembro, mas a audiência foi adiada pela terceira vez. A juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro, da 5ª Vara do Júri da Capital, remarcou o interrogatório para 5 de outubro, às 13h, após a defesa solicitar diligências complementares antes da oitiva.

A magistrada determinou que a perita responsável preste esclarecimentos adicionais sobre uma gravação mencionada durante audiência e requisitou ao Instituto de Criminalística nova complementação dos quesitos apresentados pela defesa, fixando prazo de 20 dias. A defesa sustenta que os novos esclarecimentos são necessários para garantir o pleno exercício do contraditório.

Geraldo também passou para a reserva da Polícia Militar em junho. O oficial, que havia construído parte de sua trajetória profissional no Vale do Paraíba e residia em São José dos Campos, permanece preso no Romão Gomes enquanto responde ao processo.

Agora, enquanto o laudo mais recente afasta a hipótese de suicídio e a Justiça aguarda novas diligências antes de ouvi-lo novamente, o tenente-coronel descreve uma realidade completamente diferente daquela vivida durante décadas de carreira na Polícia Militar: sem comando, realizando tarefas de limpeza e, segundo seu próprio relato, pedindo permissão a soldados dentro do presídio.

Reprodução/TJM

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