SURTO DE SARNA JÁ ATINGE CERCA DE 150 PESSOAS, FECHA CRECHES E FAZ ALFENAS CANCELAR DESFILE DE 7 DE SETEMBRO
O que começou com casos concentrados em duas unidades de educação infantil ganhou proporções maiores em poucos dias e já interfere até na programação cívica da cidade. Alfenas, no Sul de Minas, contabiliza cerca de 150 casos de escabiose, popularmente conhecida como sarna humana, desde o fim de agosto. Duas creches municipais chegaram a suspender as atividades por sete dias, um comitê especial foi criado para acompanhar a transmissão e, diante da situação, a Prefeitura decidiu também cancelar o tradicional desfile de 7 de Setembro como medida preventiva.
Os primeiros focos de maior repercussão ocorreram no Cemei Professora Maria Conceição Carvalho, conhecido como Dona Zínica, no Jardim São Carlos, e no Cemei Dona Vanja, o Beija Flor, no bairro Campos Elíseos. Somadas, as duas unidades chegaram a concentrar 45 casos confirmados ainda no início do acompanhamento do surto. No Dona Zínica foram registrados 25 casos, sendo 19 entre estudantes e seis servidores. No Dona Vanja, a Vigilância Epidemiológica confirmou outros 20, dos quais 18 em crianças e dois em trabalhadores da unidade.
Diante da rápida transmissão, as atividades nos dois centros infantis foram suspensas temporariamente por sete dias para reforçar as medidas de controle, higienização e acompanhamento dos casos. As unidades já retomaram o funcionamento, mas seguem sob monitoramento das equipes municipais de Saúde e Educação.
A situação levou a Prefeitura de Alfenas a montar um Comitê Intersetorial de Enfrentamento e Monitoramento da Escabiose Humana, reunindo representantes das secretarias de Saúde e Educação, Vigilância Epidemiológica, Vigilância Sanitária e também do Presídio de Alfenas. O objetivo é acompanhar diariamente a evolução dos casos e avaliar se novas medidas precisarão ser adotadas em escolas e outros ambientes coletivos.
A inclusão do presídio no grupo chamou atenção porque a direção da unidade informou que houve registros de escabiose entre detentos aproximadamente três meses atrás. Segundo as informações repassadas à Prefeitura, entretanto, não havia presos apresentando sintomas atualmente. Até agora, não foi divulgada qualquer evidência estabelecendo ligação entre aqueles episódios e o atual aumento de casos na rede municipal de ensino.
Com o número de confirmações chegando a aproximadamente 150 em diferentes pontos do município, a administração decidiu ampliar a resposta. Foi instalado um ponto específico de apoio para pessoas com suspeita ou diagnóstico de escabiose nas dependências da Escola Dr. João Januário Magalhães, enquanto as Unidades Básicas de Saúde continuam realizando os atendimentos normalmente.
A dimensão alcançada pelo surto também provocou uma mudança importante na programação do feriado. O desfile cívico de 7 de Setembro foi suspenso por decisão do comitê, com base em orientações das áreas de Saúde e Educação, para evitar uma grande concentração de pessoas enquanto o município tenta interromper a cadeia de transmissão.
As comemorações da Independência, porém, não foram totalmente canceladas. Segundo a programação divulgada, haverá um ato cívico mais restrito, com hasteamento das bandeiras às 7h de segunda feira (7), na Praça Getúlio Vargas, em frente à Igreja Matriz São José e Dores.
A escabiose é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei e provoca principalmente coceira intensa, muitas vezes pior durante a noite, além de lesões avermelhadas na pele. A transmissão ocorre principalmente pelo contato direto e prolongado entre pessoas, embora roupas, toalhas e roupas de cama contaminadas também possam contribuir para a disseminação. A doença é especialmente preocupante em ambientes de convivência próxima, como famílias, creches e instituições coletivas.
Segundo a infectologista Luísa Patrícia Fogarolli, ouvida durante a cobertura do surto, áreas como axilas, virilhas e espaços entre os dedos estão entre as regiões onde as lesões podem aparecer com maior frequência. Em crianças pequenas, mãos e pés também podem ser atingidos. A médica ressaltou ainda que a sarna humana não é transmitida por cães ou gatos, pois o parasita responsável pela doença em humanos é diferente daquele que provoca sarna em animais. Essa informação também é reforçada por orientações de saúde pública.
Um dos casos relatados durante o surto envolve uma menina de apenas 2 anos. Segundo a mãe, as primeiras bolinhas e a coceira acabaram inicialmente confundidas com uma dermatite que a criança já apresentava. Depois que os sintomas mudaram e a escola entrou em contato com a família, a menina foi levada para avaliação médica e recebeu diagnóstico de escabiose. Ela está bem e permanece em tratamento domiciliar.
O tratamento deve ser indicado por profissional de saúde. Entre as opções utilizadas estão medicamentos tópicos e, em determinados casos, medicamentos por via oral. Um dos pontos considerados fundamentais pelas equipes médicas é avaliar também as pessoas que mantiveram contato próximo com o paciente, porque tratar apenas quem apresenta sintomas pode permitir que a transmissão continue dentro da mesma casa. Orientações oficiais também recomendam cuidados com roupas, toalhas e roupas de cama utilizadas pela pessoa infectada.
Outro esclarecimento importante é que o diagnóstico de escabiose não deve ser associado automaticamente à falta de higiene pessoal. A doença pode atingir pessoas de qualquer idade e se espalha com facilidade quando existe contato próximo e prolongado, especialmente em ambientes com grande convivência entre indivíduos. Creches estão entre os locais onde surtos podem ocorrer justamente pela proximidade constante entre crianças durante brincadeiras, descanso e atividades coletivas.
A recomendação adotada em Alfenas é que pessoas com diagnóstico confirmado permaneçam afastadas temporariamente das atividades coletivas após o início do tratamento, seguindo a orientação recebida pelos profissionais de saúde. Crianças ou adultos que apresentarem coceira muito intensa, principalmente à noite, acompanhada de pequenas lesões ou bolinhas na pele devem procurar avaliação médica em vez de utilizar medicamentos por conta própria.
A Prefeitura mantém ações de higienização e orientação nas unidades da rede municipal enquanto o Comitê Intersetorial acompanha diariamente o número de registros. As demais escolas continuam funcionando normalmente, salvo eventual mudança determinada pelas autoridades sanitárias.
O salto de 45 casos concentrados nas duas primeiras creches para aproximadamente 150 registros no município mostra a velocidade com que a situação ganhou dimensão. A suspensão temporária de unidades infantis, a criação de um atendimento específico, a montagem de um comitê e agora o cancelamento do desfile de 7 de Setembro mostram que Alfenas entrou em uma fase de resposta ampliada para tentar interromper a transmissão.
Até esta sexta-feira (4), não havia divulgação de hospitalizações ou casos graves relacionados ao surto. O foco das autoridades permanece no diagnóstico precoce, tratamento adequado dos pacientes e contatos, higienização e redução das situações que favoreçam novas transmissões.

