SUICÍDIO DESCARTADO: LAUDO APONTA QUE PM GISELE FOI ASSASSINADA E EX-MARIDO SEGUE PRESO
A investigação sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ganhou um novo e decisivo capítulo. Um laudo complementar do Instituto de Criminalística de São Paulo descartou a hipótese de suicídio e concluiu que os vestígios encontrados no local são incompatíveis com a possibilidade de a policial ter provocado a própria morte. A perícia aponta para a participação de uma segunda pessoa na cena e fortalece a linha de investigação por feminicídio. O principal acusado é o ex-marido de Gisele, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, militar ligado ao Vale do Paraíba, que permanece preso preventivamente e responde na Justiça. Ele nega ter matado a policial e ainda não foi julgado.
Gisele morreu em 18 de fevereiro de 2026, no apartamento onde vivia com o então marido, na região central de São Paulo. Ela foi encontrada com um ferimento provocado por disparo de arma de fogo na cabeça. A versão apresentada inicialmente apontava para um possível suicídio, mas desde as primeiras etapas da investigação surgiram elementos que levaram a Polícia Civil a questionar essa hipótese. Com o avanço das perícias e dos depoimentos, o caso passou a ser investigado como feminicídio, enquanto os investigadores também apuraram a possibilidade de alteração da cena após a morte.
O novo laudo complementar analisou fotografias, vestígios físicos e, especialmente, os padrões de manchas de sangue encontrados no apartamento. Segundo as informações divulgadas sobre o documento, os peritos concluíram que a distribuição desses vestígios não sustenta a versão de que Gisele teria tirado a própria vida. A análise também teria apontado incompatibilidades entre a posição dos elementos encontrados no local e a dinâmica esperada em um suicídio, reforçando a tese de que outra pessoa participou diretamente dos acontecimentos.
A perícia complementar assume ainda mais importância porque responde a questionamentos apresentados durante o processo e passa a integrar formalmente o conjunto de provas analisadas pela Justiça. Não se trata, portanto, apenas de uma nova interpretação da investigação, mas de uma conclusão técnica elaborada a partir dos elementos materiais recolhidos na cena. Para a acusação, o resultado reforça a tese de homicídio. A defesa do tenente-coronel informou que está analisando detalhadamente o documento com apoio de assistente técnico e poderá contestar suas conclusões dentro do processo.
Outros elementos já haviam provocado dúvidas sobre a versão inicial. Exames anteriores identificaram lesões no rosto e na região do pescoço de Gisele, além de marcas que passaram a ser analisadas como possíveis sinais de agressão anterior à morte. A investigação também avaliou relatos sobre o horário em que vizinhos teriam ouvido o disparo e o momento em que o socorro foi acionado, uma diferença temporal que se tornou uma das circunstâncias examinadas no inquérito.
A posição da arma também chamou atenção durante o atendimento inicial. Registros feitos no apartamento passaram a fazer parte da análise pericial justamente porque os investigadores consideraram necessário compreender se a disposição do objeto era compatível com a hipótese inicialmente apresentada. A investigação buscou reconstruir não apenas o momento do disparo, mas tudo o que teria acontecido no local antes e depois da morte da policial.
Outro ponto apontado durante o inquérito envolve vestígios de sangue localizados em peças de roupa atribuídas ao tenente-coronel. A investigação também reuniu informações de que ele teria tomado banho e trocado de roupa enquanto a ocorrência ainda estava sendo atendida. Esses elementos são utilizados pela acusação para sustentar a hipótese de possível alteração ou eliminação de vestígios. A defesa, por outro lado, contesta a interpretação dos fatos e mantém a posição de que Geraldo não matou Gisele.
O Ministério Público acusa o tenente-coronel de feminicídio e fraude processual. A tese apresentada no processo é de que Gisele teria sido morta após uma discussão e que a cena teria sido modificada posteriormente para aparentar um suicídio. Essa versão, entretanto, ainda deverá ser examinada integralmente pela Justiça. Geraldo Leite Rosa Neto é réu, permanece preso preventivamente, mas não possui condenação pelo caso até o momento.
A prisão ocorreu em março deste ano, em São José dos Campos, depois do avanço das investigações. Desde então, a defesa tenta reverter a medida, mas o Superior Tribunal de Justiça manteve recentemente a prisão preventiva. Entre os fundamentos considerados para a manutenção da custódia estão a gravidade dos fatos investigados, a necessidade de preservar a instrução processual e elementos relacionados à possível interferência na produção das provas.
O processo tramita perante o Tribunal do Júri da capital paulista. Dezenas de pessoas já foram ouvidas, incluindo familiares, policiais e outras testemunhas relacionadas ao caso. O interrogatório do tenente-coronel é uma das próximas etapas importantes do processo, especialmente agora que o laudo complementar passa a integrar formalmente o conjunto de elementos técnicos avaliados pela acusação e pela defesa.
Para os familiares de Gisele, a conclusão pericial reforça uma posição defendida desde o início: a de que a policial não teria cometido suicídio. A representação jurídica da família sustenta que os novos resultados fortalecem a acusação de feminicídio e espera que o documento tenha peso na continuidade do processo. A definição sobre a autoria, contudo, caberá à Justiça após a análise de todas as provas, manifestações das partes e eventual julgamento pelo Tribunal do Júri.
O novo laudo muda de maneira importante o cenário técnico do caso. A hipótese de suicídio, que marcou os primeiros momentos após a morte de Gisele, passa a ser considerada incompatível com os vestígios analisados pelo Instituto de Criminalística. A partir de agora, a discussão judicial se concentra ainda mais na reconstrução do que ocorreu dentro do apartamento e na responsabilidade criminal atribuída ao ex-marido.
Enquanto o processo avança, Geraldo Leite Rosa Neto continua preso preventivamente e responde às acusações apresentadas pelo Ministério Público. A defesa mantém a contestação e deverá se manifestar sobre o conteúdo detalhado da perícia. O caso segue sob análise da Justiça, mas a nova conclusão técnica representa um dos elementos mais significativos apresentados desde o início da investigação.


