VALE NO CENTRO DO CASO MASTER: PF APONTA RECEPÇÃO “ULTRA VIP” A MORAES COM CANTOR, CAVALOS E CHEF EM CAMPOS DO JORDÃO
O Vale do Paraíba entrou no roteiro das revelações envolvendo o caso Banco Master. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição financeira, mostram a preparação de uma recepção classificada pelo próprio empresário como uma “experiência completa” para convidados “ultra VIP” em Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira. Segundo a interpretação apresentada pela PF, o principal convidado identificado nas conversas como “Alex” era o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. A programação envolvia nove convidados, quatro seguranças, cantor, cavalos, gastronomia e uma estrutura preparada especialmente para o grupo.
Os detalhes fazem parte de um relatório elaborado pela Polícia Federal a partir do material apreendido no celular de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero. O documento teve o sigilo retirado nesta terça-feira (1º) por determinação do ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no STF, trazendo a público uma sequência de mensagens que ajuda a reconstruir a aproximação entre Vorcaro, Moraes e o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria.
A preparação para a passagem pela região aparece nas conversas do dia 27 de dezembro de 2023. Fábio Faria perguntou a Vorcaro se o almoço poderia acontecer no dia 30 e, pouco depois, informou que “Alex” gostaria de participar. Depois da confirmação, Faria comunicou que seriam nove pessoas acompanhadas por quatro seguranças e pediu o endereço correto para que a escolta pudesse se preparar. Vorcaro então enviou a localização do Six Senses Botanique, empreendimento de luxo instalado na Serra da Mantiqueira, na região de Campos do Jordão.
A preocupação com a segurança começou antes da chegada dos convidados. Segundo as mensagens, Fábio Faria informou que integrantes da escolta iriam ao local um dia antes e solicitou um contato responsável pela recepção. Vorcaro repassou o telefone de uma funcionária e começou a organizar internamente a programação.
Foi nesse momento que surgiu uma das mensagens que mais chamou atenção dos investigadores. Ao orientar sua equipe, Vorcaro informou que precisaria organizar um almoço em Campos do Jordão e determinou que os convidados recebessem uma “experiência completa”, classificando o grupo como “ultra VIP”. A programação deveria ir além de uma simples refeição.
Uma funcionária perguntou se deveria contratar um cantor para a ocasião. Vorcaro autorizou. Em seguida, pediu que os cavalos também fossem deixados disponíveis como parte da experiência oferecida aos visitantes. As conversas indicam ainda que funcionários deveriam apresentar diferentes áreas da propriedade aos convidados, mas sem transformar o passeio em algo excessivamente formal.
Segundo reportagem baseada no relatório da PF, entre os participantes estavam Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, além de Fábio Faria, Patrícia Abravanel, a esposa de Vorcaro e outros convidados. O grupo previsto era de nove pessoas, além dos quatro integrantes da segurança.
Por volta das 13h34 do dia 30, um funcionário identificado como Michael informou a Vorcaro que os convidados haviam chegado e que estava apresentando o local. As mensagens também registram a presença do desembargador paulista Airton Vieira. Vieira havia atuado como juiz instrutor no gabinete de Alexandre de Moraes no STF entre 2018 e março de 2023 e voltaria ao gabinete no início de 2024.
Mesmo à distância, Vorcaro acompanhava a movimentação. Em determinado momento, orientou o funcionário para que não acompanhasse o grupo constantemente pelos diferentes ambientes, numa tentativa de manter a recepção mais natural e discreta. O empresário pediu apenas que continuasse recebendo informações sobre o andamento da visita.
Outro episódio registrado nas mensagens envolveu fotografias com o ministro. O chef particular de Vorcaro, identificado como Zé Maria, teria tirado uma foto com Moraes e trocado telefone com ele. Inicialmente, o empresário demonstrou descontentamento e pediu que o funcionário conversasse com o cozinheiro. A explicação posteriormente apresentada foi de que o próprio ministro teria pedido fotografias com pessoas presentes. Ao receber essa informação, Vorcaro respondeu que, nesse caso, não haveria problema.
As mensagens também mostram que o desembargador Airton Vieira teria chegado ao local de táxi e que foi discutida a possibilidade de disponibilizar um motorista para levá-lo embora após o encontro.
A passagem por Campos do Jordão ocorreu em meio a uma aproximação que vinha sendo intermediada por Fábio Faria nos últimos dias de dezembro de 2023. Registros analisados pela PF indicam encontros anteriores e mostram que, em 26 de dezembro, Faria compartilhou com Vorcaro um telefone salvo em sua agenda como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Treze segundos depois, segundo a reconstrução feita pelos investigadores, o número foi armazenado no aparelho do banqueiro. No dia seguinte começaram as tratativas para o almoço no Vale.
O relatório aponta ainda que o mesmo número aparecia associado a diferentes identificações na agenda de Fábio Faria. Esse conjunto de informações foi utilizado pela Polícia Federal para sustentar a conclusão de que as referências a “Alex” nas conversas estavam relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes.
A cronologia ganhou ainda mais repercussão porque, poucos dias após os encontros registrados no final daquele ano, avançaram as tratativas comerciais entre o Banco Master e o escritório de advocacia comandado por Viviane Barci de Moraes. Em 11 de janeiro de 2024, segundo o relatório policial, uma minuta de contrato foi encaminhada a Vorcaro. Documentos posteriormente analisados indicam um contrato de aproximadamente R$ 130 milhões para serviços jurídicos e consultoria.
O escritório de Viviane afirmou, sobre o contrato, que Moraes foi consultado para verificar a existência de impedimentos legais e que o ministro não havia julgado causas do Banco Master. A banca reconheceu o primeiro contrato e informou que ele foi encerrado posteriormente com a liquidação da instituição financeira.
A existência dessa sequência temporal não significa, por si só, que a recepção realizada em Campos do Jordão tenha sido contrapartida ou condição para qualquer contrato. As mensagens integram uma investigação mais ampla, e especialistas ouvidos após a divulgação do material também ressaltaram que conclusões criminais dependem da análise completa das provas e de eventual manifestação da Procuradoria Geral da República.
O caso ganhou dimensão nacional nesta terça-feira depois que André Mendonça retirou o sigilo do material. As mensagens encontradas no telefone de Vorcaro passaram a ser analisadas dentro de um contexto mais amplo sobre a relação do ex-banqueiro com autoridades e pessoas próximas ao poder público. Nas reportagens consultadas até esta atualização, não havia uma manifestação específica atribuída a Moraes sobre os detalhes da recepção realizada em Campos do Jordão.
Para o Vale do Paraíba, as revelações colocam a Serra da Mantiqueira dentro de um dos capítulos da investigação que envolve o Banco Master. O cenário escolhido foi um dos empreendimentos de luxo mais conhecidos da região, localizado no chamado Triângulo das Serras, área próxima a Campos do Jordão, Santo Antônio do Pinhal e São Bento do Sapucaí.


