PEDIU EXONERAÇÃO TRÊS DIAS ANTES: EX-SECRETÁRIO DE SÃO SEBASTIÃO É PRESO EM OPERAÇÃO QUE APURA R$ 2,35 MILHÕES EM PROPINA
Um detalhe de calendário colocou ainda mais atenção sobre um dos presos na Operação Merx, deflagrada nesta sexta-feira, 28 de agosto. Marcos Vinícius de Souza Melo, policial civil que ocupava o cargo de secretário adjunto de Segurança Urbana de São Sebastião, pediu exoneração da Prefeitura na terça-feira, 25, apenas três dias antes da operação que investiga um suposto esquema de corrupção envolvendo policiais civis, advogado e empresários. A saída, segundo a administração municipal, foi solicitada pelo próprio servidor por motivos particulares e ocorreu antes da deflagração da ação. Não há informação de que o pedido de exoneração tenha relação comprovada com a investigação.
Marcos Vinícius ficou menos de dois meses no cargo na Prefeitura de São Sebastião. Ele havia assumido a função em julho, após se afastar da Polícia Civil, e tinha salário-base de aproximadamente R$ 16,1 mil. De acordo com informações disponíveis no Portal da Transparência do município, naquele mês recebeu cerca de R$ 18,3 mil em proventos, chegando a um valor líquido próximo de R$ 14 mil. A exoneração foi publicada oficialmente nesta sexta-feira, mas com efeitos retroativos ao dia 25 de agosto, data em que, segundo a Prefeitura, ele pediu para deixar a administração.
Marcos Vinícius foi preso preventivamente durante a Operação Merx, investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Corregedoria da Polícia Civil. A apuração aponta a existência de um esquema no qual policiais civis teriam interceptado cargas de celulares e outros eletrônicos de origem irregular e, em vez de apreender integralmente as mercadorias, exigiriam pagamentos para permitir a liberação de parte ou de toda a carga.
Segundo os investigadores, os valores cobrados chegariam a aproximadamente 70% do valor das mercadorias. Ao menos quatro episódios ocorridos em 2024 foram identificados pelo Ministério Público, com vantagens indevidas que, somadas, alcançariam cerca de R$ 2,35 milhões. Esses episódios, conforme as informações divulgadas, aconteceram quando Marcos Vinícius ainda exercia funções como investigador da Polícia Civil em Cotia e Barueri, na Grande São Paulo.
Esse ponto é importante porque a investigação não atribui os episódios de cobrança de propina ao período em que Marcos Vinícius trabalhava na Prefeitura de São Sebastião. A administração municipal afirmou que não faz parte da investigação e informou que prestará todos os esclarecimentos que eventualmente forem solicitados formalmente pelas autoridades responsáveis pela Operação Merx.
A presença de Marcos Vinícius no governo municipal, entretanto, ganhou repercussão porque ele ocupava justamente uma função ligada à Segurança Urbana. Segundo a reportagem divulgada nesta sexta-feira, o policial morava em uma casa de padrão elevado em Maresias, na Costa Sul de São Sebastião. O imóvel também passou a aparecer nas informações relacionadas à operação, embora a simples condição da residência não represente, por si só, prova de irregularidade patrimonial.
A defesa de Marcos Vinícius rejeitou as acusações. Os advogados afirmaram que repudiam os fatos atribuídos ao policial civil e disseram que documentos e esclarecimentos apresentados ao Poder Judiciário e ao Ministério Público deverão demonstrar aquilo que classificam como “absoluta improcedência” das acusações. Marcos Vinícius é investigado e preso preventivamente, mas ainda não há condenação pelos fatos apurados na Operação Merx.
Além dele, outros policiais civis também foram presos. Entre os nomes divulgados estão José Adriano Pereira da Silva Nishi e Bruno Moreno dos Santos. O advogado Sidiclei Almeida e o empresário Jonathan Vieira, do Paraná, também aparecem entre os presos durante a ofensiva. A investigação atribui funções diferentes aos envolvidos e busca esclarecer quem negociava, quem realizava os pagamentos e como o dinheiro circulava entre os participantes.
A Operação Merx investiga possíveis crimes de corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo a apuração, policiais interceptavam cargas de eletrônicos provenientes de descaminho e negociavam a devolução das mercadorias mediante pagamento. Em mensagens analisadas durante a investigação, o dinheiro relacionado às supostas propinas teria recebido até um apelido: “caixinha da alegria”.
A Justiça autorizou 18 mandados de busca e apreensão em diferentes cidades de São Paulo, Paraná e Goiás. São Sebastião esteve entre os municípios atingidos pelas diligências. Também foi determinado o bloqueio de até R$ 4 milhões em bens dos investigados, medida destinada a preservar valores que eventualmente possam estar relacionados aos crimes apurados.
A investigação também atingiu unidades da própria Polícia Civil. Depois do cumprimento das ordens judiciais, a Corregedoria realizou correições extraordinárias em delegacias incluídas na operação. A apuração busca saber até que ponto estruturas policiais teriam sido utilizadas para interceptar, armazenar ou dar aparência regular às apreensões das cargas enquanto parte das mercadorias seria negociada clandestinamente.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comentou as prisões e afirmou que o Estado não tolerará desvios cometidos por agentes públicos, defendendo o afastamento e a responsabilização de policiais caso as irregularidades sejam comprovadas.
Em São Sebastião, a Prefeitura reforçou que Marcos Vinícius já não integrava a administração municipal quando a Operação Merx foi deflagrada. Segundo o município, ele pediu desligamento na terça-feira, três dias antes das prisões, alegando razões particulares. Até o momento, não foi apresentada informação oficial que demonstre que a saída antecipada tenha ocorrido porque o então secretário soubesse da operação.
O caso agora deverá avançar com a análise do material apreendido, movimentações financeiras, mensagens, documentos e eventuais depoimentos dos investigados. Também caberá à Justiça avaliar a manutenção das prisões preventivas e as demais medidas determinadas no processo.
O fato que colocou São Sebastião no centro da repercussão foi justamente a trajetória recente de Marcos Vinícius: policial civil, afastado da corporação, nomeado para um dos principais cargos da Segurança Urbana do município, remunerado com salário-base superior a R$ 16 mil e, pouco menos de dois meses depois, exonerado a pedido apenas três dias antes de ser preso em uma operação que investiga milhões de reais em supostas propinas.


