Sábado, Agosto 22, 2026
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AVIÃO NÃO GANHOU ALTURA E CAIU NA AVENIDA: CENIPA APONTA PROBLEMA NO MOTOR E FATORES OPERACIONAIS EM UBATUBA


Mais de três anos depois de um avião de propaganda atravessar o limite do Aeroporto de Ubatuba e terminar destruído em uma avenida no Centro da cidade, a investigação aeronáutica traz respostas sobre o que aconteceu nos segundos decisivos antes da queda. O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa, aponta que uma possível redução da potência do motor, somada a fatores relacionados à operação da aeronave e às decisões tomadas durante a emergência, contribuiu para o acidente ocorrido em 28 de janeiro de 2023.

A aeronave era um Cessna 170B, de matrícula PT-AUG, utilizado em operações de aeropublicidade com reboque de faixas. Registros aeronáuticos identificam o avião pelo número de série 26698 e relacionam sua operação à Visual Propaganda Aérea.

Naquele dia, o piloto era a única pessoa a bordo. O objetivo do voo era rebocar uma faixa publicitária sobre o litoral. A operação exigia que a aeronave decolasse e posteriormente capturasse a faixa preparada no solo antes de seguir para o sobrevoo das praias.

Foi justamente depois da captura da faixa que começaram os problemas.

Segundo o relatório final divulgado pelo Cenipa nesta sexta-feira (21), o avião não apresentou o desempenho de subida esperado. A aeronave começou a perder velocidade e não conseguiu ganhar altitude suficiente para ultrapassar os obstáculos existentes à frente.

Diante da situação, o piloto percebeu que algo estava errado e soltou a faixa publicitária, numa tentativa de reduzir o arrasto e melhorar o desempenho do avião.

A investigação mostrou, entretanto, que havia outro problema acontecendo simultaneamente.

Ao desmontar e examinar o motor, técnicos encontraram resíduos de carbonização relacionados às válvulas do segundo cilindro. De acordo com o Cenipa, essa condição poderia provocar redução da potência disponível do motor e é compatível com a dificuldade enfrentada pela aeronave para ganhar altitude.

O relatório não conseguiu estabelecer de maneira definitiva até que ponto procedimentos anteriores de manutenção contribuíram para a condição encontrada. Por isso, a manutenção foi classificada na investigação como fator de influência indeterminada.

Isso significa que o Cenipa identificou uma situação técnica capaz de afetar o desempenho do motor, mas não encontrou elementos suficientes para afirmar de forma conclusiva qual procedimento de manutenção teria provocado ou permitido o problema.

Ao mesmo tempo em que enfrentava a perda de desempenho, o piloto precisava tomar decisões em poucos segundos.

Depois de soltar a faixa, ele acionou os flapes da aeronave. Os flapes são superfícies móveis das asas que podem aumentar a sustentação em determinadas situações, principalmente durante pousos e voos em baixa velocidade. Porém, dependendo da configuração adotada e das condições de voo, também aumentam o arrasto.

Segundo a análise do Cenipa, a configuração utilizada naquele momento contribuiu para aumentar a perda de energia da aeronave.

O relatório aponta a aplicação dos comandos e o julgamento de pilotagem entre os fatores que contribuíram para o acidente. Isso não significa que o órgão atribuiu culpa ao piloto. As investigações do Cenipa possuem finalidade exclusivamente preventiva e buscam identificar fatores que possam evitar novos acidentes, e não estabelecer responsabilidade criminal ou civil.

A combinação se tornou crítica: um avião que já poderia estar trabalhando com potência reduzida, baixa velocidade, uma operação de reboque que naturalmente acrescentava resistência ao avanço e mudanças na configuração da aeronave justamente quando era necessário recuperar energia e altitude.

O resultado foi que o Cessna não conseguiu subir o suficiente.

A aeronave ultrapassou os limites do aeródromo, atingiu estruturas existentes próximas à saída da pista e terminou na via pública em frente ao aeroporto, na região central de Ubatuba.

Relatos divulgados no dia do acidente informaram que o avião atravessou o cercamento do aeroporto e atingiu ainda estruturas próximas à rede elétrica antes de parar. O Corpo de Bombeiros foi acionado para a ocorrência e a área precisou ser isolada.

A cena impressionou quem passava pela região.

O avião ficou bastante danificado, inclusive em uma das asas, no meio de uma área urbana normalmente movimentada. Apesar da gravidade e da possibilidade de o acidente atingir veículos ou pedestres, ninguém que estava na rua foi atingido.

O piloto também conseguiu sair sem ferimentos.

A ausência de vítimas acabou sendo um dos aspectos mais marcantes daquele acidente. A aeronave deixou a área do aeroporto e caiu em uma região urbana, mas o piloto, único ocupante, permaneceu ileso e nenhuma pessoa em solo sofreu ferimentos.

Outro ponto descartado pelo relatório foi o mau tempo.

Segundo o Cenipa, as condições meteorológicas eram adequadas para a realização do voo e não contribuíram para o acidente. A investigação concentrou os fatores contribuintes principalmente na perda de desempenho da aeronave, nas condições técnicas encontradas no motor e nas decisões operacionais tomadas durante a situação de emergência.

O relatório também chama atenção para uma característica bastante específica desse tipo de operação.

Rebocar faixas publicitárias exige técnicas próprias de pilotagem, já que a aeronave precisa capturar a faixa e voar carregando um objeto externo que produz arrasto adicional. Uma eventual redução de potência ou perda de velocidade nessa etapa pode exigir respostas rápidas e procedimentos de emergência bem treinados.

Por isso, uma das recomendações emitidas após a investigação foi justamente o reforço de treinamentos e dos procedimentos de segurança para pilotos envolvidos em operações de aeropublicidade com reboque de faixas, principalmente diante de situações de baixa velocidade e perda de desempenho.

O Cenipa também recomendou atenção aos procedimentos relacionados à manutenção dos motores utilizados pela empresa responsável pela aeronave.

A investigação ganha um contexto adicional porque a Visual Propaganda Aérea já havia sido destinatária de recomendações de segurança do Cenipa relacionadas a outro acidente, ocorrido em fevereiro de 2020 com outra aeronave. Naquela apuração, sem relação direta estabelecida com o acidente de Ubatuba, o órgão recomendou que a empresa reavaliasse a frequência e a metodologia dos treinamentos de falha de motor e detalhasse melhor seus procedimentos de emergência. A recomendação foi registrada como adotada.

O histórico mostra a preocupação do sistema de investigação aeronáutica com os riscos particulares das operações de propaganda aérea. O próprio Cenipa também recomendou, naquele episódio anterior, a divulgação das lições aprendidas a outros operadores que realizam voos de aeropublicidade com reboque de faixas.

No caso de Ubatuba, a aeronave envolvida era um modelo antigo e bastante conhecido na aviação geral. Registros especializados apontam que o PT-AUG era um Cessna 170B fabricado na década de 1950. Fotografias da mesma aeronave já haviam sido registradas em Itanhaém e no Aeroporto de Jacarepaguá anos antes do acidente.

A idade de uma aeronave, entretanto, não significa automaticamente que ela esteja insegura. Aviões antigos podem continuar operando regularmente desde que sejam submetidos aos programas de manutenção, inspeções e requisitos de aeronavegabilidade estabelecidos pelas autoridades.

É justamente por isso que a análise das condições mecânicas recebeu atenção dos investigadores.

Mais de três anos depois daquela cena que chamou atenção no Centro de Ubatuba, o relatório permite reconstruir com maior precisão a sequência: o avião capturou a faixa de propaganda, teve dificuldade para manter velocidade e subir, o piloto percebeu a perda de desempenho e descartou a faixa, alterações na configuração dos flapes contribuíram para reduzir ainda mais a energia disponível e a aeronave não conseguiu superar os obstáculos à frente.

No motor, posteriormente, os investigadores encontraram sinais de carbonização em componentes do segundo cilindro, condição que poderia ter provocado redução de potência.

O Cenipa não apontou um único responsável nem resumiu o acidente a uma única causa.

A conclusão mostra uma combinação de fatores técnicos e operacionais que, juntos, colocaram o Cessna em uma condição da qual não conseguiu se recuperar antes de atingir o limite do aeroporto e cair na avenida.

Apesar dos danos à aeronave e do risco provocado pela queda em uma área urbana, aquela tarde de 28 de janeiro de 2023 terminou sem mortes ou feridos. Agora, em agosto de 2026, o relatório final transforma as imagens impressionantes registradas naquele dia em lições que o sistema de segurança da aviação pretende utilizar para evitar que uma situação semelhante volte a acontecer.

Foto: Márcio Silva/Arquivo pessoal

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