Sábado, Agosto 22, 2026
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“COMIDA NO CHÃO COM FEZES”: EX-PACIENTES RELATAM TORTURA, AGRESSÕES E CÁRCERE EM CLÍNICA INVESTIGADA EM MG


Relatos de comida jogada sobre um chão sujo de fezes, pacientes trancados em cômodos insalubres, agressões físicas, pessoas debilitadas e até uma denúncia de violência sexual envolvendo adolescentes colocaram uma clínica neuropsiquiátrica de Alfenas, no Sul de Minas Gerais, no centro de uma investigação de grande repercussão. O estabelecimento foi alvo de uma operação do Ministério Público após denúncias de maus-tratos, sequestro e cárcere privado, e novos depoimentos de ex-internos começaram a revelar situações que eles afirmam ter vivido durante o período de internação.

Um dos relatos mais graves é de um ex-paciente que afirma ter sido obrigado a comer uma refeição que teria sido jogada diretamente no chão, em um ambiente onde havia fezes. Segundo ele, a situação aconteceu depois de episódios de violência e humilhação dentro da instituição. O relato faz parte de um conjunto de novas denúncias que passaram a ser conhecidas depois da operação realizada nesta semana.

O mesmo ex-interno afirmou que teve as roupas retiradas e foi colocado dentro de um quarto fechado, onde havia urina e fezes. Segundo seu depoimento, dois homens teriam participado de agressões contra ele. Enquanto um o golpeava no rosto, o outro teria desferido chutes em suas costas. O paciente relatou ainda que passou a noite em um cômodo molhado e sobre um piso frio.

As acusações precisam ser investigadas e ainda não representam uma conclusão judicial sobre responsabilidade individual. A dimensão dos relatos, porém, levou as autoridades a ampliarem a apuração sobre o funcionamento da clínica e sobre as condições às quais pacientes teriam sido submetidos.

Durante a operação, sete homens, com idades entre 27 e 48 anos, foram encontrados em condições consideradas precárias pelas autoridades. Segundo as investigações, eles permaneciam confinados em cômodos onde havia fezes espalhadas pelo chão e apresentavam sinais de debilidade física.

A situação encontrada levou à apuração de possíveis crimes de maus-tratos, sequestro e cárcere privado. A investigação deverá determinar por quanto tempo os pacientes permaneceram nessas condições, quem tinha responsabilidade direta sobre os ambientes, quais tratamentos eram efetivamente oferecidos e se havia justificativa clínica para as formas de contenção encontradas.

O caso se tornou ainda mais delicado porque a instituição não atendia apenas adultos.

Atualmente, segundo as informações divulgadas pelas autoridades, 24 adolescentes estão acolhidos na clínica. Além disso, pacientes em tratamento contra dependência química e pessoas com transtornos psiquiátricos dividiriam os mesmos espaços e seriam submetidos a formas semelhantes de tratamento, situação que também deverá ser analisada.

Uma denúncia recebida pelo Conselho Tutelar em março deste ano acrescentou outro elemento grave à investigação. O órgão passou a acompanhar um suposto caso de estupro e coerção envolvendo dois adolescentes internados na clínica e um adulto.

Segundo a conselheira tutelar Valéria Aparecida da Silva, uma das vítimas foi retirada do estabelecimento, enquanto outro adolescente continuava no local. A conselheira relatou que o jovem chegou a abraçá-la e pedir ajuda para sair da clínica, afirmando que estaria sofrendo durante a internação.

A Polícia Civil informou que tomou conhecimento das denúncias de possíveis abusos sexuais e que essas informações estão sendo consideradas dentro da investigação. A existência da denúncia, entretanto, não significa que o crime já tenha sido comprovado. Caberá às autoridades reunir depoimentos, exames, documentos e outros elementos capazes de esclarecer o que aconteceu.

A repercussão do caso levou o Ministério Público e a Prefeitura de Alfenas a criarem um gabinete de crise, com o objetivo de acompanhar a situação das pessoas internadas e organizar o encaminhamento dos pacientes que precisam deixar o estabelecimento.

Parte dos internos que havia sido levada para o Hospital Alzira Velano começou a ser transferida para outras cidades. Pacientes foram encaminhados para Passa Quatro e Barbacena, enquanto as prefeituras dos municípios de origem passaram a participar do processo de definição dos novos locais de atendimento.

O tamanho da operação assistencial é significativo. Segundo informações do comitê de crise, 121 pessoas, principalmente adultos com idades entre 30 e 45 anos, permaneciam internadas na instituição, além dos adolescentes mencionados pelas autoridades.

As denúncias também abriram novamente arquivos antigos sobre o funcionamento da clínica.

Questionamentos relacionados à instituição não começaram em 2026. Já em 2008, uma reportagem da EPTV havia apontado suspeitas de maus-tratos e deficiência na quantidade de profissionais disponíveis para atender o número de pacientes.

Mais recentemente, outro episódio voltou a gerar questionamentos.

Em 2024, familiares de um adolescente de 15 anos que morreu após passar pela clínica acusaram a instituição de negligência no atendimento. A avó do jovem, Marli Martins da Silva, afirmou que a morte provocou forte impacto emocional na família e que precisou realizar tratamento psicológico depois da perda.

Ela também contou que, quando o adolescente foi internado, a família não teve autorização para conhecer pessoalmente as instalações internas da instituição. Segundo o relato, os parentes teriam visto apenas fotografias da estrutura.

A retomada dessa história depois da operação desta semana aumentou a cobrança por respostas sobre o funcionamento da clínica ao longo dos anos.

Outro ex-paciente afirmou que familiares chegavam a pagar aproximadamente R$ 4 mil pelo tratamento. Segundo ele, apesar do valor cobrado, faltariam condições básicas de higiene, banho, alimentação adequada e cuidados mínimos durante a internação. Em seu depoimento, classificou aquilo que viveu no estabelecimento como tortura e disse esperar que as autoridades responsabilizem quem eventualmente tenha cometido irregularidades.

A operação resultou ainda na prisão do médico apontado como proprietário e responsável pela clínica, Bahjat Mohamed Ahmed Ali Hammad. Ele foi detido durante a ação, mas recebeu alvará de soltura na quarta-feira (19).

A liberação não encerra a investigação. As suspeitas relacionadas ao funcionamento da instituição continuam sendo apuradas, e o conjunto de provas poderá incluir depoimentos de pacientes e ex-pacientes, documentação clínica, prontuários, registros administrativos, perícias realizadas nos ambientes e informações prestadas por funcionários e responsáveis pela unidade.

A defesa do proprietário foi procurada pela reportagem original para comentar as novas acusações, mas não havia apresentado manifestação até a última atualização divulgada.

Um dos desafios das autoridades será reconstruir o que acontecia diariamente dentro do estabelecimento. Os investigadores deverão verificar quais pacientes podiam permanecer trancados, em quais circunstâncias eram adotadas medidas de contenção, como funcionavam a alimentação e a higiene, qual era a quantidade de profissionais responsáveis pelo atendimento e se os tratamentos seguiam protocolos adequados.

Também deverá ser analisado se pacientes vulneráveis eram colocados juntos sem a necessária separação por idade, condição psiquiátrica e tipo de tratamento.

A investigação ganhou uma dimensão ainda maior depois dos relatos apresentados pelos ex-internos. O que inicialmente já envolvia sete homens encontrados em situação considerada precária passou a incluir histórias de agressões, humilhações e possíveis abusos ocorridos em períodos anteriores.

Um dos relatos resume a gravidade das acusações: segundo um ex-paciente, depois de ser colocado em um quarto com sujeira e sofrer agressões, uma funcionária teria levado sua refeição e jogado a comida diretamente no chão, onde havia fezes, ordenando que ele comesse.

A declaração é uma acusação do ex-interno e deverá ser investigada. Não existe, até o momento, decisão judicial que confirme a autoria ou responsabilidade pelos fatos narrados.

Enquanto Ministério Público, Polícia Civil, Conselho Tutelar, Prefeitura e demais órgãos envolvidos trabalham para esclarecer o que ocorreu, a prioridade imediata também está voltada aos pacientes que ainda precisam de atendimento e de um destino adequado após a intervenção na instituição.

O caso agora reúne diferentes frentes de apuração: as condições encontradas durante a operação, os relatos de antigos internos, a denúncia envolvendo adolescentes, o histórico de questionamentos que remonta a 2008 e a morte de um jovem de 15 anos ocorrida após uma internação em 2024.

São denúncias de períodos diferentes que ainda precisarão ser analisadas individualmente, mas que colocaram o funcionamento da clínica sob uma investigação ampla.

Foto: Reprodução EPTV

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