“SÓ REZAVA PARA DEUS SEGURAR AQUELA PILASTRA”: CAMINHONEIRO PRESO SOB PASSARELA CONTA OS 30 MINUTOS EM QUE ACHOU QUE MORRERIA NA FERNÃO DIAS
Foram poucos segundos entre enxergar a estrutura começando a desabar e perceber que não havia mais para onde escapar. Dentro da cabine de um caminhão, Fabiano de Andrade Silva, de 47 anos, viu uma enorme pilastra da passarela cair em sua direção na Rodovia Fernão Dias, em Vargem. Sem conseguir sair do veículo e preso entre as ferragens, ele passou cerca de 20 a 30 minutos acreditando que poderia morrer esmagado. Naquele momento, segundo contou depois de sobreviver, só conseguiu fazer uma coisa: rezar. “Só rezava para Deus. Pedia a Ele para pôr a mão e segurar aquela pilastra, para ela não me deixar morrer esmagado.”
Fabiano é morador de Estiva, em Minas Gerais, e trabalha para uma distribuidora de morangos. Havia sido contratado havia pouco tempo e fazia apenas sua terceira viagem pela empresa quando, na terça-feira, 18 de agosto, se viu no meio de uma das cenas mais impressionantes registradas na Fernão Dias. A passarela desabou depois que uma carreta que transportava um caminhão basculante atingiu um dos pilares da estrutura. Rosângela Soares Chaves e Douglas Soares Quaresma, que estavam em um carro atingido pela estrutura, morreram no local.
Fabiano trafegava atrás da carreta e contou que percebeu o perigo antes mesmo da colisão. Segundo o relato do caminhoneiro, o conjunto que seguia à sua frente transportava uma carga com dimensões acima das permitidas. Ele afirmou ainda que a carreta iniciou uma ultrapassagem pela faixa da esquerda e que, durante a manobra, a carga acabou atingindo uma das pilastras da passarela.
Ao perceber que algo estava prestes a acontecer, Fabiano disse que pisou com força no freio. O caminhão começou a deslizar pela pista, mas já não havia espaço suficiente para evitar completamente a estrutura que desabava à sua frente.
“Eu vi tudo. Na hora que ele me ultrapassou, eu fui obrigado a frear para não bater na traseira dele”, relatou. Segundo Fabiano, quando percebeu que a carreta atingiria a passarela, tentou parar o veículo de qualquer maneira. “Quando eu vi que o caminhão ia bater, enfiei o pé no freio com tudo. O meu caminhão foi deslizando.”
Os segundos seguintes ficaram marcados na memória do motorista. Ele viu a pilastra se desprender e entendeu que sua cabine estava diretamente no caminho da estrutura. Não havia possibilidade de avançar nem de sair a tempo. A alternativa era esperar pelo impacto.
“Eu vi que a pilastra ia cair. Ou ela caía em cima de mim, ou eu ia bater nela. Foi o que aconteceu.”
Parte da estrutura caiu sobre o caminhão de Fabiano. Segundo o motorista, a pilastra não despencou de uma única vez porque acabou apoiada no guard rail. Mesmo assim, começou a escorregar lentamente em direção à cabine. Foi nesse momento que o caminhoneiro ficou preso e passou a acompanhar, praticamente sem poder fazer nada, o peso da estrutura avançando sobre o veículo.
A cada instante, segundo ele, aumentava o medo de que a pilastra cedesse completamente e esmagasse a cabine. Preso entre as ferragens, Fabiano permaneceu naquela situação durante aproximadamente 20 a 30 minutos. Sem saber se seria retirado a tempo, transformou o desespero em oração.
“Só rezava para Deus. Pedia a Ele para pôr a mão e segurar aquela pilastra, para ela não me deixar morrer esmagado.”
O caminhoneiro acabou sendo retirado com vida. Ele sofreu ferimentos leves e precisou ser transportado de helicóptero ao Hospital Universitário de Bragança Paulista. Depois de receber atendimento médico, teve alta na quarta-feira, 19 de agosto.
Ao deixar o hospital, ainda abalado pelo que havia vivido, Fabiano seguia para Atibaia para realizar procedimentos relacionados ao registro da ocorrência junto à Polícia Rodoviária Federal. O caminhoneiro classificou a sobrevivência como um livramento. “Foi o meu livramento de Deus”, resumiu.
Apesar de ter escapado, Fabiano também deixou críticas à condução da carreta. Em entrevista, afirmou considerar que o motorista responsável pelo transporte agiu de forma irresponsável, dizendo que teriam sido desrespeitados limites relacionados à velocidade, altura e largura. As declarações representam a versão do caminhoneiro que presenciou o acidente e deverão ser confrontadas com as conclusões da investigação e das perícias.
O motorista da carreta, Deyvidson Temudo de Oliveira, teve a prisão preventiva decretada na quarta-feira, 19 de agosto. Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, o veículo transportava uma carga com dimensões superiores às autorizadas. As circunstâncias da viagem, a documentação necessária para esse tipo de transporte e a dinâmica completa do acidente deverão integrar a apuração.
Enquanto a investigação tenta estabelecer responsabilidades, Fabiano tenta assimilar o fato de ter saído vivo de uma cabine que ficou sob uma estrutura de concreto. Durante aqueles minutos, ele não sabia que conseguiria voltar para casa, nem se a pilastra suportaria o apoio improvisado no guard rail.
Para ele, a imagem que permanece é justamente aquela estrutura acima do caminhão e uma oração repetida enquanto aguardava o resgate. O mesmo acidente que lhe deixou ferimentos leves terminou de forma irreversível para outras duas pessoas. Rosângela e Douglas não conseguiram escapar depois que parte da passarela caiu sobre o automóvel em que estavam.
Fabiano sobreviveu. E, ao recordar os minutos em que ficou preso, resume a experiência não pela frenagem, pelo impacto ou pelas ferragens, mas pela fé que encontrou quando acreditou que poderia morrer: “Só rezava para Deus segurar aquela pilastra.”


