Quarta-feira, Agosto 19, 2026
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“JEAN GREY” NA MIRA: ESTAGIÁRIA DE DIREITO É PRESA SUSPEITA DE LEVAR ORDENS DO PCC DA CADEIA PARA AS RUAS DE TAUBATÉ


Uma estagiária de Direito apontada pela Polícia Civil como uma das peças de comunicação de uma organização criminosa investigada em Taubaté está entre os dez presos da Operação X-Men. C.C.B.A.C., identificada pelos investigadores pelo codinome “Jean Grey”, é suspeita de recolher cartas produzidas por integrantes que estavam no sistema prisional e retransmitir para comparsas em liberdade as ordens enviadas pelas lideranças. A investigação relaciona o grupo ao PCC, ao tráfico de drogas e a uma sequência de homicídios ocorridos durante a disputa pelo domínio de pontos de venda de entorpecentes no município.

A prisão ocorreu na segunda-feira, 17 de agosto, durante uma grande ofensiva da Delegacia Especializada de Investigações Criminais, a DEIC de Taubaté. A Justiça expediu 17 mandados de prisão preventiva contra integrantes investigados pela organização. Dez pessoas foram localizadas e presas e, até a manhã desta quarta-feira, 19 de agosto, as informações públicas consultadas continuavam indicando sete investigados foragidos. As ordens foram expedidas pela 3ª Vara de Organizações Criminosas e Lavagem de Dinheiro.

O papel atribuído à estagiária é um dos novos detalhes que mais chamaram atenção após a deflagração da operação. Segundo a investigação divulgada pela Polícia Civil, integrantes presos continuavam interferindo nas atividades do grupo por meio de cartas. C.C.B.A.C., que teria recebido dentro da organização o nome de “Jean Grey”, seria responsável justamente por participar dessa ponte entre o sistema prisional e as ruas, recolhendo as correspondências e repassando determinações das lideranças para integrantes que permaneciam em liberdade. A extensão dessa atuação e sua eventual participação em crimes específicos ainda são objeto de investigação.

A escolha do apelido não teria sido casual. O nome da Operação X-Men surgiu porque, segundo a DEIC, integrantes passaram a utilizar codinomes inspirados nos personagens da conhecida franquia para dificultar a identificação durante as comunicações. “Jean Grey” seria o codinome atribuído à estagiária. Outros investigados também teriam utilizado nomes fictícios dentro da estrutura, uma estratégia que passou a ser decifrada pelos policiais com o avanço das apurações.

A investigação que levou às prisões não começou agora. O trabalho da Polícia Civil remonta a 2021, quando Taubaté enfrentou uma forte escalada de homicídios. Segundo a DEIC, o município passou de aproximadamente 21 assassinatos consumados para 42 naquele ano. Os investigadores relacionaram parte desse crescimento a uma disputa entre grupos rivais que buscavam controlar o tráfico de drogas e armas na cidade e em pontos do Vale do Paraíba.

Com o aprofundamento das apurações e prisões realizadas ao longo dos anos, a polícia afirma ter reconstruído parte da estrutura utilizada pelo grupo. O líder apontado pela investigação e seu braço direito já haviam sido presos anteriormente. Mesmo com integrantes importantes atrás das grades, porém, a organização teria encontrado maneiras de continuar transmitindo determinações para quem permanecia em liberdade. É nesse ponto que aparecem as cartas que, segundo os investigadores, atravessavam as barreiras entre a prisão e as ruas e permitiam que ordens continuassem circulando.

A Operação X-Men também revelou uma estrutura considerada sofisticada para o planejamento de ataques contra adversários. Um dos homens presos é apontado como responsável pela logística de homicídios. Ele teria pesquisado possíveis vítimas nas redes sociais, identificado os lugares frequentados pelos alvos e realizado filmagens de endereços antes dos crimes. As informações eram reunidas no que os investigadores chamaram de “dossiê do crime”, posteriormente repassado aos responsáveis pelas execuções.

O mesmo investigado seria responsável por preparar veículos usados nas ações. Segundo a Polícia Civil, carros roubados eram adulterados e transformados nos chamados veículos “dublê”, passando a ostentar características ou identificações de outros automóveis para dificultar o rastreamento. Esses carros seriam utilizados durante os homicídios e posteriormente abandonados. A investigação aponta ainda que integrantes realizavam roubos com o objetivo de obter recursos para a compra de armas destinadas à organização.

A operação ganhou repercussão nacional depois que fontes policiais passaram a relacionar o grupo a mais de 40 homicídios investigados desde 2021. Esse número, porém, deve ser tratado como parte da investigação policial e não significa que todos os dez presos sejam individualmente acusados ou responsáveis por todos esses assassinatos. O trabalho da DEIC busca estabelecer a função de cada investigado, quais crimes podem ser atribuídos a cada um e de que maneira as diferentes peças da organização se relacionavam.

No caso de C.C.B.A.C., a acusação divulgada até agora está principalmente relacionada à comunicação da organização. A polícia sustenta que a estagiária de Direito teria recolhido mensagens vindas de dentro dos presídios e retransmitido orientações das lideranças. A condição de estagiária chamou atenção justamente porque sua formação jurídica contrastaria com a função criminosa que lhe é atribuída pelos investigadores. Apesar da prisão preventiva, ela é investigada e ainda não há condenação, sendo assegurado o direito de defesa durante o processo.

A investigação também aponta ligação da organização com o Primeiro Comando da Capital, o PCC. A referência à facção é atribuída às informações reunidas pela Polícia Civil e divulgadas por veículos que tiveram acesso aos detalhes da operação. É importante destacar que a eventual vinculação individual de cada preso à facção deverá ser demonstrada no decorrer das investigações e do processo judicial.

A ação contou com apoio do 1º e do 4º Distritos Policiais de Taubaté e da Guarda Civil Municipal. Para a Polícia Civil, a prisão dos dez investigados representa o encerramento de uma etapa extensa da apuração iniciada após a escalada de violência de 2021, mas as diligências continuam. Além da localização dos sete procurados, os investigadores ainda buscam esclarecer completamente o fluxo das ordens, identificar outros possíveis participantes e estabelecer quais homicídios e demais crimes estão ligados à estrutura investigada.

A figura de “Jean Grey”, portanto, tornou-se um dos pontos centrais da nova fase do caso. Fora da ficção que inspirou os codinomes utilizados pelo grupo, a Polícia Civil agora tenta demonstrar como funcionava, na prática, a comunicação entre as lideranças presas e os integrantes que permaneciam nas ruas. As cartas recolhidas durante a investigação e outros elementos obtidos pela DEIC poderão ser fundamentais para determinar até onde ia a participação da estagiária e quais ordens efetivamente teriam sido transmitidas.

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