DO MATO ÀS RUAS: LOBO GUARÁ, JAVALI, ONÇA PARDA E OUTROS ANIMAIS SURPREENDEM MORADORES NAS CIDADES DO VALE
Um lobo guará encontrado dentro de uma universidade em Lorena. Outro exemplar caminhando entre os prédios de um condomínio em Taubaté. Um javali aparecendo nas proximidades do CEAN, Centro de Apoio ao Animal, em Cruzeiro. Uma onça parda registrada durante a noite por uma câmera instalada em uma área de mata de Tremembé. Em diferentes pontos do Vale do Paraíba e do Vale Histórico, encontros entre moradores e animais selvagens vêm produzindo imagens impressionantes e mostrando que a fauna está muito mais próxima das áreas ocupadas do que grande parte da população imagina.
Um dos episódios mais recentes aconteceu na manhã de sexta-feira, dia 7 de agosto, em Lorena. Um lobo guará foi encontrado dentro do campus do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, o UNISAL, na Rua Dom Bosco. O Corpo de Bombeiros foi acionado por volta das 7h15 e realizou o manejo do animal, que posteriormente ficou sob responsabilidade da Polícia Ambiental para avaliação e definição de sua destinação. Não houve registro de pessoas feridas.
A aparição chamou atenção principalmente pelo local. O animal estava dentro de uma área universitária inserida no perímetro urbano, transformando uma manhã comum em uma ocorrência envolvendo uma das espécies mais conhecidas da fauna brasileira.
O caso de Lorena, porém, está longe de ser isolado.
Poucas semanas antes, na noite de quinta-feira, dia 23 de julho, outro lobo guará havia sido filmado caminhando pela área comum de um condomínio na região do Barreiro, em Taubaté. O animal apareceu entre os prédios e foi observado pelos moradores enquanto procurava uma saída. Guarda Civil Municipal e Defesa Civil chegaram a ser mobilizadas.
As imagens mostraram o lobo aparentemente tentando se afastar da movimentação humana. Não houve registro de ataque ou pessoas feridas.
Guaratinguetá também já recebeu uma visita inesperada da espécie. Em novembro de 2024, um lobo guará entrou na varanda de uma residência localizada na Estrada Paulo Virgínio, no bairro Engenho D’Água. Quando a Polícia Militar Ambiental chegou ao imóvel, encontrou o animal debilitado e deitado próximo a uma rede. O lobo foi capturado com técnicas de manejo e encaminhado para atendimento especializado.
Outro episódio ocorreu em São José dos Campos, onde um lobo guará precisou ser resgatado dentro da área do aeroporto em julho de 2024. A ocorrência mostrou como o deslocamento desses animais pode alcançar regiões cercadas, próximas a avenidas, bairros e grandes estruturas urbanas.
Em Cruzeiro, outro animal chamou atenção dos moradores, mas por uma razão ambiental bastante diferente.
Um javali foi registrado nas proximidades do CEAN, Centro de Apoio ao Animal, no fim de julho. A presença do animal surpreendeu principalmente pelo porte e pela proximidade com uma área frequentada por pessoas.
Embora seja frequentemente colocado no mesmo grupo dos animais silvestres vistos na região, o javali possui uma característica importante: ele não é uma espécie nativa da fauna brasileira.
O javali europeu, da espécie Sus scrofa, é considerado uma espécie exótica invasora no Brasil. Sua expansão pelo território nacional preocupa autoridades ambientais e produtores rurais por causa dos impactos causados à vegetação, lavouras, animais nativos e propriedades agrícolas.
O animal pode percorrer grandes áreas em busca de alimento e, quando acuado, exige cuidado. A recomendação é manter distância e nunca tentar realizar uma captura por conta própria.
A presença de grandes felinos também já foi documentada no Vale.
Em uma área rural de Tremembé, uma câmera automática instalada na mata registrou uma onça parda caminhando durante a noite. O flagrante aconteceu neste ano e mostrou o animal atravessando silenciosamente uma região de vegetação.
O equipamento faz parte de um trabalho independente de monitoramento da fauna realizado em fragmentos de mata entre Tremembé e Pindamonhangaba.
E a onça parda não foi a única surpresa encontrada pelas câmeras.
Registros feitos nessas áreas já revelaram a presença de jaguatirica, gato maracajá, gato do mato, gato mourisco, tamanduá mirim e veado catingueiro, demonstrando a diversidade de mamíferos que ainda utiliza os fragmentos de vegetação existentes no Vale.
Muitos desses animais passam praticamente despercebidos pela população porque possuem hábitos noturnos, evitam áreas movimentadas e se deslocam por trechos de mata, propriedades rurais e corredores de vegetação.
À medida que câmeras de segurança residenciais, equipamentos de monitoramento e celulares se tornam mais comuns, registros que antes poderiam passar sem qualquer documentação acabam chegando rapidamente às redes sociais.
Os encontros não se limitam aos mamíferos.
Em dezembro de 2024, o Corpo de Bombeiros foi mobilizado em Monteiro Lobato após um jacaré ser encontrado em um lago dentro de uma propriedade rural. O réptil tinha aproximadamente 1,5 metro de comprimento e cerca de 40 quilos.
A diversidade dos episódios ajuda a mostrar uma característica importante da região.
O Vale do Paraíba está situado entre grandes áreas naturais, com a Serra da Mantiqueira de um lado e a Serra do Mar do outro, além de rios, áreas rurais, matas e fragmentos de vegetação distribuídos entre os municípios. Esses ambientes continuam sendo utilizados por diferentes espécies para alimentação, reprodução e deslocamento.
Por isso, um animal visto dentro de um bairro nem sempre significa que ele passou a viver permanentemente naquele espaço.
Lobos guarás, por exemplo, são capazes de percorrer extensas áreas. Durante esses deslocamentos podem atravessar estradas, propriedades rurais, terrenos e regiões próximas a bairros.
Esse contato, entretanto, cria riscos tanto para os animais quanto para as pessoas.
Rodovias representam uma das principais ameaças. Ao atravessar pistas para alcançar outro fragmento de vegetação, animais de diferentes espécies ficam expostos a atropelamentos. Para os motoristas, o surgimento inesperado de um animal de grande porte também pode provocar acidentes graves.
A presença em áreas urbanizadas ainda pode levar os animais a ficarem acuados em quintais, condomínios, galpões e outros espaços sem uma rota fácil de saída.
Nesses casos, a reação da população pode fazer diferença.
A recomendação dos órgãos ambientais é não perseguir, encurralar, alimentar, tocar ou tentar capturar o animal.
Quando não existe risco imediato, o ideal é manter distância, afastar pessoas e animais domésticos e permitir que o animal encontre uma rota segura para deixar o local.
Caso esteja ferido, preso, acuado ou represente risco, devem ser acionados órgãos preparados para realizar o manejo, como Corpo de Bombeiros e Polícia Militar Ambiental.
Também é importante evitar a aproximação apenas para conseguir fotografias ou vídeos. Um animal silvestre acuado pode apresentar comportamento defensivo mesmo que normalmente evite o contato com seres humanos.
A alimentação também deve ser evitada. Deixar comida disponível pode fazer com que determinados animais associem áreas residenciais à obtenção de alimento e retornem ao mesmo ponto.
No caso do javali, a situação é ainda mais específica porque se trata de uma espécie exótica invasora submetida a regras próprias de manejo e controle ambiental.
O Vale possui estruturas destinadas ao recebimento e à recuperação de animais silvestres. Entre elas está o Centro de Triagem de Animais Silvestres localizado na Floresta Nacional de Lorena. São José dos Campos também possui estrutura de reabilitação de fauna ligada à Univap, utilizada para o atendimento de animais encaminhados pelos órgãos responsáveis.
Os flagrantes recentes formam um verdadeiro mapa da fauna regional. Lorena e Taubaté tiveram lobos guarás em áreas ocupadas. Cruzeiro registrou um javali próximo ao Centro de Apoio ao Animal. Tremembé teve uma onça parda registrada por câmera. Guaratinguetá e São José dos Campos também já receberam lobos guarás em locais inesperados, enquanto Monteiro Lobato teve até uma ocorrência envolvendo um jacaré.
São animais diferentes, em circunstâncias diferentes, e nem todos representam a mesma situação ambiental. O javali é uma espécie invasora, enquanto lobo guará, onça parda, jaguatirica, tamanduá e outros animais fazem parte da fauna nativa brasileira.
Os registros, entretanto, possuem algo em comum: mostram que entre ruas, bairros, universidades, condomínios, estradas e propriedades rurais existe uma fauna que continua circulando pelo Vale e que, de tempos em tempos, acaba cruzando o caminho dos moradores.


