“MÚSICA DE PRETO”: MOTORISTA INTERROMPE CORRIDA E EXPULSA PASSAGEIROS APÓS FALAS RACISTAS EM TAUBATÉ
Uma corrida solicitada por aplicativo terminou antes do destino após um motorista decidir retirar dois passageiros de seu veículo diante de comentários de teor racista sobre a música “Negro Drama”, dos Racionais MC’s. O episódio aconteceu na madrugada de quinta feira, dia 4 de junho, na região da Estiva, em Taubaté, mas ganhou grande repercussão somente nas últimas semanas, depois que as imagens foram publicadas nas redes sociais.
O vídeo foi divulgado pelo próprio motorista, influenciador digital conhecido como Pirata Driver, que costuma registrar parte de sua rotina profissional. Nas imagens, um dos passageiros aparece reclamando da música que tocava no veículo e utiliza repetidamente a expressão “música de preto” de maneira depreciativa.
Segundo o relato do condutor, a viagem começou como qualquer outra corrida realizada durante a madrugada. Antes de buscar os dois homens, ele já havia transportado outros passageiros e permitido que escolhessem as músicas reproduzidas no carro, prática que mantém para deixar os clientes mais confortáveis durante os trajetos.
Quando os passageiros embarcaram, “Negro Drama” já fazia parte da sequência musical reproduzida no veículo. A canção foi lançada pelos Racionais MC’s no álbum “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, de 2002, e se tornou uma das obras mais conhecidas do rap nacional por abordar racismo, desigualdade, violência, pobreza, exclusão social e a realidade vivida pela população negra e periférica.
Antes do início do deslocamento, o motorista percebeu que os dois passageiros estavam com latas de bebida alcoólica. Ele informou que não permitia o consumo dentro do carro. Os homens teriam pedido desculpas, afirmado que não beberiam durante a viagem e entrado normalmente no veículo.
Poucos instantes depois, um dos passageiros começou a reclamar da música. A gravação mostra o homem questionando se estava tocando “música de preto” e, posteriormente, classificando a canção como horrível. A mesma expressão foi repetida diversas vezes durante o curto percurso.
Inicialmente, o motorista reduziu o volume do som e observou pelo retrovisor para confirmar o que estava sendo dito. Conforme explicou depois da repercussão, ele chegou a acreditar que pudesse ter entendido de maneira equivocada, mas decidiu agir quando o passageiro repetiu os comentários.
O motorista interrompeu o trajeto e pediu que os dois homens deixassem o veículo. Ele afirmou que o passageiro estava sendo desrespeitoso e questionou a utilização da expressão para diminuir a música e tudo o que ela representa.
Um dos passageiros tentou amenizar a situação, pediu desculpas e solicitou que a viagem continuasse. O condutor respondeu que a corrida já estava cancelada e manteve a decisão de não transportar os homens até o destino solicitado.
Durante a discussão, um dos passageiros afirmou que estava apenas brincando. O motorista rebateu dizendo que não havia percebido qualquer tom de brincadeira nas declarações. Em outro momento, o homem alegou que também era negro, mas o argumento não fez o condutor mudar de posição.
Após determinar o encerramento da viagem, o motorista orientou os passageiros a saírem do carro. A gravação termina com os homens deixando o veículo e a corrida sendo definitivamente cancelada na região da Estiva.
Embora o episódio tenha ocorrido no início de junho, Pirata Driver decidiu publicar o vídeo somente após refletir sobre a situação. Segundo ele, a escolha de interromper a viagem não esteve relacionada ao estilo musical preferido pelos passageiros, mas à maneira depreciativa como a expressão foi utilizada.
O condutor explicou que permite aos clientes escolherem diferentes gêneros musicais durante as viagens. Sertanejo, pagode, rap ou qualquer outro estilo pode ser reproduzido, desde que a escolha não venha acompanhada de comentários ofensivos ou discriminatórios.
Ao explicar por que se sentiu atingido, o motorista afirmou possuir ascendência negra. Segundo seu relato, sua mãe é negra e seu avô também era negro. Apesar de ser registrado oficialmente como branco, ele contou que herdou características da família e enfrentou preconceito durante a adolescência por causa dos cabelos crespos.
O motorista destacou que a expressão utilizada pelo passageiro não atingia apenas quem estava no veículo, mas também as pessoas negras e periféricas representadas pela música. Para ele, aceitar o comentário em silêncio significaria tratar uma manifestação ofensiva como algo normal.
Depois de ser publicado, o vídeo alcançou milhares de visualizações e provocou uma onda de manifestações de apoio ao condutor. Internautas elogiaram a decisão de interromper a corrida e afirmaram que comentários discriminatórios não devem ser tratados como humor ou simples brincadeira.
Parte das mensagens destacou a importância de atitudes antirracistas em situações cotidianas. Outros usuários afirmaram que a postura do motorista demonstrou que prestadores de serviço também podem estabelecer limites diante de comportamentos considerados ofensivos dentro de seus veículos.
A música envolvida no episódio ocupa um espaço importante na cultura brasileira. “Negro Drama” apresenta a perspectiva de quem enfrenta o racismo, a desigualdade social e a falta de oportunidades, além de abordar as marcas históricas deixadas pela escravidão e pela marginalização da população negra.
A importância da canção também passou a ser estudada no ambiente acadêmico. Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo analisou o conceito de “Negro Drama” como uma forma de compreender experiências históricas da população negra no Brasil.
O estudo relaciona a narrativa construída pelos Racionais MC’s com obras de autores como Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus, que também registraram experiências marcadas pela pobreza, pelo preconceito e pela exclusão. A pesquisa destaca como diferentes gerações utilizaram a literatura e a música para narrar realidades frequentemente ignoradas.
A legislação brasileira prevê punições para manifestações discriminatórias motivadas por raça, cor, etnia ou origem. Desde a Lei nº 14.532, de 2023, a injúria racial passou a ser tratada como crime de racismo, com pena prevista de dois a cinco anos de reclusão, além de multa.
A definição sobre eventual crime e o enquadramento de uma conduta dependem, entretanto, da análise do contexto pelas autoridades policiais, pelo Ministério Público e pela Justiça. Até as informações divulgadas, não havia confirmação de boletim de ocorrência, identificação pública dos passageiros ou abertura de investigação policial relacionada ao episódio.

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