UMA MULHER MORTA A CADA 15 DIAS: FEMINICÍDIOS DISPARAM 180% NO VALE E EXPÕEM RASTRO DE DOR NA REGIÃO
O Vale do Paraíba e o Litoral Norte carregam uma estatística que não cabe apenas em números. Por trás de cada registro de feminicídio há um nome, uma história interrompida e uma família marcada pela dor. Thalita de Arantes Lima, Vivian Salvador, Josima Rodrigues da Silva, Cássia Kerolin de Souza Elias, Ana Luiza Fonseca dos Santos, Monique Helena Gabriel Teodoro, Giovana Silva de Oliveira e Mariana da Costa Nascimento estão entre as mulheres que passaram a simbolizar uma tragédia que se repete na região: mulheres assassinadas em contextos de violência de gênero, muitas vezes por companheiros ou ex-companheiros que não aceitavam o fim do relacionamento, a liberdade ou a autonomia da vítima.
Dados da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo mostram que os feminicídios cresceram 180% na Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte nos últimos quatro anos, em comparação com o período anterior. Os casos passaram de 32 para 90, um avanço que revela uma escalada alarmante da violência contra mulheres. Desde abril de 2015, quando o indicador passou a ser contabilizado oficialmente pela SSP, a região acumula 137 feminicídios.
O crescimento se torna ainda mais grave quando comparado ao primeiro período da série. Entre 2015 e 2018, foram registrados 15 feminicídios na região. Entre 2019 e 2022, o número subiu para 32. Já entre 2023 e 2026, até abril, o total chegou a 90. Na comparação com o período de 2015 a 2018, o aumento é de 500%, um dado que transforma o alerta em urgência.
O ano mais mortal até agora foi 2023, com 41 feminicídios registrados no Vale do Paraíba e Litoral Norte. Em seguida aparece 2025, com 30 casos. Em 2026, até 21 de abril, a SSP já contabilizava 14 mortes de mulheres em casos de feminicídio na região. Isso significa que, nos últimos quatro anos, uma mulher foi morta em caso de feminicídio a cada 15 dias. A média de 2026 também preocupa: 3,5 ocorrências por mês, índice superior ao de 2023, que teve média de 3,4 casos mensais.
O feminicídio passou a ser registrado oficialmente no Brasil em 2015, com a sanção da Lei nº 13.104, conhecida como Lei do Feminicídio. A legislação alterou o Código Penal para incluir o assassinato de mulheres por razões de violência doméstica, familiar ou discriminação de gênero como qualificadora do crime de homicídio. Desde então, os dados ajudam a revelar uma violência que, durante décadas, muitas vezes foi tratada como crime comum, briga de casal ou tragédia isolada.
Mas os casos mostram que não se trata de episódios isolados. Em São José dos Campos, Thalita de Arantes Lima, de 41 anos, motorista de ônibus, foi encontrada morta dentro de casa na noite de 4 de maio. Ela apresentava 13 lesões por arma branca. O ex-companheiro, Wesley Sousa Ribeiro, de 31 anos, foi preso, teve a prisão preventiva decretada pela Justiça e se tornou réu por feminicídio.
Em Ilhabela, Vivian Salvador, moradora do bairro Itaquanduba, morreu no dia 9 de junho. O caso é tratado como suspeita de feminicídio e teria relação com uma ocorrência anterior de violência doméstica registrada pela Polícia Militar em abril, quando um homem de 31 anos foi preso após a vítima relatar agressões praticadas pelo companheiro.
Em Lorena, Josima Rodrigues da Silva, de 34 anos, foi morta a facadas na noite de 19 de abril, no bairro Vila Hepacaré. Ela possuía medida protetiva contra o ex-companheiro, que foi preso pelo crime. Josima foi atingida por diversos golpes de faca em plena via pública, na porta de casa, e morreu ainda no local. O atual namorado dela também foi ferido durante o ataque.
Em Caraguatatuba, Cássia Kerolin de Souza Elias, de 27 anos, foi morta em fevereiro. O namorado, André Luiz Apolinário, foi preso e se tornou réu após a Justiça aceitar a denúncia contra ele por feminicídio qualificado e ocultação de cadáver. O corpo de Cássia foi encontrado enterrado dentro de um barraco de madeira.
Em Paraibuna, Ana Luiza Fonseca dos Santos, de 58 anos, foi morta em 16 de fevereiro. Ela foi encontrada dentro de casa, atingida por ao menos nove facadas. O companheiro, João Lenon Alves dos Santos, de 34 anos, foi preso e confessou o crime. Segundo a Polícia Civil, ele estava foragido e foi localizado após uma investigação que somou mais de 2 mil quilômetros percorridos pelas equipes.
Em Taubaté, Monique Helena Gabriel Teodoro, de 36 anos, foi morta a golpes de faca dentro de um hotel em 4 de janeiro. Sthephan Johansson Marciano, de 40 anos, foi detido como principal suspeito e deverá ser julgado pelo Tribunal do Júri. Em depoimento à polícia, ele afirmou ter cometido o crime por ciúmes, após suspeitar de uma possível traição.
Em Jacareí, Giovana Silva de Oliveira, de 18 anos, foi estrangulada e morta em julho de 2025. O corpo foi encontrado em uma área de mata às margens do Rio Paraíba. Gabriel da Silva Campos, de 22 anos, se entregou à polícia e confessou ter matado a ex-companheira com um golpe conhecido como mata-leão. Segundo as informações do caso, ele ainda tentou simular um sequestro, retirou parte das roupas da vítima e arrastou o corpo por cerca de 30 metros para dentro da mata.
Em Taubaté, Mariana da Costa Nascimento, de 28 anos, foi encontrada morta em junho do ano passado, três dias após desaparecer. O corpo estava enterrado em uma cacimba, em uma propriedade rural onde o ex-namorado trabalhava como caseiro. Junto ao corpo foram encontrados objetos pessoais da vítima, como um par de botas e o celular. O suspeito foi preso em flagrante por ocultação de cadáver e, segundo a polícia, acabou indicando o local onde havia enterrado Mariana.
A sequência de casos revela um padrão que se repete com crueldade: mulheres atacadas dentro de casa, em vias públicas, em hotéis, áreas rurais e locais onde deveriam estar seguras. Em muitos episódios, havia histórico de relacionamento, ciúmes, término não aceito, medida protetiva ou violência anterior. O que une essas histórias é a tentativa de controle sobre a vida da mulher e a brutalidade usada quando ela decide seguir em frente, se proteger ou simplesmente existir com liberdade.
Os números da SSP reforçam que o feminicídio é um problema persistente e crescente na região. A cada novo caso, o debate sobre prevenção, medidas protetivas, atendimento às vítimas, denúncia rápida e responsabilização dos agressores volta ao centro da discussão. Ainda assim, as mortes continuam acontecendo.
Especialistas em segurança e proteção às mulheres apontam que o risco costuma aumentar quando há ameaças, perseguição, agressões anteriores, descumprimento de medidas protetivas, ciúmes possessivo, controle de celular, isolamento da vítima e tentativa de impedir o fim do relacionamento. Esses sinais precisam ser tratados como alerta máximo por familiares, vizinhos, amigos e autoridades.
Mulheres em situação de violência podem acionar a Polícia Militar pelo 190 em caso de emergência. Também é possível procurar a Delegacia de Defesa da Mulher, solicitar medidas protetivas e buscar orientação pelo Ligue 180. Denunciar pode salvar vidas, especialmente quando a violência ainda está no estágio das ameaças, perseguições e agressões iniciais.
O Vale do Paraíba e o Litoral Norte vivem um momento que exige mais do que indignação. Os dados mostram uma escalada de feminicídios, e as histórias das vítimas mostram o tamanho da perda humana por trás das estatísticas. Thalita, Vivian, Josima, Cássia, Ana Luiza, Monique, Giovana e Mariana não são apenas nomes em uma lista. São mulheres que tiveram suas vidas arrancadas pela violência e que agora ajudam a revelar a urgência de proteger outras mulheres antes que novas histórias terminem da mesma forma.

Vítimas de feminicídio na região

