MAIO SANGRENTO COMPLETA 20 ANOS E RELEMBRA A NOITE EM QUE O PCC LEVOU O MEDO ÀS RUAS DO VALE DO PARAÍBA
Há 20 anos, São Paulo e o Vale do Paraíba viveram dias que entraram para a história como uma das maiores crises de segurança pública do país. Em maio de 2006, o medo deixou de ser notícia distante e passou a bater à porta da população. Presídios em rebelião, ônibus incendiados, delegacias atacadas, tiros contra prédios públicos, policiais executados e cidades inteiras paralisadas formaram o retrato de uma semana marcada pelo terror. A ofensiva foi atribuída ao PCC, o Primeiro Comando da Capital, facção criminosa criada em 1993 na Casa de Custódia de Taubaté e que, naquele momento, decidiu enfrentar o Estado em uma ação coordenada e sem precedentes.
A crise teve início após a transferência de lideranças da facção para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. A reação veio de dentro do sistema prisional, por meio do chamado “salve geral”, uma ordem criminosa enviada a partir das cadeias com o uso de celulares clandestinos. Na noite de 12 de maio de 2006, véspera do Dia das Mães, o Estado de São Paulo começou a mergulhar em uma sequência de ataques que espalhou pânico nas ruas e revelou a força de uma organização criminosa que já ultrapassava os muros dos presídios.
Em poucas horas, 74 presídios paulistas entraram em rebelião simultânea, incluindo unidades do Vale do Paraíba, como São José dos Campos, Taubaté, Potim e Tremembé. Ao mesmo tempo, criminosos passaram a atacar bases da Polícia Militar, delegacias, fóruns, viaturas e agentes de segurança. A capital paulista praticamente parou. O comércio fechou as portas mais cedo, escolas suspenderam aulas, ônibus foram queimados e milhares de pessoas tentaram voltar para casa em meio ao medo, à desinformação e ao som constante das sirenes.
No Vale do Paraíba, a tensão também tomou conta das cidades. Taubaté, berço histórico do PCC, foi um dos pontos de atenção das forças de segurança. No centro da cidade, uma agência da Caixa Econômica Federal foi alvo de ao menos 22 tiros, que atingiram portas de vidro, caixas eletrônicos e paredes do prédio. O ataque reforçou o clima de insegurança em uma região que abriga importantes unidades prisionais e que, naquele maio, passou a viver sob alerta permanente.
Em Pindamonhangaba, a Delegacia de Defesa da Mulher foi atacada com um coquetel molotov. O fogo destruiu computadores, móveis e parte da estrutura da unidade policial. Na mesma cidade, uma bomba foi lançada contra o fórum local, mas não explodiu. São José dos Campos, Jacareí e Caçapava registraram incêndios de ônibus, repetindo a estratégia usada pela facção para espalhar caos urbano e provocar sensação de vulnerabilidade coletiva. Em Ubatuba, o acesso à delegacia chegou a ser interditado preventivamente durante os dias de maior tensão.
As imagens daquele período ficaram marcadas na memória de quem viveu maio de 2006. Ruas vazias, ônibus queimados, viaturas circulando em alerta, famílias trancadas dentro de casa e trabalhadores sem saber se conseguiriam voltar em segurança. Segundo o material original, os confrontos deixaram 564 mortos e 110 feridos. Entre as vítimas estavam 59 agentes públicos, sendo 40 assassinados nas primeiras 48 horas da ofensiva criminosa.
Mas a resposta do Estado também deixou marcas profundas. Enquanto os ataques se multiplicavam, forças policiais desencadearam operações em várias regiões paulistas. Entidades de direitos humanos passaram a denunciar que parte significativa das mortes de civis teria ocorrido em execuções sumárias. Relatórios citados no levantamento apontaram que mais de 60% das vítimas civis foram atingidas na cabeça, na nuca ou nas costas. Dos 505 civis mortos, 94% não tinham antecedentes criminais. Duas décadas depois, muitos desses casos ainda seguem sem solução definitiva na Justiça.
Foi nesse cenário de dor que surgiu o movimento Mães de Maio, formado por familiares de vítimas que transformaram o luto em luta por memória, investigação e responsabilização. Para essas famílias, os ataques de 2006 não terminaram quando os ônibus deixaram de queimar e as rebeliões foram controladas. A ferida permaneceu aberta, atravessando os anos como símbolo de uma tragédia que ainda cobra respostas.
Vinte anos depois, o PCC também não é mais o mesmo. A facção que em 2006 apostou no confronto direto com o Estado passou a atuar de forma mais silenciosa, sofisticada e lucrativa. O grupo deixou de depender apenas da demonstração pública de força e passou a operar com estrutura semelhante à de uma organização empresarial do crime, com atuação no tráfico internacional de drogas, lavagem de dinheiro, logística criminosa, mercado clandestino e infiltração financeira.
Os números mostram essa transformação. Em 2013, investigações apontavam que o PCC tinha cerca de 7,6 mil integrantes, faturava R$ 120 milhões por ano e atuava em 22 estados brasileiros. Duas décadas após os ataques, estimativas do Ministério Público indicam que a facção movimenta cerca de R$ 10 bilhões por ano, reúne aproximadamente 40 mil integrantes, está presente em todos os estados do Brasil e atua em 28 países. A facção que nasceu dentro de uma unidade prisional de Taubaté se tornou uma estrutura criminosa de alcance internacional.
Para investigadores, a mudança de estratégia não aconteceu por acaso. O confronto aberto contra o Estado gerava repressão intensa e prejuízos financeiros. A partir dessa percepção, o crime organizado passou a buscar expansão econômica, controle territorial e influência institucional. O medo deixou de aparecer apenas em ataques visíveis, como ônibus incendiados e tiros contra delegacias, e passou a circular de forma mais silenciosa, por meio de redes financeiras, rotas internacionais e estruturas clandestinas de poder.
O crescimento da facção também passou a preocupar autoridades fora do Brasil. Nos últimos anos, o PCC entrou no centro de discussões internacionais, inclusive com debates nos Estados Unidos sobre uma possível classificação do grupo como organização terrorista. Especialistas brasileiros, no entanto, apontam diferenças entre a facção e grupos extremistas ideológicos, embora reconheçam que o alcance internacional da organização impressiona e desafia investigadores.
Duas décadas depois, maio de 2006 continua sendo lembrado como um divisor de águas na segurança pública brasileira. No Vale do Paraíba, a lembrança daqueles dias ainda carrega o peso das ruas vazias, das sirenes, dos ataques e do medo. O PCC mudou, cresceu e se sofisticou. O Estado também mudou suas formas de enfrentamento. Mas a memória daquele mês permanece como alerta de que o crime organizado, quando ignorado, cresce no silêncio até mostrar sua força da maneira mais brutal.

Foto: Ferdinando Ramos
