“ACHEI QUE IA MORRER”: SOBREVIVENTE DA EXPLOSÃO NA DUTRA REVIVE PESADELO E DIZ NÃO CONSEGUIR DORMIR APÓS TRAGÉDIA
A explosão da carreta carregada com gás na Via Dutra, em Barra Mansa, não deixou apenas mortos, feridos e veículos destruídos. Para quem sobreviveu, o trauma permanece vivo e continua sendo enfrentado diariamente. Dias após escapar da tragédia que transformou a rodovia em um cenário de fogo, fumaça e desespero, Fabrício Vieira, de 50 anos, relata que ainda não consegue dormir e revive constantemente os momentos que antecederam a explosão. Segundo ele, o impacto psicológico tem sido tão forte quanto os ferimentos físicos, tornando difícil retomar a rotina e afastar da memória as imagens que presenciou.
“Não consigo parar de pensar nas pessoas morrendo”, afirmou Fabrício, que estava em um dos veículos mais atingidos pela explosão. O produtor rural descreve que, desde o acidente, as noites se tornaram difíceis e silenciosas, marcadas por lembranças constantes do fogo tomando conta da pista e do medo de não conseguir escapar. Ele conta que o pensamento sobre as vítimas e a sensação de impotência diante da tragédia continuam presentes, especialmente quando tenta dormir ou lembrar do momento em que acreditou que não sairia vivo dali.
O acidente aconteceu no domingo, dia 19, quando uma carreta bitrem carregada com Gás Liquefeito de Petróleo tombou na Via Dutra e explodiu, provocando uma enorme bola de fogo que atingiu veículos próximos e espalhou pânico entre motoristas que trafegavam pela rodovia. A sequência de explosões e o incêndio transformaram a pista em um cenário caótico, com carros destruídos, pessoas correndo e uma cortina de fumaça cobrindo parte da região.
Fabrício seguia viagem ao lado do amigo Leandro, retornando do 4º Mundial do Queijo, realizado em São Paulo. O trajeto transcorria normalmente até os segundos que antecederam a tragédia. Segundo ele, tudo aconteceu de forma extremamente rápida e inesperada. O amigo percebeu uma movimentação estranha envolvendo a carreta e conseguiu apenas alertar sobre o tombamento.
“Ele falou ‘tombou’. Foi a última coisa que lembro antes de tudo virar fogo”, relatou. Em seguida, a explosão tomou conta do local. Fabrício lembra que viu uma imensa bola de fogo avançar pela rodovia, acompanhada por calor intenso, fumaça extremamente densa e objetos sendo arremessados pelo impacto. O cenário, segundo ele, parecia impossível de acreditar.
O carro em que os dois estavam foi severamente atingido e ficou completamente destruído. Apesar da gravidade, eles conseguiram sair do veículo e correr desesperadamente em direção contrária ao incêndio. Fabrício relata que o calor era tão intenso que parecia impossível respirar. A fumaça dificultava a visão e o ar parecia faltar a cada passo.
“Eu achei que fosse morrer sufocado. A fumaça era muito forte, o calor queimava tudo. Achei que não conseguiria sair dali”, contou. Segundo ele, a corrida pela sobrevivência aconteceu em meio ao caos, enquanto veículos pegavam fogo e outras pessoas tentavam escapar do local.
Depois de percorrerem uma distância considerada segura, Fabrício e o amigo conseguiram parar. Os dois se abraçaram e choraram, ainda tentando entender o que havia acabado de acontecer. A sensação, segundo ele, era de incredulidade por terem sobrevivido a uma explosão daquela proporção.
“A gente chorava porque não acreditava que tinha sobrevivido. Foi como nascer de novo”, relembrou. Moradores próximos à rodovia perceberam a situação e prestaram ajuda imediata, oferecendo água, apoio e acionando equipes do Samu para atendimento das vítimas.
Fabrício sofreu queimaduras na mão e ainda enfrenta limitações físicas, mas afirma que o impacto emocional tem sido muito mais difícil de superar. Ele diz que revive constantemente as cenas da explosão e que ainda tenta entender como conseguiu escapar de um dos pontos mais atingidos pelo fogo.
“Não consigo dormir. Quando fecho os olhos, lembro das pessoas, do fogo, da fumaça. Fico pensando como sobrevivemos se nosso carro foi um dos mais destruídos”, desabafou.
A explosão deixou um rastro de destruição na Via Dutra e mobilizou bombeiros, equipes médicas e forças de segurança. Segundo as autoridades, a carreta seguia no sentido São Paulo quando perdeu o controle, atingiu a mureta central e tombou. Pouco depois, ocorreu a explosão, que atingiu veículos próximos e provocou incêndios de grandes proporções.
Quatro pessoas morreram na tragédia. Entre as vítimas estão o motorista da carreta, Igor Buscariollo, além de Yasmin Emily, Jhonatan Wisley e Brendon Marinato, sargento do Exército. Outras pessoas ficaram feridas e foram encaminhadas para hospitais da região, algumas em estado grave.
As causas do acidente seguem sendo investigadas pela Polícia Civil e pela Polícia Rodoviária Federal. Enquanto isso, sobreviventes tentam reconstruir a vida após escapar de uma das cenas mais traumáticas já registradas na rodovia.
Para Fabrício, a explosão não terminou no dia do acidente. Ela continua viva nas lembranças, nos silêncios da madrugada e na dificuldade de compreender como conseguiu sobreviver a uma tragédia que matou pessoas diante dos seus olhos.

Carro destruído após explosão — Foto: Fabrício Vieira

