CASO GISELE: mensagens revelam que tenente-coronel agrediu esposa dias antes do tiro fatal
A investigação sobre a morte da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ganhou um novo e perturbador capítulo. A análise do celular do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, revelou que o oficial havia agredido fisicamente a própria esposa dias antes da morte dela, atingida por um tiro na cabeça dentro do apartamento onde o casal morava, na capital paulista.
De acordo com informações reunidas pela investigação, mensagens extraídas do aparelho do militar indicam que ele teria “enfiado a mão” em Gisele, expressão utilizada para descrever agressão física. O episódio teria ocorrido no dia 5 de fevereiro, apenas 13 dias antes da morte da policial, registrada na manhã do dia 18 de fevereiro, quando a soldado foi atingida por um disparo feito com a arma do próprio oficial.
Natural de Taubaté, o tenente-coronel foi preso na manhã desta quarta-feira em um prédio localizado no Jardim Augusta, na região central de São José dos Campos. Ele foi indiciado pelos crimes de feminicídio, violência doméstica e fraude processual. No momento da prisão, populares que estavam nas proximidades chegaram a gritar e chamá-lo de “assassino”.
Segundo o Ministério Público, o conteúdo das mensagens encontradas no celular do investigado revela um histórico de ofensas, humilhações, controle e ameaças de subjugação contra a esposa.
“As mensagens extraídas do celular do investigado revelaram ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação, inclusive episódio de agressão física (‘enfiado a mão’) dias antes dos fatos aqui analisados”, aponta o órgão em trecho do processo.
A decisão que determinou a prisão preventiva do oficial foi assinada pelo juiz Fabrício Alonso Martinez Della Paschoa, da Justiça Militar. O documento destaca que há fortes indícios de que Gisele vinha sofrendo violência física, psicológica e patrimonial antes de morrer.
As investigações indicam que o relacionamento do casal era marcado por conflitos constantes e episódios recorrentes de violência doméstica. Testemunhas ouvidas no processo, colegas de trabalho da soldado, relataram que o comportamento do tenente-coronel também gerava constrangimentos no ambiente profissional da vítima.
Segundo o Tribunal de Justiça Militar, o oficial costumava provocar discussões dentro da seção onde Gisele trabalhava e aparecia frequentemente no local sem função oficial.
“Restou evidenciado o contexto de violência doméstica e familiar que permeava o relacionamento já deteriorado, com episódios escalonados de agressões físicas, humilhações e controle psicológico, inclusive em ambiente de trabalho”, registra um trecho da decisão.
Testemunhas também descreveram o investigado como ciumento, controlador e invasivo, afirmando que ele utilizava sua posição hierárquica para entrar nas seções do batalhão e permanecer observando as atividades da esposa por longos períodos.
“O investigado comparecia ao local de trabalho da soldado e monitorava sua rotina, o que gerava desconforto aos integrantes da equipe”, destaca outro trecho do documento.
Para a Justiça Militar, esse histórico de violência foi determinante para compreender o crime e avaliar o risco caso o oficial permanecesse em liberdade.
Outro ponto considerado fundamental na investigação é o laudo da perícia científica, que indica que o disparo que matou Gisele não é compatível com a hipótese de suicídio, versão inicialmente apresentada.
Segundo os peritos, o tiro teria sido efetuado pelas costas, possivelmente de forma súbita, o que teria impedido qualquer reação da vítima.
“O mosaico probatório afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com a mão esquerda do agressor na mandíbula ou face e a arma na mão direita direcionada à têmpora direita”, aponta trecho da decisão judicial.
A perícia também identificou indícios de que o corpo da vítima foi movimentado após o disparo, além de sinais de manipulação na cena do crime, o que reforça a suspeita de tentativa de simulação de suicídio.
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores é o intervalo entre o horário estimado do disparo, por volta das 7h28, e o momento em que o socorro foi acionado. Para a investigação, esse período pode ter sido utilizado para alterar a cena do crime antes da chegada das equipes de emergência.
Diante do conjunto de provas reunidas até agora, a Justiça Militar considerou que existem indícios suficientes para caracterizar feminicídio e fraude processual, além do risco de o investigado interferir nas investigações ou tentar influenciar testemunhas utilizando sua posição hierárquica.
A decisão também autorizou a apreensão de celulares e a quebra de sigilo de dados eletrônicos do oficial, medidas que podem ajudar a esclarecer de forma definitiva a dinâmica do crime.
O tenente-coronel foi encaminhado ao 8º Distrito Policial, na capital paulista, onde será interrogado. Após os procedimentos, ele ficará à disposição da Justiça no Presídio Militar Romão Gomes.
O Inquérito Policial Militar (IPM) deve ser concluído nos próximos dias, segundo informou a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. O caso segue sob investigação e tramita sob segredo de Justiça.


