Campanha tenta reagir à queda nas vendas do comércio, mas ignora gargalos e gera críticas em Cruzeiro
Lançada com o discurso de união e valorização do comércio local, a campanha “Quem conhece Cruzeiro, compra em Cruzeiro”, promovida pela Associação Comercial de Cruzeiro, não conseguiu mobilizar como esperado e passou a ser alvo de críticas nas redes sociais. A iniciativa surgiu em meio a um cenário delicado, marcado por uma sequência de anúncios de fechamento e migração de lojas do centro para bairros, fato amplamente noticiado nas últimas semanas.
A proposta da campanha convoca empresários a gravarem vídeos curtos exaltando os diferenciais do comércio físico e, ao mesmo tempo, transfere ao consumidor a responsabilidade de “fortalecer” a economia local por meio da escolha de onde comprar. O tom, no entanto, foi recebido com resistência por parte da população, que apontou a ausência de uma autocrítica mais profunda sobre os reais problemas enfrentados pelo setor.
Nos comentários que se multiplicaram nas publicações da campanha, consumidores destacaram preços elevados, aluguéis considerados abusivos na região central, falta de variedade, atendimento deficiente em parte do comércio e a diferença expressiva de valores entre lojas físicas e o comércio online. Para muitos, pedir fidelidade do consumidor sem enfrentar esses entraves soa desconectado da realidade.
Outro ponto recorrente nas críticas é o silêncio da campanha sobre os custos estruturais que pressionam os comerciantes, especialmente os aluguéis centrais, apontados como um dos principais fatores que levam empresários a fechar as portas ou migrar para bairros, onde os custos são menores e o público mais próximo. Esse movimento, inclusive, vem redesenhando o mapa comercial da cidade, com o fortalecimento de corredores comerciais fora do centro tradicional.
Enquanto isso, a campanha acabou sendo lançada em um momento simbólico: justamente quando notícias de despedidas históricas de lojas do centro ganhavam repercussão. Para parte da população, o contraste expôs uma tentativa de reação tardia, sem enfrentar as causas estruturais da crise.
Especialistas e comerciantes ouvidos informalmente avaliam que fortalecer o comércio local exige mais do que apelos emocionais ao consumidor. Passa por diálogo com proprietários de imóveis, políticas de incentivo, revisão de custos, qualificação de atendimento e estratégias para tornar os preços mais competitivos frente ao mercado digital.
O sentimento que emerge é de que o comércio de Cruzeiro precisa, sim, de união — mas também de diagnóstico honesto e ações concretas. Sem isso, campanhas correm o risco de soar como transferência de responsabilidade, quando o desafio é coletivo e estrutural.

