Sábado, Março 7, 2026
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Após onda de feminicídios, Bom Repouso discute lei “Patrícia Vive” para combater violência contra a mulher

Abalada por dois feminicídios registrados em um intervalo de apenas dez dias, a cidade de Bom Repouso, no Sul de Minas Gerais, dá um passo decisivo no enfrentamento à violência contra a mulher. A Câmara Municipal coloca em votação, na noite desta quinta-feira (22), um projeto de lei que institui uma política permanente de conscientização e prevenção, batizada de “Patrícia Vive”, em homenagem a uma das vítimas.

A proposta surge em meio ao luto coletivo provocado pelos assassinatos de Bruna Aline Rodrigues de Souza e Patrícia Cezar Nogueira, casos que chocaram a população de um município com pouco mais de 12,6 mil habitantes e escancararam a urgência de ações concretas para proteger mulheres em situação de risco.

Elaborado pela psicanalista Ludmila Mariano e apresentado pela vereadora Micheli Silva Alcântara Nascimento (PSB), a única mulher entre os nove parlamentares da Casa, o projeto estabelece uma política municipal estruturada em cinco eixos centrais: promover a conscientização da população sobre a violência contra a mulher e o feminicídio; incentivar a denúncia e o rompimento do ciclo de violência; fortalecer a rede de apoio e acolhimento às mulheres em situação de risco; estimular ações integradas de prevenção e enfrentamento à violência doméstica; e preservar a memória de Patrícia como símbolo de luta e defesa da vida das mulheres.

De acordo com Ludmila Mariano, a proposta vai além de campanhas pontuais e busca criar um ambiente em que as mulheres se sintam seguras para denunciar. Segundo ela, o medo, a culpa e o julgamento social ainda são barreiras que silenciam muitas vítimas. “Vivemos em uma sociedade marcada pelo machismo, que frequentemente responsabiliza a mulher pela violência que sofre. Isso faz com que muitas não procurem ajuda, por vergonha ou por se sentirem culpadas”, explicou.

A psicanalista também destacou que a dependência emocional, psicológica e financeira em relação ao agressor é um dos principais fatores que mantêm mulheres presas a relações violentas. “Muitas vezes existe um vínculo afetivo forte, ameaças, chantagens, medo de perder os filhos ou falta de condições financeiras para recomeçar. Não é simples sair dessa situação. A lei ‘Patrícia Vive’ pretende dar voz a essas mulheres e garantir que elas saibam onde e como buscar ajuda”, afirmou.

Os crimes que motivaram a criação do projeto revelam um padrão trágico. O primeiro ocorreu na madrugada do Réveillon, quando Bruna Aline Rodrigues de Souza foi assassinada dentro de uma residência onde cuidava de crianças, incluindo dois filhos. O principal suspeito é o ex-marido, de 21 anos, que fugiu após o crime e segue foragido.

O segundo feminicídio foi registrado na manhã do dia 10 de janeiro. Patrícia Cezar Nogueira, de 29 anos, trabalhava em uma lavoura de morangos quando foi atacada durante o intervalo de trabalho, após se afastar dos colegas. Ela foi morta com dois tiros na cabeça. O principal suspeito é o ex-namorado, Dionata da Silva Schmitt, de 30 anos, que não aceitava o fim do relacionamento. Ele foi preso no dia seguinte ao crime, assim como um homem suspeito de tê-lo ajudado a se esconder. Patrícia possuía medida protetiva contra o agressor.

A votação do projeto “Patrícia Vive” ocorre em um momento simbólico e decisivo para Bom Repouso. Para a vereadora Micheli Silva, a lei representa um compromisso do poder público com a vida das mulheres e com a construção de uma rede de proteção mais efetiva. Caso seja aprovada, a iniciativa pode se tornar um marco no enfrentamento à violência doméstica no município, transformando dor e indignação em políticas públicas de prevenção, acolhimento e conscientização.

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