Sábado, Março 7, 2026
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De Areias (SP) para a história do Brasil: Alfredo Gomes, o homem que venceu a 1ª São Silvestre e mudou o atletismo nacional

Antes de a São Silvestre se tornar um espetáculo global, ela teve origem em uma trajetória marcada por coragem, talento e resistência. O primeiro campeão da corrida mais tradicional do país era morador de Areias (SP). Alfredo Gomes não apenas venceu a edição inaugural, em 1924, como se transformou em um dos maiores símbolos do esporte brasileiro em um tempo em que vencer significava, antes de tudo, romper barreiras sociais e raciais.

“Não dá para falar de São Silvestre sem falar de Alfredo Gomes.” A afirmação do neto, o advogado, historiador e escritor Antônio Carlos de Paula, ecoa como verdade histórica. Alfredo foi o vencedor da primeira edição da São Silvestre, ficou em segundo lugar em 1926 e 1927 e terminou em terceiro em 1928, dominando as primeiras décadas da prova e ajudando a transformá-la em referência nacional.

Morador de Areias, Alfredo Gomes foi além das ruas de São Paulo. Nos anos 1920, tornou-se o primeiro atleta negro brasileiro a disputar uma Olimpíada. Em Paris, em 1924, carregou a bandeira do Brasil como porta-bandeira da delegação, um gesto histórico em um período marcado por preconceito e exclusão. Em uma das provas olímpicas, terminou em sexto lugar. Na corrida de cross country, sua maior esperança, o calor extremo, que chegou a 45 graus, impediu que mais da metade dos atletas completasse o percurso.

O contexto torna a façanha ainda maior. Três anos antes dos Jogos, havia resistência oficial à convocação de atletas negros. Mesmo assim, Alfredo não pôde ser ignorado. Em 1922, venceu provas nas comemorações do Centenário da Independência e acumulou resultados que tornaram inevitável sua presença olímpica. Sem patrocínio ou apoio institucional, só conseguiu viajar graças a uma vaquinha organizada por um jornalista de O Estado de São Paulo.

Após os Jogos, a história ganhou contornos ainda mais improváveis. Com a Revolução dos Tenentes em São Paulo, Alfredo ficou cerca de seis meses na Europa sem conseguir retornar ao Brasil. Nesse período, conviveu com atletas estrangeiros, aprendeu diversos idiomas e conheceu o italiano Heitor Blasi, seu principal rival nas primeiras edições da São Silvestre. Nos anos seguintes, os dois se revezaram no pódio, ajudando a consolidar definitivamente a corrida.

A descoberta do atletismo aconteceu quase por acaso. Palmeirense, Alfredo jogava futebol quando participou de uma corrida improvisada durante um piquenique na represa de Guarapiranga, em 1919. Venceu a prova e ganhou como prêmio uma caixa de charutos, ironicamente para alguém que não fumava. A partir dali, nasceu o atleta que dominaria as pistas brasileiras entre 1920 e 1930, vencendo praticamente todas as competições que disputou.

O talento chamou a atenção do Clube Esperia, que passou a apadrinhá-lo. Parte do acervo de troféus, medalhas e registros históricos de Alfredo Gomes permanece preservada no clube até hoje. Ainda assim, sua trajetória ficou por muito tempo esquecida, inclusive dentro da própria São Silvestre, que não possui registros completos da primeira edição. Não há consenso sobre a distância da prova e existem pouquíssimas imagens. Da Olimpíada de Paris, resta apenas uma foto de Alfredo com a bandeira brasileira.

Em Areias, cidade que ele representou e onde viveu, o resgate da memória ganhou força nos últimos anos. A população passou a conhecer a história do conterrâneo ilustre. Hoje, o município realiza a “Corrida Alfredo Gomes”, mantém exposições na Casa da Cultura, promove lançamentos de livros e inicia projetos esportivos voltados a crianças, todos levando o nome do atleta que saiu do interior paulista para entrar na história do esporte nacional.

O legado também atravessa gerações dentro da própria família. Antônio Carlos de Paula viu o avô correr a São Silvestre em 1954, aos 55 anos, apenas para completar a prova. Outro neto, Walter Gomes, prometeu homenageá-lo após sua morte, ocorrida em 1963, durante uma corrida na pista do Esperia. A promessa foi cumprida em 2015, quando Walter correu sua primeira São Silvestre aos 63 anos. Desde então, não parou mais.

Na 100ª edição da São Silvestre, a história volta ao seu ponto de origem. Antes da avenida, do pódio e da multidão, havia Areias. E foi dessa cidade do interior de São Paulo que saiu Alfredo Gomes, o primeiro campeão de uma prova que se tornou eterna e ajudou a moldar o esporte brasileiro.

Medalha da “Corrida Alfredo Gomes”, em Areias (SP) Primeira taça da São Silvestre Alfredo Gomes em competição

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