Sábado, Março 7, 2026
Capa

Arrastada por um quilômetro e internada por 25 dias, Tainara morre na noite de Natal em São Paulo

Após 25 dias de internação, luta intensa pela vida e uma sequência de procedimentos cirúrgicos, Tainara Souza Santos, de 31 anos, morreu na noite de Natal. A morte foi confirmada pela família nesta quarta-feira (24), no Hospital das Clínicas, onde ela estava internada desde o grave atropelamento ocorrido no fim de novembro, na zona norte da capital paulista.

Tainara foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro por um veículo na região do Parque Novo Mundo, em uma via de acesso à Marginal Tietê. O impacto e o arrastamento provocaram ferimentos gravíssimos. As duas pernas precisaram ser amputadas, e a vítima passou por ao menos cinco cirurgias na tentativa de conter infecções e reconstruir parte das lesões. Desde o dia do acidente, ela permaneceu intubada, em estado crítico.

A última intervenção cirúrgica ocorreu na segunda-feira (22), quando médicos retiraram pele para enxerto na região dos glúteos, onde ainda restava parte da perna. Durante o tratamento, Tainara também foi submetida a uma traqueostomia para retirada do tubo respiratório. Apesar dos esforços da equipe médica, o quadro evoluiu de forma desfavorável.

Na terça-feira (23), um dia antes da morte, a mãe da vítima, Lúcia Aparecida Souza da Silva, publicou um vídeo nas redes sociais relatando a situação delicada da filha. Segundo ela, Tainara havia sido encaminhada ao quarto muito debilitada, em razão do trauma causado pelas amputações, embora a cirurgia mais recente tivesse ocorrido sem intercorrências graves. Horas depois, a família foi chamada ao hospital e informada de que Tainara não respondia mais às medicações. Diante da gravidade, a mãe pediu orações.

Tainara deixa dois filhos. Além da dor da perda, a família agora enfrenta a angústia de um processo judicial que ficou marcado pela ausência do depoimento da vítima. O advogado da família, Fabio Costa, afirmou que o relato de Tainara seria fundamental para esclarecer pontos centrais da investigação, especialmente sobre o vínculo entre ela e o motorista acusado. Segundo ele, o depoimento ajudaria a esclarecer o que de fato ocorreu naquela noite e a encerrar versões conflitantes apresentadas ao longo do inquérito.

O objetivo da família, segundo o advogado, segue sendo que o acusado vá a júri popular, algo que, segundo ele, sempre foi considerado essencial desde o início do caso.

O atropelamento ocorreu na manhã de 29 de novembro. Douglas Alves da Silva, de 26 anos, conduzia um Golf preto quando atingiu Tainara e seguiu dirigindo mesmo com o corpo dela preso ao veículo. Imagens de câmeras de segurança e vídeos gravados por outros motoristas mostram o carro circulando pela marginal com a vítima sendo arrastada.

Testemunhas relataram à polícia que a ação teria sido intencional. Um funcionário de um estabelecimento próximo afirmou que o motorista atropelou a vítima de forma deliberada, passando por cima do corpo e realizando manobras bruscas com o carro, incluindo o acionamento do freio de mão. Familiares e pessoas próximas afirmaram que Tainara e Douglas tiveram um relacionamento breve, já encerrado por iniciativa dela.

A defesa do acusado sustenta que ele não teve a intenção de atingir Tainara, alegando que o alvo seria um homem que a acompanhava. Douglas também afirma não ter percebido que arrastava a vítima e diz que deixou o local por medo de agressões. A versão, no entanto, é contraditada por relatos de testemunhas e pelo depoimento do passageiro do veículo, que afirmou que o motorista ficou furioso ao ver Tainara acompanhada de outro homem e teria agido com intenção.

Douglas foi preso no dia seguinte ao crime e se tornou réu por tentativa de feminicídio contra Tainara e tentativa de homicídio contra o homem que estava com ela.

O caso se soma a um cenário alarmante. Até outubro de 2025, a cidade de São Paulo registrou 53 feminicídios, o maior número da série histórica. Em todo o ano anterior, haviam sido contabilizados 51 casos. Levantamento do Instituto Sou da Paz aponta que a capital concentra um em cada quatro feminicídios do estado, com crescimento expressivo nos últimos anos. A maioria das vítimas é assassinada dentro de casa, geralmente com armas brancas ou objetos contundentes, evidenciando um padrão persistente de violência contra a mulher.

A morte de Tainara, na noite que simboliza esperança e renascimento para muitas famílias, escancara mais uma vez a brutalidade do feminicídio e a urgência de respostas efetivas do sistema de justiça e da sociedade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Content is protected !!