PENA REDUZIDA, BARBÁRIE INTACTA
Assassino que matou médica do Vale a facadas, tentou esconder o corpo em uma mala e teve mais de 6 anos cortados da condenação pelo TJ-SP
O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu reduzir a pena de Davi Izaque Martins da Silva, condenado pelo feminicídio da médica guaratinguetaense Thallita da Cruz Fernandes, de 28 anos. A sentença — antes de 31 anos e seis meses — caiu para 25 anos e três meses, em regime inicial fechado.
A 2ª instância manteve a condenação por feminicídio qualificado, mas entendeu que houve exagero na aplicação de agravantes pela juíza de primeira instância, Gláucia Véspoli Oliveira. A decisão foi relatada por Diniz Fernando, com participação dos desembargadores Ana Zomer, Mário Devienne Ferraz e Flávio Fenoglio.
Segundo o acórdão, algumas circunstâncias usadas para aumentar a pena já estavam incluídas nas qualificadoras reconhecidas pelo Tribunal do Júri — o que configurou “dupla valoração”. Entre elas:
- as facadas com crueldade, já contempladas no meio cruel;
- o fato de Thallita estar dormindo, reforçando vulnerabilidade já prevista no feminicídio;
- a tentativa de ocultar o corpo em uma mala, que não poderia ser utilizada novamente como agravante.
O TJ-SP considerou que a pena foi “pesada além do necessário” nesses pontos e fez o reajuste, sem alterar a gravidade do crime ou o reconhecimento das qualificadoras.
O Tribunal reforçou que Davi matou Thallita por motivo torpe, inconformado com o fim do relacionamento, e aplicou mais de 20 facadas enquanto ela dormia. Depois, tentou colocar o corpo da médica dentro de uma mala para se desfazer dele — plano interrompido pela chegada de vizinhos e da polícia.
O crime ocorreu em agosto de 2023. A morte só foi descoberta porque a mãe, em Guaratinguetá, estranhou o silêncio da filha e pediu que uma amiga fosse até o apartamento dela, em São José do Rio Preto.
Com a nova decisão, Davi segue preso, condenado por feminicídio qualificado por motivo torpe e meio cruel, além de ter de pagar 11 dias-multa. A Procuradoria de Justiça Criminal de Rio Preto informou que irá analisar a decisão.
“Apertaram um botão, mas não apagaram minha dor”, diz a mãe
A mãe de Thallita, Juliana Cruz, criticou duramente a redução da pena em um desabafo publicado nas redes sociais.
“Como mãe, me pergunto: que Justiça é essa que diminui a punição de quem tirou a vida de uma mulher com mais de 30 facadas enquanto ela dormia? Como conseguem olhar para um crime tão cruel, tão desumano, e ainda assim falar em ‘ajustes técnicos’, como se fossem números, fórmulas… e não uma vida que foi arrancada?”, escreveu.
“Reduziram a pena. Reduziram como se estivessem apertando um botão. Mas não reduzem a minha dor, que é diária, sufocante, infinita. Não reduzem o vazio de acordar e lembrar que nunca mais vou ouvir a voz dela.”
Juliana finalizou dizendo:
“A Thallita tinha 28 anos. Tinha sonhos, planos, futuro. Tinha um coração gigante e um talento raro. Mas tudo isso foi destruído por alguém que não aceitou o fim de um relacionamento.”
Relembre o crime que chocou o país
O caso ganhou repercussão nacional pela brutalidade e pela frieza do assassino. O Ministério Público e a Polícia Civil revelaram detalhes do comportamento manipulador de Davi.
Na madrugada de 18 de agosto de 2023, após consumir cocaína, bebidas alcoólicas e ecstasy, Davi voltou ao apartamento na Vila Imperial e, sem chance de defesa, atacou Thallita — que dormia em seu único dia de folga da semana.
A médica era plantonista na saúde pública de Bady Bassitt. Depois do assassinato, Davi tentou esconder o corpo na mala. O zíper arrebentou, frustrando o plano. O corpo ficou na área de serviço.
No dia seguinte, ele foi encontrado na casa da mãe, também em Rio Preto. Não ofereceu resistência e confessou o crime.

