“Saímos para trabalhar com medo de não voltar”, dizem motoristas após onda de crimes no Vale
A violência contra motoristas de aplicativos tem se intensificado no Vale do Paraíba, espalhando medo e revolta na categoria. Em menos de uma semana, um motorista foi assassinado, outro sequestrado e um terceiro assaltado, todos em situações de extremo risco. Os casos recentes reforçam o temor de quem, diariamente, depende do volante para garantir o sustento da família.
No fim de agosto, um motorista e seu passageiro foram rendidos em um assalto à mão armada. Já em julho, uma motorista foi ameaçada dentro de um motel por um passageiro que tentou estuprá-la. Esses crimes, somados aos mais recentes, desenham um cenário de insegurança que tem afastado profissionais da atividade.
“Estamos cada vez mais preocupados com os crimes. Tem gente que sai de casa com medo de não voltar”, relatou um motorista de aplicativo, que preferiu não se identificar.
O caso mais grave foi o assassinato de Carlos Eduardo de Faria César, de 23 anos, de São José dos Campos. Ele desapareceu em uma sexta-feira e, dois dias depois, foi encontrado morto em uma área rural de Jacareí. De acordo com o delegado Diego Amaral, Carlos Eduardo foi vítima de latrocínio (roubo seguido de morte). Dois suspeitos foram presos: Clayton Luiz Moreira Júnior, de 19 anos, que confessou o crime durante abordagem policial, e Jonathan Eduardo Sousa Goulart, de 24 anos, que se apresentou espontaneamente.
Na noite seguinte, outro motorista passou por momentos de terror. Ele foi sequestrado durante uma corrida iniciada em São José e encerrada em Caraguatatuba. Mantido em cárcere privado por dois criminosos, foi obrigado a realizar transferências via Pix sob ameaça. Ao perceber que os agressores não estavam armados, reagiu e, com ajuda de populares, conseguiu escapar. Os criminosos fugiram, mas acabaram presos.
Já nesta quarta-feira, Geovany Diaz Alvarez, também motorista de aplicativo, foi localizado com vida após desaparecer no dia anterior. Segundo colegas de profissão, ele havia sido vítima de assalto, teve seus pertences roubados e ficou incomunicável até ser encontrado.
A sequência de crimes se estende: no dia 16 de agosto, outro motorista e seu passageiro foram cercados por seis assaltantes em Caraguatatuba. Eles perderam carro, celulares, documentos e cartões bancários. Dois dias depois, o veículo foi recuperado, mas os demais pertences não.
Em julho, uma motorista também escapou por pouco de uma tentativa de estupro. O passageiro, ao chegar a um motel na zona leste de São José, simulou estar armado e tentou forçá-la a entrar em um quarto. A vítima reagiu, pediu socorro e conseguiu escapar. O caso foi registrado na Delegacia da Mulher, mas o suspeito não permaneceu preso.
Procurada, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) não se manifestou. Já a Uber afirmou que investe em recursos de segurança e reforçou orientações aos motoristas: “Confie na sua intuição, use o botão de ligar para a polícia pelo app e finalize a viagem sempre que não se sentir seguro”, informou a plataforma.
Enquanto isso, entre corridas e incertezas, os motoristas seguem com a sensação de trabalhar à beira do perigo, sem garantias de voltar para casa ao fim do dia.

Motorista é alvo de assalto; no detalhe, Carlos Eduardo (em cima) e Geovany Alvarez (Foto OVale)

