Quando ensinar dói: duas perdas no Sul Fluminense escancaram o peso invisível sobre quem educa
Volta Redonda e Barra Mansa amanheceram mais silenciosas nas últimas semanas. Duas mulheres, duas profissionais da Educação, duas histórias atravessadas pelo cansaço emocional que tantas vezes se esconde atrás de diários de classe, planejamentos e sorrisos em sala. As mortes reacenderam uma ferida que insiste em não cicatrizar: a saúde mental de quem dedica a vida a ensinar.
Bárbara Melo, nascida em Volta Redonda, faleceu no dia 17 de fevereiro. A missa de sétimo dia foi celebrada em 22 de fevereiro, na Igreja Santa Cecília, reunindo amigos, familiares e colegas de profissão em uma despedida marcada por comoção e incredulidade. Pessoas próximas relataram que ela enfrentava um quadro de depressão agravado, uma batalha silenciosa travada longe dos olhos da maioria.
Com trajetória construída ao longo de anos em diferentes escolas de Barra Mansa, Bárbara dedicou-se à educação com empenho reconhecido por colegas e alunos. Diante do avanço dos problemas de saúde, foi readaptada de função, passando a atuar como agente de apoio. Ainda assim, o peso do cotidiano mostrou-se maior. Ela foi encontrada sem vida pelo próprio filho, numa cena que transformou a dor íntima em luto coletivo.
Outra perda abalou a região. Barbara Castro atuava na Saec, Sala de Recursos Educacionais, voltada ao atendimento de alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, e havia sido recentemente recolocada em sala de aula na Escola Municipal Iracema Pamplona. Sua morte também gerou consternação e reforçou a preocupação com os impactos emocionais enfrentados por profissionais que lidam diariamente com múltiplas responsabilidades, pressões administrativas, desafios pedagógicos e, muitas vezes, mudanças bruscas de função ou de lotação.
As circunstâncias que envolveram as duas mortes ampliaram o debate sobre o adoecimento psíquico entre servidores públicos, especialmente na Educação. Readaptações, retornos à sala de aula, acúmulo de demandas e a cobrança constante por resultados compõem um cenário que exige atenção urgente. Por trás de cada profissional existe uma história, uma família, limites humanos que nem sempre são respeitados.
Especialistas alertam que quadros de depressão não podem ser tratados como fragilidade individual. Exigem acompanhamento contínuo, acolhimento institucional e políticas públicas eficazes, capazes de criar ambientes de trabalho mais saudáveis e redes de apoio estruturadas. Familiares, amigos e colegas das educadoras destacam a necessidade de romper o silêncio, combater o estigma e transformar o debate em ações concretas.
Falar sobre saúde mental é, antes de tudo, um ato de cuidado. Se você ou alguém que você conhece enfrenta sofrimento emocional, procure ajuda profissional. O Centro de Valorização da Vida CVV oferece atendimento gratuito, sigiloso e 24 horas por dia pelo telefone 188. Não é preciso enfrentar a dor sozinho.


