Padre do Santuário de Aparecida critica caminhada de Nikolas Ferreira e afirma: “Quer o poder”
O padre Ferdinando Mancílio, missionário redentorista e prefeito de Igreja do Santuário Nacional de Aparecida, criticou publicamente a caminhada realizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) até Brasília. As declarações foram feitas durante homilia celebrada na Basílica do Santuário nesta semana e repercutiram amplamente nas redes sociais.
Durante a pregação, o sacerdote questionou o sentido político do ato liderado por Nikolas, que defendia a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. “Não adianta querer fazer uma marcha para Brasília alguém que nunca teve nenhum projeto a favor do povo e dizer que está defendendo a vida. Mentira. Quer o poder. Acho que você entende o que eu estou dizendo”, afirmou Mancílio diante dos fiéis.
A caminhada teve início na segunda-feira (19), em Minas Gerais, e chegou ao Distrito Federal no sábado (24). O ato contou com a participação de parlamentares, influenciadores e religiosos ligados à direita. Do Vale do Paraíba, aderiram à mobilização a deputada estadual Letícia Aguiar e os vereadores Thomaz Henrique e Anderson Senna, todos do PL e de São José dos Campos.
Ainda durante a homilia, o padre também criticou a defesa do armamento civil, pauta recorrente de políticos e lideranças religiosas alinhadas à direita. Segundo ele, não é possível conciliar a fé cristã com a defesa das armas. “A arma só tem uma finalidade, ferir e matar. Para onde que eu quero ir? A favor da vida ou a favor da morte?”, questionou.
O religioso ainda rebateu argumentos comuns usados por defensores do armamento. “Alguém me disse: ‘O machado também mata’. E eu respondi: ‘Mas a finalidade dele é outra’. De que lado nós estamos?”, completou.
Trechos da pregação passaram a circular intensamente nas redes sociais e geraram reações opostas. Influenciadores e políticos de direita criticaram o padre, acusando-o de fazer uso político do altar e afirmando que a Igreja não deveria se posicionar dessa forma. Por outro lado, militantes e lideranças de esquerda manifestaram apoio ao sacerdote, elogiando a postura e defendendo que a fala contribui para a reflexão crítica dos cristãos sobre política e valores.
Essa não é a primeira vez que líderes religiosos ligados ao Santuário Nacional de Aparecida se tornam alvo de ataques por parte de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Durante seu governo, o arcebispo dom Orlando Brandes foi frequentemente criticado, inclusive por ter afirmado, em uma homilia, a necessidade de “vencer o dragão do ódio, da mentira, do desemprego, da fome e da incredulidade”.
Em 2018, às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, o então reitor do Santuário, padre João Batista de Almeida, também foi alvo de críticas ao afirmar que o momento político “separa casais, famílias e partidos”.
As declarações de padre Ferdinando Mancílio reacendem o debate sobre o papel da Igreja Católica no cenário político brasileiro e evidenciam, mais uma vez, a polarização em torno de manifestações religiosas que abordam temas sociais e políticos.

