São Paulo lidera número de assassinatos de pessoas trans no Brasil, aponta dossiê da Antra
O estado de São Paulo aparece como o mais letal do país para pessoas transexuais e travestis, segundo levantamento divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). De acordo com o dossiê que analisou o período entre 2017 e 2025, foram 155 mortes registradas em território paulista, o maior número entre todas as unidades da federação.
Os dados integram a nona edição do Dossiê: Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, lançado nesta segunda-feira (26), e reforçam a posição do Brasil como o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Somente em 2025, foram contabilizados 80 assassinatos no país, ainda que o relatório destaque uma redução de cerca de 34% em relação ao ano anterior.
Apesar da queda no número geral de mortes, o dossiê aponta que a diminuição não representa, necessariamente, uma redução da violência. O estudo indica crescimento nas tentativas de homicídio, o que evidencia que a população trans segue exposta a um cenário contínuo de risco, inclusive em São Paulo, estado que concentra historicamente os maiores números absolutos de casos.
O levantamento revela que a maioria das vítimas são travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, com idade entre 18 e 35 anos, sendo pessoas negras e pardas as mais atingidas. Segundo a Antra, esses dados refletem um contexto estrutural de exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico prolongado.
Para a presidente da entidade, Bruna Benevides, os números não podem ser analisados como episódios isolados. Segundo ela, os registros evidenciam um sistema que naturaliza a violência e invisibiliza essas mortes. O próprio método de coleta dos dados — baseado em monitoramento diário da imprensa, denúncias diretas e registros públicos — já demonstra uma falha estrutural do Estado, uma vez que, sem a atuação da sociedade civil, muitos casos sequer seriam contabilizados oficialmente.
O dossiê também aponta fatores que ajudam a explicar a persistência da violência, mesmo diante da redução no número de assassinatos, como a subnotificação, o descrédito nas instituições de segurança e justiça, a retração da cobertura midiática e a ausência de políticas públicas específicas para o enfrentamento da transfobia.
Além do diagnóstico, o relatório apresenta recomendações voltadas ao poder público, à segurança pública e ao sistema de justiça, com o objetivo de romper com a lógica de impunidade e escassez de proteção que marca a realidade das pessoas trans. Entre os pontos destacados está a necessidade de garantir que políticas de proteção às mulheres também sejam acessíveis às mulheres trans, ampliando o alcance das ações já existentes.
A Antra avalia que o dossiê cumpre o papel de informar a sociedade, constranger o Estado e impedir que o silêncio institucional continue apagando vidas. Segundo a entidade, há produção suficiente de dados e estudos, mas falta ação concreta por parte dos tomadores de decisão para enfrentar de forma efetiva a violência contra a população trans, inclusive no estado de São Paulo, que lidera esse triste ranking.


