Grávida e com filho de 2 anos, esposa de jovem morto por PM enfrenta luto e incerteza em São José dos Campos
A morte de Carlos Alberto Chagas Júnior, de 21 anos, baleado na cabeça por um policial militar em São José dos Campos, deixou muito mais do que uma estatística policial. Grávida e mãe de um menino de apenas dois anos, a esposa do jovem agora enfrenta o luto, a dor e a incerteza de criar os filhos sem o companheiro ao seu lado.
Carlos foi baleado na noite de domingo e passou dias internado na UTI do Hospital Municipal, na Vila Industrial, em coma. Na terça-feira, a equipe médica confirmou a morte cerebral. Em meio à tragédia, os pais autorizaram a doação de órgãos, decisão tomada enquanto a família tentava assimilar a perda precoce de um filho, marido e pai.
Segundo familiares, Carlos vivia um momento decisivo da vida. Estava desempregado, mas havia conseguido um trabalho como ajudante de pedreiro e começaria na segunda-feira seguinte, um dia depois de ser baleado. O novo emprego representava a chance de garantir sustento ao filho pequeno e se preparar para a chegada do segundo bebê, que ainda está sendo gestado.
Na quarta-feira, a família recebeu oficialmente o exame que confirmou a morte cerebral. Os trâmites para a captação de órgãos podem atrasar o sepultamento em até 36 horas, prolongando ainda mais a angústia dos familiares.
De acordo com a versão registrada no boletim de ocorrência, Carlos conduzia uma motocicleta com registro de furto e sem capacete, quando desobedeceu a uma ordem de parada da Polícia Militar. Houve perseguição por bairros da região sul da cidade, como Parque Interlagos e Campo dos Alemães, que terminou com disparos e a colisão da moto contra um veículo estacionado. Um dos tiros atingiu a cabeça do jovem.
O boletim informa que não há antecedentes criminais em nome de Carlos Alberto nos sistemas policiais. Mesmo assim, a Polícia Civil registrou o caso como flagrante e, de forma preliminar, reconheceu a existência de legítima defesa na intervenção do policial, ressaltando que possíveis excessos ainda serão analisados, inclusive com base em imagens de câmeras corporais.
No local da ocorrência, segundo o registro oficial, uma equipe encontrou um revólver calibre 38, com dois cartuchos íntegros, próximo de onde Carlos caiu. A arma foi apreendida e relacionada ao suspeito no boletim. Também foi recolhido o armamento do policial envolvido.
A família contesta essa versão. A tia do jovem afirma que Carlos não estava armado e pede justiça. Segundo ela, a motocicleta pertenceria a um amigo e teria sido usada apenas para um passeio. “Ele fugiu, sabemos que isso foi errado, mas não estava armado. Ele não atirou. Agora ficou uma criança sem pai e uma mulher grávida sem o marido”, afirmou.
Enquanto a investigação segue, a realidade que permanece é a de uma criança de dois anos que não verá o pai crescer ao seu lado e de um bebê que nascerá sem conhecer o próprio pai. Uma família que sonhava com recomeço agora tenta sobreviver à dor de uma perda irreversível.


