Guerra do tráfico no Vale: CV baixa o preço da cocaína e lança o “pó de R$ 20” para enfrentar o PCC
No submundo do crime, até o preço vira arma. Em meio à guerra aberta pelo controle do tráfico no Vale do Paraíba, o Comando Vermelho resolveu atacar onde dói: no bolso do consumidor. Para disputar território com o Primeiro Comando da Capital, a facção passou a espalhar pela região a cocaína batizada de “pó de R$ 20”, uma estratégia barata, agressiva e simbólica de que a disputa está longe de acabar.
O conflito entre as duas maiores facções criminosas do país, travado longe dos olhos da maioria da população, ganhou novos contornos com uma ofensiva policial realizada em Bananal, cidade na divisa com o Rio de Janeiro. No último sábado, uma operação conjunta das polícias Civil e Militar mirou integrantes ligados ao Comando Vermelho e terminou com oito suspeitos presos, além da apreensão de drogas e equipamentos usados na engrenagem do tráfico.
Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão. Em uma das casas vistoriadas, os policiais encontraram 30 eppendorfs de cocaína prontos para a venda, cerca de 50 pinos vazios e um rádio comunicador portátil, o famoso HT, ferramenta básica da comunicação entre traficantes e olheiros. Um cenário típico de biqueira estruturada, funcionando como ponto avançado de uma guerra silenciosa.
Chamou a atenção dos investigadores o detalhe estampado nos pinos de cocaína. O material trazia um selo que imitava as cores da marca Red Bull e exibia as inscrições “Complexo do Centro” e “pó de R$ 20”. Não é mero enfeite. Segundo a polícia, trata-se de uma jogada calculada para ampliar o alcance do varejo da droga, conquistar usuários e tentar ocupar pontos antes dominados por facções rivais.
Ao todo, sete pessoas eram alvos diretos da operação, e uma acabou detida por porte de droga. Mas o recado da ação vai além das prisões. Ela acontece em um cenário de tensão crescente entre PCC e CV no Vale do Paraíba, região que hoje lidera os índices de homicídios no estado de São Paulo. A disputa por biqueiras e rotas estratégicas transformou bairros inteiros em territórios de medo, onde o domínio muda de mãos à base da violência.
Esse embate não nasceu agora. Investigações já apontavam, anos atrás, que o Comando Vermelho avançava sobre cidades do Vale após o PCC concentrar seus esforços no tráfico internacional de drogas. O vácuo de poder abriu espaço para a infiltração de criminosos vindos do Rio de Janeiro, especialmente em municípios como Lorena, Cruzeiro, Bananal, Ubatuba e Caraguatatuba.
Com a retomada do interesse do PCC no varejo, a guerra voltou a ferver. Houve mortes dos dois lados, períodos breves de trégua e, agora, uma nova escalada. O “pó de R$ 20” surge como símbolo dessa fase: droga barata, vendida em larga escala, usada como bandeira de conquista territorial.
No fim das contas, quem paga a conta não são apenas as facções. É a população, que assiste de perto à transformação do Vale do Paraíba em palco de uma disputa brutal, onde o crime se reinventa, muda de estratégia, mas mantém o mesmo rastro de violência e sangue. Gil Gomes diria: atenção, senhores… porque quando o preço cai no tráfico, o custo humano costuma subir.

