Sexta-feira, Março 6, 2026
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De Ubatuba ao Atlântico Sul: a mulher que trocou o escritório por uma travessia histórica

Aos 27 anos, Theodora Prado trocou planilhas, metas corporativas e a rotina de escritório por vento, velas e o imprevisível do mar. Ex-analista do mercado financeiro, ela encontrou no Litoral Norte de São Paulo, mais precisamente em Ubatuba, o cenário que redefiniu completamente sua trajetória profissional e pessoal.


Natural do interior do Paraná, Theodora cresceu em meio ao campo, entre cavalos, treinos de montaria e competições de tambor. Apesar da ligação com o esporte desde cedo, foi apenas anos depois, já adulta e inserida no mercado financeiro, que experimentou uma mudança radical de rumo. Durante a pandemia do coronavírus, cansada da vida urbana em São Paulo e do trabalho remoto intenso, aceitou o convite de amigos para passar alguns dias no litoral. A pausa virou decisão de vida.


Em Ubatuba, o contato diário com o mar despertou primeiro o interesse pelo surfe. A busca por uma aula acabou abrindo portas para algo ainda maior. Pouco tempo depois, veio o primeiro contato com a vela, experiência que ela descreve como transformadora. A sensação de pisar em um veleiro pela primeira vez foi suficiente para acender a certeza de que aquele universo precisava fazer parte do seu futuro, mesmo sem saber exatamente como.


Sem histórico familiar na navegação e sem acesso direto a embarcações, Theodora começou a buscar alternativas para aprender e se inserir no meio. Encontrou nas regatas o espaço ideal para unir disciplina, estratégia e paixão. Mesmo mantendo o trabalho remoto por um período, passou a competir, ganhar experiência e, aos poucos, migrar definitivamente para o mar. Chegou a viver quase dois anos sozinha a bordo de um veleiro, experiência que descreve como decisiva para seu amadurecimento.


Hoje, Theodora atua como skipper, profissional responsável pela condução, entrega e gestão de embarcações, além de promover vivências imersivas no mar em destinos como Ubatuba, Paraty e Ilhabela. Segundo ela, a bagagem adquirida no mercado financeiro foi fundamental para profissionalizar o trabalho náutico, aplicando planejamento, estratégia e gestão em um ambiente onde o improviso pode custar caro.


A virada definitiva aconteceu após uma travessia oceânica em grupo rumo à África. O convite, segundo ela, foi irrecusável. Ao cruzar o oceano, teve a certeza de que não queria mais retornar ao modelo tradicional de trabalho em escritório. Ao voltar ao Brasil, surgiu a primeira cliente e, com ela, a consolidação de uma nova carreira, guiada pelo mar.


Atualmente morando em Ubatuba, Theodora segue equilibrando projetos comerciais e iniciativas autorais, sempre em movimento. Para ela, o mar se tornou uma escola constante de adaptação, resiliência e perspectiva. Em suas reflexões, destaca que nem a tempestade nem a calmaria são permanentes, e que aprender a se ajustar é parte essencial da jornada.


No final deste ano, Theodora deu mais um passo histórico. A velejadora está participando da tradicional regata Cape2Rio, que completa 50 anos em 2025 e é considerada uma das travessias oceânicas mais emblemáticas do mundo. A largada ocorreu em 27 de dezembro, em Cape Town, na África do Sul, com chegada prevista no Rio de Janeiro após cerca de 30 dias de navegação pelo Atlântico Sul.


Além do desafio extremo, Theodora entra para a história como a primeira mulher do mundo a disputar a competição em solitário, já que a regata é tradicionalmente realizada em tripulação. Em publicação nas redes sociais, ela definiu a experiência como a materialização de um sonho antigo, daqueles que o mar sussurra diariamente até que alguém tenha coragem de escutar.


Ubatuba, que um dia foi apenas refúgio temporário, agora se consolida como o ponto de partida de uma história que atravessa oceanos e reposiciona o Brasil em uma das mais tradicionais disputas da vela mundial.

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